Informação Alternativa

Iraque

04/05/2006

 

O regresso dos esquadrões da morte: as notícias escondidas do Iraque

 

John Pilger

 

Os elevadores no New York Hilton mostravam a CNN num pequeno écran que não se podia evitar ver. O Iraque estava no topo das notícias; pronunciamentos acerca de uma “guerra civil” e “violência sectária” eram repetidos incessantemente. Era como se a invasão estadunidense nunca houvesse acontecido e a matança de dezenas de milhares de civis pelos americanos fosse uma ficção surrealista. Os iraquianos eram árabes pouco inteligentes, assombrados pela religião, conflitos étnicos e a necessidade de se auto-destruírem. Untuosos fantoches políticos eram mostrados sem qualquer indicação de que o seu quintal de exercícios era no interior da fortaleza americana. E quanto se deixava o elevador, isto seguia-nos até ao nosso quarto, até ao ginásio do hotel, ao aeroporto, ao aeroporto seguinte e ao país seguinte. Tal é o poder da propaganda corporativa da América, a qual, como destacou Edward Said em Cultura e Imperialismo, «penetra electronicamente» com o equivalente a uma linha do partido.

 

A linha do partido mudou outro dia. Durante quase três anos era que a al-Qaeda era a força condutora por trás da “insurgência”, liderada por Abu Musab al-Zarqawi, um jordano sedento de sangue que estava claramente a ser guindado para a espécie de infâmia desfrutada por Saddam Hussein. Não importava que al­‑Zarqawi nunca tivesse sido visto vivo e que apenas uma fracção dos “insurgentes” seguisse a al-Qaeda. Para os americanos, o papel de Zarqawi era distrair a atenção daquilo a que se opõem quase todos os iraquianos: a brutal ocupação anglo-americana do seu país.

 

Agora que al-Zarqawi foi substituído pela “violência sectária” e pela “guerra civil”, a grande notícia é os ataques sunitas a mesquitas e bazares xiitas. A notícia real, que não é relatada na CNN “de referência”, é que a Opção Salvador foi invocada no Iraque. Isto significa a campanha de terror através de esquadrões da morte armados e treinados pelos EUA, os quais atacam sunitas e xiitas da mesma forma. O objectivo é o incitamento de uma guerra civil real e a fragmentação do Iraque, a meta original da guerra da administração Bush.

 

O Ministério do Interior em Bagdade, que é administrado pela CIA, dirige os principais esquadrões da morte. Os seus membros não são exclusivamente xiitas, como diz o mito. Os mais brutais são os Comandos de Polícia Especiais dirigidos por sunitas, encabeçados por antigos oficiais superiores do Partido Baath de Saddam. Esta unidade foi formada e treinada por peritos em “contra-insurgência” da CIA, incluindo veteranos das operações de terror da CIA na América Central na década de 1980, nomeadamente em El Salvador. No seu novo livro, Empire’s Workshop (Metropolitan Books), o historiador americano Greg Grandin, descreve a Opção Salvador assim: «Após a posse, [o presidente] Reagan caiu duramente sobre a América Central, permitindo efectivamente que os mais comprometidos militaristas da sua administração preparassem e executassem a política. Em El Salvador, eles providenciaram mais de um milhão de dólares por dia para financiar uma campanha letal de contra­‑insurgência ... No total, os aliados dos EUA na América Central durante os dois mandatos de Reagan mataram mais de 300.000 pessoas, torturaram centenas de milhares e conduziram milhões ao exílio».

 

Embora a administração Reagan tenha parido os actuais bushitas, ou “neo-cons”, o padrão foi estabelecido anteriormente. No Vietname, esquadrões da morte treinados, armados e dirigidos pela CIA assassinaram cerca de 50.000 pessoas na Operação Phoenix. Em meados da década de 1960, na Indonésia, oficiais da CIA compilaram “listas da morte” para a orgia de matanças do general Suharto durante a sua captura do poder. Após a invasão de 2003, era só uma questão de tempo antes de que esta venerável “política” fosse aplicada ao Iraque.

 

De acordo com o escritor e investigador Max Fuller (National Review Online), o administrador chave da CIA dos esquadrões da morte do Ministério do Interior «iniciou-se no Vietname antes de ser transferido para dirigir a missão militar americana em El Salvador». O professor Grandin nomeia outro veterano da América Central cuja tarefa agora é «treinar uma brutal força contra-insurgente constituída por bandidos ex­‑baathistas». Um outro, afirma Fuller, é bem conhecido pela sua «produção de listas da morte». Uma milícia secreta administrada pelos americanos é a Facilities Protection Service, que tem sido responsável por bombardeamentos. «As Forças Especiais britânicas e americanas», conclui Fuller, «em conjunto com os serviços de inteligência [criados pelos EUA] no Ministério da Defesa iraquiano, estão a fabricar bombardeamentos insurgentes sobre xiitas».

 

Em 16 de Março, a Reuters relatou a prisão de um “contratista de segurança” americano, que foi encontrado com armas e explosivos no seu carro. No ano passado, dois britânicos disfarçados de árabes foram capturados com um carro cheio de armas e explosivos; as forças britânicas derrubaram a prisão de Bassorá com bulldozers a fim de resgatá-los. O Boston Globe relatou recentemente: «A unidade de contra­‑terrorismo do FBI lançou uma vasta investigação de roubos em série com base nos EUA depois de descobrir que alguns dos veículos utilizados em bombardeamentos fatais com carros no Iraque, incluindo ataques que mataram tropas americanas e civis iraquianos, foram provavelmente roubados nos Estados Unidos, segundo responsáveis superiores do governo».

 

Como disse, tudo isto foi tentado anteriormente — assim como a preparação do público americano para um ataque atroz ao Irão é semelhante às falsificações das ADM no Iraque. Se tal ataque ocorrer, não haverá advertência, nem declaração de guerra, nem verdade. Aprisionados no elevador do Hilton, mirando a CNN, os meus colegas passageiros poderiam ser desculpados por não entenderem o Médio Oriente, ou a América Latina, ou qualquer outro lugar. Eles estão isolados. Nada é explicado. O Congresso está silencioso. Os Democratas estão moribundos. E os media mais livres da terra insultam o público todos os dias. Como disse Voltaire: «Aqueles que podem fazê­‑lo acreditar em absurdos podem fazê-lo cometer atrocidades».