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30/08/2006 O regresso do poder popular Aqui no ocidente temos muito a aprender com movimentos de resistência
em lugares perigosos e as suas tácticas de acção directa esclarecida. Ao investigar para um novo filme, estive a ver arquivos de
documentários da década de 1980, a era de Ronald Reagan e da sua “guerra
secreta” contra a América Central. O que é impressionante é a mentira
implacável. Um departamento da mentira foi montado sob Reagan com o nome de
código “gabinete de diplomacia pública”. A sua finalidade era distribuir
propaganda “branca” e “negra” — mentiras — e difamar jornalistas que contavam
a verdade. Quase tudo o que o próprio Reagan dizia sobre o assunto era falso.
Repetidas vezes ele advertiu os americanos de uma “ameaça iminente” da parte
de pequenos e empobrecidos países que ocupam o istmo entre os dois continentes
do hemisfério ocidental. «A América Central é demasiado próxima e as suas
apostas estratégicas são demasiado elevadas para ignorarmos o perigo de
governos a tomarem o poder com ligações militares à União Soviética», disse
ele. A Nicarágua era «uma base soviética» e «o comunismo está prestes a tomar
todo o Caribe». Os Estados Unidos, disse o presidente, «estão empenhados numa
guerra ao terrorismo, uma guerra pela liberdade». Quão familiar soa tudo isto. Substitua simplesmente União Soviética e
comunismo por al-Qaeda, e estará actualizado. E era tudo fantasia. A União
Soviética não tinha bases ou intenções na América Central; pelo contrário, os
soviéticos eram firmes em recusar apelos pela sua ajuda. As bandas desenhadas
de “depósitos de mísseis” que oficiais americanos apresentaram às Nações
Unidas foram precursoras das mentiras contadas por Colin Powell na sua infame
promoção das não existentes armas de destruição maciça no Iraque perante o
Conselho de Segurança em 2003. Enquanto as mentiras de Powell prepararam o caminho para a invasão do
Iraque e a morte violenta de pelo menos 100 mil pessoas, as mentiras de
Reagan disfarçaram os seus ataques à Nicarágua, a El Salvador e à Guatemala.
No fim dos seus dois mandatos, 300.000 pessoas estavam mortas. Na Guatemala,
os seus apaniguados — armados e tutelados na tortura pela CIA — foram
descritos pela ONU como perpetradores de genocídio. Há uma grande diferença
hoje. Esta é o nível de consciência entre os povos de todo o mundo acerca dos
verdadeiros propósitos da “guerra ao terror” de Bush e Blair, e a escala e
diversidade da resistência popular a ela. Nos dias de Reagan, a noção de que
presidentes e primeiros-ministros mentiam como actos deliberados e calculados
era considerada exótica; As mentiras do Watergate de Nixon foram consideradas
chocantes porque presidentes não mentiam abertamente. Quase mais ninguém acredita nisso. Na Grã-Bretanha, graças a Blair,
verificou-se uma transformação geral nas atitudes públicas. Não menos de 80
por cento encaram-no como um mentiroso; 82 por cento acredita que a sua
instigação à guerra foi a principal causa dos atentados de Londres; 72 por
cento acredita que ele tornou este país um alvo. Nenhum moderno
primeiro-ministro tem sido objecto de tal opróbrio esclarecido. Além disso, a
maioria permanece céptica acerca da veracidade de uma “conspiração” para
explodir aviões que voassem a partir de Heathrow. A recente auto-promoção
agressiva do ministro do Interior John Reid é rejeitada por uma maioria
clara, bem como a promoção dos media do ministro do Tesouro, Gordon Brown,
como sendo o homem que trouxe prosperidade económica à Grã-Bretanha enquanto
actuava como tesoureiro de várias aventuras imperiais. Mais de três quartos
da população acredita que Brown e Blair simplesmente tornaram os ricos mais
ricos (YouGov e Guardian/ICM). Segundo a minha experiência, esta inteligência crítica do público e o
seu senso moral sempre estiveram à frente daqueles que afirmam falar para o
público. O que Vandana Shiva chama uma «insurreição do conhecimento
subjugado» está a ascender na Grã-Bretanha e por todo o mundo, talvez como
nunca antes, graças a um internacionalismo revitalizado ajudado pelas novas
tecnologias. Enquanto Reagan pôde escapar impune com muitas das suas
mentiras, Bush e Blair não podem. As pessoas sabem demasiado. E há a presença
da história; nenhuma potência imperial foi capaz de sustentar três guerras
coloniais simultâneas por tempo indefinido. Isto já é verdadeiro em relação
aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha no Afeganistão, onde o regime
“democrático” fantoche está em apuro previsível e o assediado exército
britânico está a ter de chamar bombardeiros americanos, os quais, em 26 de
Agosto, mataram 13 civis em fuga, incluindo nove crianças, uma atrocidade
comum. No Iraque, em contraste com a mentira dos jornalistas incorporados de
que as matanças são agora quase inteiramente sectárias, 70 por cento das
1.666 bombas explodidas pela resistência em Julho foram dirigidas contra os
ocupantes americanos e 20 por cento contra a força de polícia fantoche. As
baixas civis equivaleram a 10 por cento. Por outras palavras, ao contrário
das punições colectivas repartidas pelos EUA, tais como a matança de vários
milhares de pessoas em Faluja, a resistência está a combater basicamente uma
guerra militar, e está a vencer. Essa verdade é suprimida, tal como foi no
Vietname. No Líbano, o padrão continua. Uma resistência armada de uns poucos
milhares humilhou o quinto mais poderoso exército do mundo, o qual é
abastecido e apoiado pela superpotência. Tudo isto sabemos. O que não sabemos
é o extraordinário e decisivo papel desempenhado pelo povo desarmado do sul
do Líbano. Relatado como um rasto de vítimas, o espectáculo de pessoas a
retornar aos seus lares foi um acto épico de desafio e resistência. Em 13 de
Agosto, quando o exército israelense avançou no sul do Líbano, ele advertiu o
povo para não retornar às suas casas. Isto foi desafiado por quase cada
homem, mulher e criança, que abandonaram os centros de refúgio e puseram-se
em marcha para o sul, congestionando as estradas e exibindo sinais de
vitória. Uma testemunha ocular, Simon Assaf, descreveu «grupos de homens
locais ao longo da estrada [a] abrir caminhos pela remoção de pilhas de cabos
eléctricos, entulho e metal retorcido que obstruíam a rodovia. Um novo fluxo
de carros formava-se rapidamente em cada brecha no entulho. Não havia
exército ou polícia... eram os locais que dirigiam o tráfego, guiavam os
carros que passavam crateras perigosas e empurravam autocarros por trilhos
enlameados em torno de pontes destruídas. Quando se aproximavam das suas
casas, os refugiados formavam grandes procissões. Cidade após cidade, aldeia
após aldeia foi recuperada. Impotentes para enfrentar esta onda humana, os
israelenses abandonaram as suas posições e começaram a fugir para a
fronteira. Esta inundação de pessoas emergiu de um movimento de massas sem
precedentes que cresceu por todo o país enquanto choviam as bombas». A resistência libanesa, armada e desarmada, vem do mesmo manancial
dos outros movimentos por todo o mundo. Cada um deles aprendeu a pôr de lado
as suas diferenças sectárias em face de um inimigo comum — o império
desenfreado e os seus comparsas. Na Bolívia, o país mais pobre da América
Latina, o primeiro governo do povo indígena desde a sua escravização pela
Espanha foi eleito este ano por uma margem esmagadora, após centenas de
milhares de camponeses desarmados e antigos mineiros enfrentarem as armas de
um exército enviado pelo ditador da oligarquia, Gonzalo Sánchez de Lozada.
Marchando sobre La Paz, a capital, eles forçaram-no a fugir para os Estados
Unidos, para onde ele havia enviado os seus milhões. Isto seguiu‑se a
uma resistência de massa à privatização do abastecimento de água de
Cochabamba, a segunda cidade da Bolívia, e à sua tomada de posse por um
consórcio dominado pela poderosa companhia Bechtel. Agora, também a Bechtel
foi forçada a fugir. Por toda a América Latina os movimentos de resistência em massa
crescem tão rapidamente que agora ensombram os partidos tradicionais. Na
Venezuela, proporcionaram o apoio popular para as reformas de Hugo Chávez.
Tendo emergido espontaneamente em 1989 durante o Caracazo, uma erupção
de cólera política contra a subserviência da Venezuela às exigências de livre
mercado do FMI e do Banco Mundial, eles proporcionaram a imaginação e o
dinamismo com os quais o governo Chávez está a atacar o flagelo do pobreza. Aqui no ocidente, quando as pessoas abandonam os partidos políticos
que outrora pensaram serem seus, há muito a aprender de movimentos de
resistência em lugares perigosos e com as suas tácticas de acção directa
esclarecida. Temos os nossos próprios exemplos na Grã-Bretanha, tais como os
feitos da crescente resistência à privatização do Serviço Nacional de Saúde
de Blair e Brown. Um gigante americano, a United Health Europe, foi impedida
de tomar o controle dos serviços de clínica geral em Derbyshire, depois de a
comunidade não ter sido consultada e ter ripostado. Pat Smith, uma
pensionista, levou o caso a tribunal e venceu. «Isto mostra o que o povo pode
fazer», afirmou ela, como que a falar por milhões. Não há diferença em princípio entre a campanha de resistência de Pat Smith e aquela do povo de Cochabamba que se recusou a pagar quase metade do seu rendimento a uma companhia americana pela sua água. Não há diferença em princípio entre o movimento do povo que despachou os invasores israelenses e a movimentação do povo por toda a parte à medida que se torna consciente do significado real das ambições e da hipocrisia de Bush e dos seus vassalos, que querem que estejamos sempre temerosos e intimidados pelo “terrorismo” quando, na verdade, os maiores terroristas são eles próprios. |