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Mundo

20/04/2006

 

A primeira baixa real da guerra

 

John Pilger

Antiwar.com

 

Esta é uma versão abreviada de um discurso, Reporting War and Empire, pronunciado por John Pilger na Universidade de Columbia, Nova York, em companhia de Seymour Hersh, Robert Fisk e Charles Glass.

 

Durante a década de 1970 filmei secretamente na Checoslováquia, então uma ditadura estalinista. O escritor dissidente Zdenek Urbánek disse-me: «Num aspecto somos mais afortunados do que vocês no ocidente. Não acreditamos em nada do que lemos nos jornais e vemos na televisão, em nada da verdade oficial. Ao contrário de vocês, aprendemos a ler entre as linhas, porque a verdade real é sempre subversiva».

 

Este cepticismo agudo, esta habilidade de ler entre as linhas, é urgentemente necessário nas sociedades supostamente livres de hoje. Considerem as reportagens da guerra promovida pelo estado. O mais velho lugar­‑comum é que a verdade é a primeira baixa da guerra. Discordo. O jornalismo é a primeira baixa. Não só isso: ele tornou-se uma arma de guerra, uma censura virulenta que continua não reconhecida nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em outras democracias; censura por omissão, cujo poder é tal que, na guerra, pode representar a diferença entre a vida e a morte para povos em países remotos, tais como o Iraque.

 

Como jornalista ao longo de mais de 40 anos, tenho tentado entender como isto funciona. No rescaldo da guerra dos EUA no Vietname, que eu cobri, a política em Washington era a vingança, uma palavra frequentemente utilizada em privado, mas nunca publicamente. Foi imposto um embargo medieval ao Vietname e ao Camboja; o governo Thatcher cortou o fornecimento de leite às crianças do Vietname. Este assalto à própria essência da vida em duas das mais golpeadas sociedades do mundo foi raramente relatado; a consequência foi o sofrimento em massa.

 

Foi nessa época que fiz uma série de documentários acerca do Camboja. O primeiro, em 1979, Year Zero: the silent death of Cambodia, descrevia o bombardeamento norte­‑americano que serviu de catalisador para o ascenso de Pol Pot, e mostrava os chocantes efeitos humanos do embargo. Year Zero foi difundido em uns 60 países, mas nunca nos Estados Unidos. Quando fui a Washington e o ofereci à cadeia pública nacional, PBS, deparei­‑me com uma reacção curiosa. Os executivos da PBS ficaram chocados com o filme, e falaram admirativamente dele, mesmo quando colectivamente sacudiam as suas cabeças. Um deles disse: «John, perturba­‑nos que o seu filme diga que os Estados Unidos desempenharam um papel tão destrutivo, por isso decidimos designar um árbitro jornalístico [journalistic adjudicator]».

 

A expressão “árbitro jornalístico” é digna de Orwell. A PBS designou um certo Richard Dudman, repórter do St. Louis Post­‑Dispatch, e um dos poucos ocidentais que tinham sido convidados por Pol Pot para visitar o Camboja. Os seus despachos nada reflectiam da selvajaria que envolvia então aquele país; ele chegou mesmo a louvar os seus hospedeiros. Não surpreendentemente, ele vetou o meu filme. Um dos executivos da PBS confidenciou-me: «São dias difíceis estes sob Ronald Reagan. O seu filme ter­‑nos­‑ia dado problemas».

 

A ausência de verdade acerca do que realmente aconteceu no sudeste da Ásia – o mito promovido pelos media de um “erro estúpido” e a supressão da verdadeira escala das baixas civis e de uma rotina de assassínio em massa, até da palavra “invasão” – permitiu a Reagan lançar uma segunda “causa nobre” na América Central. O alvo era outra nação empobrecida e sem recursos: a Nicarágua, cuja “ameaça”, como a do Vietname, consistia em tentar estabelecer um modelo de desenvolvimento diferente do das ditaduras coloniais apoiadas por Washington. A Nicarágua foi esmagada, graças em não pequena parte à actuação de jornalistas norte­‑americanos, conservadores e liberais, que suprimiram os êxitos dos sandinistas e encorajaram um debate especioso acerca de uma “ameaça”.

 

A tragédia no Iraque é diferente, mas, para os jornalistas, há semelhanças assombrantes. Em 24 de Agosto do ano passado, um editorial do New York Times declarava: «Se todos nós tivéssemos sabido então o que sabemos agora, a invasão [do Iraque] teria sido travada por um clamor popular». Esta admirável admissão estava a dizer, com efeito, que a invasão nunca teria acontecido se os jornalistas não tivessem traído o público ao aceitar e amplificar e repetir as mentiras de Bush e Blair, ao invés de desafiá-las e expô-las.

 

Sabemos agora que a BBC e outros media britânicos foram usados pelo MI6, o serviço secreto de inteligência. Naquilo que foi chamado “Operation Mass Appeal”, agentes do MI6 plantaram histórias acerca de armas de destruição em massa de Saddam Hussein – tais como armas escondidas nos seus palácios e em bunkers subterrâneos secretos. Todas estas histórias eram falsas. Mas este não é o ponto [principal]. O ponto principal é que as façanhas escuras do MI6 eram absolutamente desnecessárias. Recentemente, pediram à directora de noticiários da BBC, Helen Broaden, que explicasse como é que um dos seus repórteres “incorporados” no Iraque, tendo aceite desmentidos americanos quando à utilização de armas químicas contra civis, podia descrever o objectivo da invasão anglo-americana como «trazer a democracia e os direitos humanos» para o Iraque. Ela respondeu com citações de Blair de que este era de facto o objectivo, como se as declarações de Blair e a verdade estivessem de alguma forma relacionadas. No terceiro aniversário da invasão, um apresentador de noticiário da BBC descreveu este acto ilegal, não provocado, baseado em mentiras, como um «erro de cálculo». Assim, para usar a memorável frase de Edward Herman, o impensável foi normalizado.

 

Tal servilismo ao poder do estado é ardentemente negado, mas é rotina. Quase todos os media britânicos omitiram o número verdadeiro das baixas de civis iraquianos, ignorando deliberadamente ou tentando desacreditar estudos respeitáveis. «Adoptando hipóteses conservadoras», escreveram os investigadores da eminente Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, trabalhando com académicos iraquianos, «pensamos que cerca de 100.000 mortes excessivas, ou mais, se verificaram desde a invasão do Iraque em 2003 [...] as quais foram primariamente o resultado de acções militares das forças da coligação. A maior parte dos mortos pela coligação eram mulheres e crianças [...]». Isto foi em 29 de Outubro de 2004. Hoje, o número duplicou.

 

A linguagem talvez seja o mais crucial dos campos de batalha. Nobres palavras tais como “democracia”, “libertação”, “liberdade” e “reforma” foram esvaziadas do seu verdadeiro significado e re­‑­enchidas pelos inimigos daqueles conceitos. A contrafacção domina os noticiários, juntamente com etiquetas políticas desonestas, tais como “esquerda do centro”, uma predilecta atribuída a senhores da guerra como Blair e Bill Clinton; significa o oposto. “Guerra ao terror” é uma metáfora falsa que insulta a nossa inteligência. Não estamos em guerra. Em vez disso, as nossas tropas estão a combater insurreições em países onde as nossas invasões provocaram caos e sofrimento, cujas provas e imagens são suprimidas. Quantas pessoas sabem que, em vingança pelas 3.000 vidas inocentes ceifadas no 11 de Setembro de 2001, cerca de 20.000 pessoas inocentes morreram no Afeganistão?

 

Para recuperar a honra da nossa profissão, já para não falar na verdade, nós jornalistas precisamos pelo menos entender a tarefa histórica para a qual estamos designados – isto é, relatar o resto da humanidade em termos da sua utilidade, ou o contrário, para “nós”, e preparar o público para ataques predatórios a países que não constituem ameaça para nós. Nós preparámo­‑lo ao desumanizá-los, ao escrevermos acerca da “mudança de regime” no Irão como se aquele país fosse uma abstracção e não uma sociedade humana. A Venezuela de Hugo Chávez está agora a ser preparada em ambos os lados do Atlântico. Há algumas semanas, a Channel 4 News transmitiu uma grande peça que poderia ter sido difundida pelo Departamento de Estado americano. O repórter, Jonathan Rugman, o correspondente do programa em Washington, apresentou Chávez como uma personagem caricatural, um sinistro bufão cujos modos latinos informais disfarçavam um homem «em risco de se juntar à vil galeria de ditadores e déspotas – o mais recente pesadelo latino de Washington». Em contraste, a Condoleezza Rice foi dada gravidade e a Donald Rumsfeld foi permitido comparar Chávez com Hitler.

 

Na verdade, quase tudo nesta paródia de jornalismo era encarado a partir de Washington, e apenas fragmentos nos barrios da Venezuela, onde Chávez desfruta uma popularidade de 80 por cento. Que ele tenha vencido nove eleições e referendos– um recorde mundial – era omitido. Num estilo soviético bruto, ele era apresentado ladeado por Saddam Hussein e Muammar Gaddafi, embora estes breves encontros tivessem a ver apenas com a OPEP e o petróleo. Segundo Rugman, a Venezuela sob Chávez está a ajudar o Irão a desenvolver armas nucleares. Nenhuma prova foi dada para este absurdo. As pessoas que assistiam não fariam ideia de que a Venezuela era o único país produtor de petróleo do mundo a utilizar o rendimento do seu petróleo para benefício dos pobres. Elas não fariam ideia dos espectaculares desenvolvimentos em saúde, educação, literacia; nenhuma ideia de que a Venezuela não tem prisões políticas – ao contrário dos Estados Unidos.

 

Assim, se a administração Bush resolver executar a “Operação Bilbao”, um plano de contingência para derrubar o governo democrático da Venezuela, quem se importará, pois quem saberá? Pois teremos apenas a versão dos media; um outro demónio merecerá o que está a acontecer-lhe. Os pobres da Venezuela, tal como os pobres da Nicarágua, os pobres do Vietname e outros incontáveis lugares remotos, cujos sonhos e vidas não são de interesse, serão invisíveis na sua dor: um triunfo da censura através do jornalismo.

 

Diz-se que a Internet proporciona uma alternativa, e o que é maravilhoso acerca dos espíritos rebeldes na World Wide Web é que eles frequentemente informam como muitos jornalistas deveriam fazer. Eles são dissidentes na tradição dos repórteres de investigação como Claud Cockburn, que afirmou: «Nunca acredite em qualquer coisa até que ela tenha sido negada oficialmente». Mas a Internet é ainda uma espécie de samizdat, um subterrâneo, e a maior parte da humanidade não se conecta a ela, assim como a maior parte da humanidade não possui um telemóvel. E o direito a saber deve ser universal. Esse outro grande repórter de investigação, Tom Paine, advertiu que se à maioria das pessoas estivesse a ser negada a verdade e ideias de verdade, era chegado o tempo de atacar o que denominou a “Bastilha das palavras”. Este tempo é agora mesmo.