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28/07/2006 Sangue e esperança John Pilger Depois de anos a aterrorizarem um povo ocupado, os regimes párias de
Washington e Telavive podem finalmente ter encontrado quem lhes faça frente. Lembram-se do Kosovo e do resto dos Balcãs arrasados? Lembram-se dos
curdos no norte do Iraque? Quantos despachos comoventes essas crises geraram
no ocidente, juntamente com outras tantas maldições aos seus atormentadores.
De acordo com a minha memória, cada um deles foi chamado «a causa mais moral
da nossa geração». Não havia dúvida, diziam os cruzados, entre o certo e o
errado; eles estavam firmemente do lado do certo, juntamente com Blair,
Clinton e os seus generais. Quão silenciosos estão agora estes cruzados, com
a sua compaixão selectiva reservada comprovadamente para causas de estado, as
“nossas” causas. Perante os nossos olhos, o regime israelense (nunca é chamado regime,
claro), armado e financiado pelos Estados Unidos, e apoiado pela
Grã-Bretanha, está empenhado em destruir todo um país, matando
deliberadamente civis, quase metade dos quais são crianças; e os cruzados
estão tão calados como ratos ou ocupados a trabalhar arduamente na grande
barragem da mistificação. Detectei um deles ontem a contribuir para uma reportagem sobre
Condoleezza Rice — a Ribbentrop moderna — na qual se dizia que ela havia «embarcado
numa missão no Médio Oriente para tecer um plano de paz». Li aquilo duas
vezes e perguntei-me como era possível para Rice (ou “Condi”) cumprir sua
“missão” quando a missão descarada do seu governo era apoiar e colaborar
agressivamente com os israelenses, fornecendo‑lhes mesmo no meio da
carnificina bombas guiadas de precisão e mísseis revestidos de urânio. O
antigo cruzado não disse. Detectei um outro cruzado a debater seriamente se o exército
israelense ainda era um “exército moral”. Li aquilo duas vezes. Na minha
experiência de guerra e do Médio Oriente, o exército israelense é um dos mais
cobardes. Todos os dias os seus soldados humilham pessoas indefesas, idosos
assustados e mulheres grávidas em barreiras nas estradas e agora os seus
pilotos de F-16 despejam bombas de fósforo sobre famílias a fugir em veículos
precários. O ministro da Justiça israelense, Haim Ramon, disse que Israel havia
«na realidade obtido a autorização para continuar as nossas operações» na
conferência de Roma de 16 de Julho. Anteriormente, Blair e Bush haviam
“dissuadido” a reunião do G8 de apelar a um cessar fogo. O que isto significa
é muito simples. Em 1982, as grandes potências ficaram de lado enquanto os
israelenses superintendiam o massacre de milhares de pessoas nos campos de
refugiados palestinos de Sabra e Chatila, no sul do Líbano. As mesmas grandes
potências estão agora a dizer: “Vão em frente, matem e massacrem até ficarem
saciados. Dir‑lhes‑emos para parar quando pensarmos que já é
bastante». No Vietname, há muito tempo, ao explicar porque “nós venceremos”, um
membro da Frente de Libertação Nacional disse-me: «Eles (os americanos) não
podem matar‑nos todos». Os invasores (a palavras quase nunca era
utilizada no ocidente) fizeram o seu melhor e mataram ou provocaram a morte
de mais de três milhões de pessoas. Os invasores dizimaram a resistência no
Vietname do Sul, a FLN, mas não podiam matá‑los todos, e acabaram por
seu expulsos. Não estou a traçar um paralelo preciso: basta dizer que a resistência
no Líbano, o Hezbollah, está a mostrar que eles, também, operam de acordo com
a mesma máxima. A resistência ao poder rapace, aos crimes épicos de invasão
(a que os juízes de Nuremberg chamaram o crime «supremo») é a humanidade na
sua maior nobreza; contudo, o paradoxo adverte-nos que nenhuma resistência é
bonita; que cada uma acrescenta a sua própria forma de violência a fim de
expulsar um invasor (tal como os civis mortos pelos rockets do
Hezbollah); e isto aplicou‑se aos heróicos partisans na Europa, aos
heróicos curdos e a esses iraquianos desprezados sem rosto que têm tido êxito
em desconjuntar a máquina homicida americana no seu país. Mas há esperança. Depois de todos estes anos a aterrorizarem um povo
ocupado, acabando por conduzi-lo ao desespero de ter de cometer as suas
próprias atrocidades, os regimes párias de Washington e Telavive podem,
apoiados por Blair (a quem a história julgará simultaneamente como ser
desprezível e criminoso), podem, podem mesmo, ter encontrado quem lhes faça
frente. Ou, se não durante toda a luta, no princípio dela. Entretanto, o resto de nós deve exigir que aqueles que alegam um exercício responsável do cargo em governos “civilizados” rompam o seu silêncio cobarde e digam aos invasores para pararem a sua matança e irem embora agora. |