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19/01/2007 Crueldade e xenofobia envergonham e agitam o país afortunado O escritor australiano Donald Horne pretendia que o título do seu
celebrado livro, The lucky country [O país afortunado],
significasse ironia. «A Austrália é um país afortunado dirigido por pessoas
de segunda classe que compartilham da sua sorte», lamentou em 1964,
descrevendo grande parte da elite australiana como infalivelmente falhos de
originalidade, obcecados com a raça e avassalados pelo poder imperial e pelas
suas guerras. Das aventuras do ópio da Grã‑Bretanha no século 19 à
farsa actual dos Estados Unidos no Iraque, os australianos foram enviados
para lutar contra povos longínquos com os quais não têm nenhuma disputa e que
não oferecem nenhuma ameaça de invasão. Cresci aqui na convicção de que esta
era uma “tradição sagrada”. Mas então uma outra Austrália foi “descoberta”. Os únicos mortos de
guerra que os australianos nunca tinham chorado foram encontrados justamente
sob os seus narizes: aqueles que faziam parte de um notável povo indígena que
tinha possuído e cuidado esta terra antiga durante milhares dos anos, depois
lutado e morrido em sua defesa quando os britânicos a invadiram. Numa terra
cheia de cenotáfios, nenhum lhes prestava homenagem. Para muitos brancos, o
despertar era rude; para outros foi excitante. Nos anos 70, em grande parte
graças ao breve, corajoso e subvertido governo trabalhista de Gough Whitlam,
as universidades abriram os seus estudos a estas heresias e as suas portas a
uma sociedade que Mark Twain em tempos identificou como «povoada quase
inteiramente pelas ordens mais baixas». Uma história secreta revelou que,
muito antes do resto do mundo ocidental, o povo trabalhador australiano tinha
lutado por e conseguido um salário mínimo, um dia de trabalho de oito horas,
pensões, benefícios para as crianças e o voto para mulheres. E agora havia
uma diversidade étnica surpreendente; e tinha acontecido como por defeito;
simplesmente não havia suficientes britânicos e “bálticos de olhos azuis” que
quisessem vir. Austrália não é notícia com frequência, tirando o críquete e os
incêndios florestais. É uma pena, porque a regressão desta democracia social
para um estado de medo e xenofobia fabricados é um objecto de estudo para
todas as sociedades que reivindicam ser livres. No poder há mais de uma
década, o primeiro‑ministro liberal, John Howard, vem dos rincões dos neocons
da Austrália. Em 1988, anunciou que um futuro governo liderado por ele
seguiria uma “Política de Uma Austrália”, um precursor infame do partido Uma
Nação de Pauline Hanson, cujos alvos eram australianos e imigrantes negros.
Os alvos de Howard foram similares. Um dos seus primeiros actos como primeiro‑ministro
foi cortar 400 milhões de dólares australianos do orçamento dos assuntos
aborígenes. «O politicamente correcto», disse, «foi demasiado longe». Hoje,
os australianos negros têm uma das expectativas de vida mais baixas do mundo,
e a sua saúde é a pior do mundo. Uma doença inteiramente prevenível, o
tracoma – derrotada em muitos países pobres – ainda os cega devido às
aterradoras condições de vida. O empobrecimento das comunidades negras, que
pouco vi mudar ao longo dos anos, foi descrito em 2006 por Save the Children
como «do pior que vimos no nosso trabalho em todo o mundo». Em vez de
respeito político na forma de uma lei de direitos das terras nacionais, uma
guerra de atrito legal foi empreendida contra os aborígenes; e as epidemias e
os suicídios de negros continuam. Howard regozija-se na sua promoção de “valores australianos” – um
subserviência muito australiana aos “valores” açucarados do poder estrangeiro
(americano). O primeiro‑ministro, menino querido de um grupo de
supremacistas brancos que zumbem em torno de entrevistadores de rádio e da
imprensa dominada por Murdoch, usou acólitos para atacar “o ponto de vista
negro da história”, como se a matança massiva e a resistência dos australianos
indígenas não tivessem ocorrido. O excelente historiador, Henry Reynolds,
autor de The other side of the frontier [O outro lado da fronteira],
foi completamente conspurcado, juntamente com outros revisionistas. Em 2005,
Andrew Jaspan, um britânico recentemente nomeado editor do Melbourne Age,
foi objecto de uma viciosa campanha neocon que o acusou de “reduzir” o
Age a «outro Guardian [liberal]». Acenar de bandeiras e um untuoso chauvinismo de mão-no-coração sobre o
qual os australianos cépticos sentiam outrora uma saudável ambivalência são
agora prática padrão nos desportos e em outros eventos públicos. Estes servem
para preparar os australianos para o militarismo e a guerra renovados, como prescrito
pela administração Bush, e para encobrir ataques sobre a comunidade muçulmana
da Austrália. Proteste e pode estar a quebrar uma lei da sedição de 2005 desenhada
para intimidar com a ameaça de prisão até sete anos. Descrito uma vez nos
meios de comunicação como o «xerife-adjunto» de Bush, Howard não pôs objecções
quando Bush, ao ouvir isto, o promoveu a «xerife para o sudeste asiático».
Como um mini-Blair, ele enviou tropas e polícias federais para as Ilhas Solomão,
Tonga, Papua Nova Guiné e Timor Leste. Em Timor Leste recém independente,
onde os governos australianos se conluiaram com uma ocupação sangrenta de 23
anos por parte da Indonésia, a “mudança de regime” foi eficazmente executada no
ano passado com a renúncia do primeiro‑ministro, Mari Alkatiri, que
teve a temeridade de se opor à exploração unilateral de Canberra dos recursos
do petróleo e do gás do seu país. No entanto, é um homem, David Hicks, um perdedor espectacular na nova
Austrália, que ameaça agora a fachada “afortunada” de Howard. Hicks foi
encontrado entre os Taliban no Afeganistão em 2001 e entregue aos americanos
a troco de um prémio por senhores da guerra apoiados pela CIA. Passou mais de
cinco anos na baía de Guantánamo, incluindo oito meses numa cela sem luz
solar. Foi torturado, e nunca acusado de algum crime. Howard e o seu
Procurador Geral, Philip Ruddock, recusaram‑se mesmo a pedir o
repatriamento de Hicks, como é seu direito constitucional, porque não há
nenhuma lei australiana sob a qual Hicks possa ser acusado. A sua crueldade é
de cortar a respiração. Uma campanha tenaz por parte do seu pai, Terry,
inflamou uma espécie de vergonha pública que está a crescer. Isto já
aconteceu antes na Austrália, tal como a marcha de um milhão de pessoas
através da Ponte do Porto de Sydney exigindo justiça para os australianos negros,
e a corajosa acção directa por jovens que forçaram o encerramento de infames
e remotos campos de detenção para refugiados ilegais, com as suas celas de
isolamento, pulverizações de gás lacrimogéneo (capsicum) e
espancamentos. Os que procuram asilo e são apanhados nos seus barcos furados
pela sempre vigilante Força de Defesa Australiana são agora encarcerados atrás
das cercas eléctricas na minúscula Ilha do Natal a mais de 1.000 milhas do
país afortunado. Howard não enfrenta oposição real do condescendente partido Trabalhista. Os sindicatos, enfrentando um retrocesso do orgulhoso registro de direitos dos trabalhadores da Austrália e até 43 por cento de desemprego entre a juventude, agitaram‑se, e encheram as ruas. Mas talvez algo mais amplo e mais profundo esteja a vir de uma nação cuja auto-imagem mais duradoira e melancólica é a de desobedientes desordeiros (rebeldes). Durante a recente série de críquete Ashes, Ian Chappell, um dos capitães mais admirados da Austrália, saiu da cabina de relato quando Howard entrou. Após ter visto por si mesmo as condições numa prisão de refugiados, Chappell disse: «São seres humanos e não se pode simplesmente tratá-los desta maneira... na gíria do críquete era como fazer batota. Estavam a ser penalizados de forma fraudulenta depois de uma jogada válida». |