Informação Alternativa

América Latina

24/05/2006

 

Um vislumbre de liberdade

 

John Pilger

 

As compridas, largas, gélidas ruas calcetadas e com tufos de erva petrificada, conduzem até à montanha sagrada Illimani, cuja pirâmide de neve se assemelha a uma torre de vigia.

 

Quase não havia vida aqui quando pela primeira vez vim à Bolívia enquanto jovem repórter – apenas o aeroporto gelado e a sua convidativa tenda de oxigénio; agora quase um milhão de pessoas vive em El Alto, a cidade mais alta do mundo, uma criação do capitalismo moderno.

 

El Alto é tanto um símbolo da América Latina de hoje como Cerro Rico o é do passado. Cerro Rico, uma colina quase maciça de prata, foi explorada por trabalho escravo e serviu para financiar o império espanhol durante três séculos. Ambos os locais estão situados no país mais pobre de um continente de 225 milhões de habitantes, metade dos quais são pobres. A servidão por endividamento, mesmo a escravatura, ainda existe ocultamente na Bolívia, cuja colina de prata passou agora para segundo lugar em relação aos outros tesouros naturais do gás e da água. Cheguei a El Alto nas primeiras horas da manhã. Por entre rolos de nevoeiro, as estradas iluminadas pelo luar estavam desertas à excepção das silhuetas de homens encolhidos, balançando­‑se no meio do frio, encostados às portas, à espera, esperançados, do primeiro leilão de trabalho da manhã.

 

A Bolívia foi o segundo país, a seguir ao Chile, a servir de laboratório ao “neoliberalismo”, o palavrão para o capitalismo na sua forma pura, hobbesiana. O economista de Harvard Jeffrey Sachs concebeu a “terapia de choque” que o FMI e o Banco Mundial aplicaram na Bolívia, acrescentando mais uma dimensão de pobreza e sofrimento. Com a privatização das minas, a prata acabou por entrar em queda, e os mineiros e as suas famílias rumaram para La Paz, instalando­‑se na planície inóspita em El Alto, trezentos metros acima da capital, sem água, sem energia e com pouca comida. Os agricultores expoliados das suas terras pelos ditames do FMI seguiram­ o mesmo caminho, e a sua migração em massa foi idêntica à de milhões afastados do trabalho certo pelos gestores estrangeiros do “consenso de Washington”, um fanatismo concebido em Bretton Woods em 1944 como uma ferramenta do império. (Sachs considera-se um liberal e é mentor do tolo Bono, do Live Aid e de outras celebridades).

 

Até agora, todos os presidentes recentes da Bolívia têm sido homens brancos, ricos que governaram o país no interesse duma pequena minoria abastada. Os proprietários de vastas extensões de terra controlam as terras baixas em torno de Santa Cruz, fazendo lembrar os seus iguais na África do Sul. A maioria indígena pré-Inca eram os “pretos” que eram politicamente invisíveis, com excepção dos trabalhadores esporadicamente conflituosos, principalmente os mineiros. O povo mascava folhas de coca para aliviar a fome; muitos morriam antes de chegar à meia idade e os seus filhos eram retardados. «A minha mãe matou-se a trabalhar numa grande propriedade perto de Santa Cruz», disse-me um camponês. «Se fosse apanhada a aprender a ler, era castigada severamente».

 

O penúltimo presidente, Sánchez de Lozada, um multimilionário dono de uma mina, hoje exilado em Maryland, cresceu nos Estados Unidos e falava melhor inglês do que espanhol. Era conhecido por “El Gringo”. Colaborando com o FMI e vendendo ao desbarato o gás e a água do país a preços de saldo às multinacionais brasileiras, americanas e europeias, cumpriu o seu papel, tal como tantos presidentes latino­‑americanos, de vice-rei de Washington. Na verdade, a observação insolente de Richard Nixon sobre a América Latina – «As pessoas estão­‑se nas tintas para essa terra» – estava completamente errada; o desígnio imperial da América estava inscrito nas vidas das populações no seu “quintal”.

 

No ano passado, entrevistei Pablo Solón, filho do grande muralista boliviano Walter Solón , numa sala extraordinária coberta pelas pinceladas épicas do pai dele. Mais viscerais do que as imagens da revolução mexicana de Diego Rivera, as imagens da injustiça agridem­‑nos; a manipulação bárbara das vidas das pessoas não passará, dizem-nos. Pablo Solón, hoje conselheiro do governo de Evo Morales, disse: «A história da Bolívia não é diferente de tantos outro países ricos de recursos onde a maioria da população é muito pobre. É a história do governo por detrás do governo e do que a embaixada americana permite, pois nesse edifício está a verdadeira fonte do poder neste país. Os EUA não têm aqui grandes investimentos; o que eles temem é outro Chávez; não querem que o “mau exemplo” se espalhe até ao Equador e para mais longe ainda – até à Nigéria, que podia ser levada a lançar impostos sobre as companhias petrolíferas como nunca antes aconteceu. Para os EUA, qualquer solução genuína para a pobreza cheira a complicações».

 

«Quanto custaria resolver o problema da pobreza na Bolívia?», perguntei.

 

«Mil milhões de dólares; não é nada. É o exemplo que conta, porque essa é a ameaça».

 

Saí de El Alto com Juan Delfín, um diácono indígena, motorista de táxi e artista, que falava dos conquistadores como se ainda se lembrasse deles. Esta é uma sociedade onde está presente um milénio e meio de história e a sua subjugação e empobrecimento são encarados com raiva. Com o Illimani a assomar à nossa frente, desenhou-se um cemitério no horizonte. Do outro lado da estrada havia uma pequena colina, não de prata, mas de imundícies: um inferno nojento, fumegante, ácido, de lixo e cães mortos, de porcos selvagens e mulheres com os seus chapéus tradicionais a escavar com picaretas à procura de alguma coisa, de qualquer coisa. «Aqui tem o símbolo de tudo o que suportamos e rejeitamos», disse Delfín.

 

Levou-me até uma placa com os nomes de 24 pessoas mortas a tiro pelo exército em Outubro de 2003, quando de Lozada tentou impedir a população de El Alto de descer até La Paz para protestar contra a venda do gás. Juan Delfín estabeleceu a ligação entre estas mortes e as fileiras de sepulturas normais, muitas delas de crianças, «que também morreram violentamente, de pobreza». Um pastorinho surgiu por detrás de um monte de pedras onde vivia, parecendo pequeno demais para a sua idade.

 

Depois de de Lozada ser corrido da Bolívia, o seu sucessor Carlos Mesa capitulou perante as exigências dos movimentos sociais, como a Federação das Comissões dos Subúrbios de El Alto. Este é um novo fenómeno na América Latina; o Movimento dos Sem Terra no Brasil é o mais conhecido, mas o mais eficaz, politicamente, tem sido o da Bolívia. Durante mais de cinco anos, os movimentos incluíram quase toda a população da cidade de Cochabamba enquanto travavam as “guerras da água” contra um consórcio estrangeiro liderado por uma subsidiária da multinacional americana Bechtel, a quem de Lozada entregara o abastecimento público de água à cidade, levando a que as facturas da água consumissem um terço dos magros rendimentos. Até o direito de recolher água da chuva pertencia à Bechtel. Com uma receita anual de mais de 17 mil milhões de dólares, o poder desta companhia é tal que esperava e conseguiu (sem o inconveniente de um concurso) o contrato para reconstruir a cidadela americana no Iraque ocupado. No entanto, não só a Bechtel foi corrida da Bolívia em 2000, seguida de perto pelo seu mentor de Lozada, como esta companhia desistiu agora da sua acção de indemnização contra o governo. Foi uma vitória de alto significado, porque avisa outras multinacionais na Bolívia (como a British Gas) de que, mesmo que o governo esteja preparado para comprometer a ira da população, os movimentos não estão.

 

É também um aviso para Evo Morales, cuja vitória eleitoral em Dezembro se mantém aqui largamente simbólica. Agora pela primeira vez um homem indígena chefia a Bolívia; as coloridas bandeiras pré­‑Incas estão hasteadas orgulhosamente por todo o lado. «As eleições não são algo que nós tenhamos pedido», disse Oscar Olivera, o dirigente sindicalista de Cochabamba que liderou a revolta anti­‑Bechtel. «O que os movimentos sociais precisam de fazer agora é continuar a acumular forças populares, para reforçar a nossa capacidade de pressionar qualquer governo que vier. Um governo de Morales será menos difícil de amar, mas continuará a ser difícil».

 

Ao contrário da sua absurda caricatura no exterior – um antigo embaixador americano na Bolívia comparou Morales a Osama Bin Laden, e o seu partido (MAS) a um Taliban andino – “Evo”, como é aqui conhecido, não é um “radical”, pelo menos por enquanto. O seu anúncio teatral da “nacionalização” em 1 de Maio não significa uma expropriação, e ele tornou claro que as multinacionais não vão perder quaisquer direitos. O que vão perder é a sua grotesca parte de lucros e benefícios; agora vão ter que pagar verdadeiros preços de mercado pelo gás da Bolívia, juntamente com uma adequada taxa de impostos. O seu vice­‑presidente, Álvaro García Linera, disse que «o capitalismo vai durar 50 anos na Bolívia». Antes das eleições, disse-me: «Num país pequeno como a Bolívia, não podemos ser heróis».

 

Mas muitos têm sido heróis, no bloqueio de Cochabamba, na movimentação da população de El Alto para La Paz, enfrentando as balas e expulsando o presidente gringo. Em consequência do novo espírito na América Latina, talvez os bolivianos e os venezuelanos se tenham aproximado duma verdadeira mudança revolucionária. O contraste está no “esquerdista” Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, que concordou com as condições do FMI ainda antes de assumir o cargo e que distribuiu menos terras do que o seu antecessor de direita.

 

O simpático Evo está a ser observado sobretudo pelo seu próprio povo, mas também pelos americanos, o «governo por detrás do governo». A não ser que Washington consiga “lobotomizá-lo” (como aconteceu com Jean­‑Bertrand Aristide no Haiti), é provável que encoraje um movimento separatista no cerne dos latifundiários de Santa Cruz, onde está o gás e onde o governo prometeu redistribuir as terras não cultivadas. A Bolívia, tal como a Venezuela, vislumbrou a sua liberdade e pede o nosso apoio.