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09/03/2006 A guerra secreta contra o povo indefeso da Papuásia Ocidental Em 1993, eu e mais quatro pessoas viajámos clandestinamente através
de Timor Leste a fim de reunir provas do genocídio cometido pela ditadura
indonésia. Tamanho era o absolutismo do silêncio em torno deste pequeno país
que o único mapa que consegui encontrar antes da partida continha espaços em
branco com a inscrição “Dados orográficos incompletos”. Contudo, poucos
lugares do mundo foram tão profanados e devastados por forças assassinas. Nem
mesmo Pol Pot conseguiu despachar, proporcionalmente, tantas pessoas quanto o
tirano indonésio Suharto, em conluio com a “comunidade internacional”. Em Timor Leste descobri um país coberto de sepulturas, as suas cruzes
negras enchendo os olhos: cruzes sobre picos, cruzes em sendas nos lados das
colinas, cruzes junto às estradas. Elas anunciavam o assassínio de
comunidades inteiras, desde bebés até idosos. Em 2000, quando os timorenses, protagonizando
um acto de coragem colectiva com poucos paralelos históricos, conquistaram
finalmente a sua liberdade, as Nações Unidas estabeleceram uma comissão da
verdade; em 24 de Janeiro, as 2.500 páginas da sua investigação foram
publicadas. Nunca lera nada que se parecesse àquilo. Utilizando
principalmente documentos oficiais, relata com penosos pormenores toda a
desgraça do sacrifício de sangue de Timor Leste. O documento afirma que
180.000 timorenses foram mortos pelas tropas indonésias ou morreram de
inanição forçada. Descreve os «papéis primários» nesta carnificina dos
governos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália. O «apoio político e
militar» da América «foi fundamental» em crimes que iam desde «execuções em
massa a reassentamentos forçados de populações, horríficas formas de tortura
sexual e outras, bem como contra crianças». A Grã-Bretanha, um co-conspirador
na invasão, foi o principal fornecedor de armas. Se quiser desvendar as
actuais névoas de encobrimento em relação ao Iraque, e entender o verdadeiro
terrorismo, leia este documento. Enquanto o lia, a minha mente retornou às cartas que responsáveis do
Foreign Office escreviam a membros preocupados do público e do parlamento
britânico logo a seguir à apresentação do meu filme Death of a Nation [Morte
de uma nação]. Conhecendo a verdade, eles negaram que jactos Hawk
fornecidos pela Grã‑Bretanha estivessem a explodir em bocados aldeias
com tectos de palha, que metralhadoras Heckler e Koch fornecidas pela Grã‑Bretanha
estivessem a liquidar populações. Eles mentiam mesmo acerca da escala de
sofrimento. E tudo isto está a acontecer outra vez, envolto no mesmo silêncio e
com a “comunidade internacional” a jogar o mesmo jogo de apoio e como
beneficiária do esmagamento de um povo indefeso. A brutal ocupação pela
Indonésia de Papuásia Ocidental, uma província vasta e rica em recursos —
roubada ao seu povo, tal como Timor Leste — é um dos grandes segredos do
nosso tempo. Recentemente, o ministro australiano das “comunicações”, senador
Helen Coonam, não conseguiu encontrá-la no mapa da sua própria região, como
se não existisse. Cerca de 100 mil papuásios, ou 10 por cento da população, foram
mortos pelos militares indonésios. Isto é uma fracção do número verdadeiro,
segundo refugiados. Em Janeiro, 43 papuásios ocidentais chegaram à costa
norte da Austrália após uma arriscada jornada de seis semanas numa piroga.
Não tinham comida e haviam posto as últimas gotas de água fresca nas bocas
dos seus filhos. «Sabíamos», disse Herman Wainggai, o líder, «que se os
militares indonésios nos capturassem, a maior parte de nós teria morrido.
Eles tratam os papuásios ocidentais como animais. Matam-nos como animais.
Criaram milícias e jihadis para fazer exactamente isso. É tal como em Timor
Leste». Durante mais de um ano, cerca de 6.000 pessoas têm-se mantido
escondidas na selva densa depois de as suas aldeias e plantações terem sido
destruídas pelas forças especiais indonésias. Hastear a bandeira de Papuásia
Ocidental é “traição”. Dois homens estão a cumprir sentenças de 15 e 10 anos
simplesmente por terem tentado. A seguir a um ataque a uma aldeia, um homem
foi apresentado como um “exemplo”: foi‑lhe despejada gasolina sobre a
cabeça e o seu cabelo foi aceso. Quando os holandeses concederam a independência da Indonésia, em
1949, consideraram que a Papuásia Ocidental era uma entidade geográfica e
étnica separada, com um carácter nacional distinto. Um relatório publicado em
Novembro último pelo Instituto de História da Holanda, em Haia, revelou que
os holandeses haviam secretamente reconhecido o «inequívoco princípio da
formação de um estado papuásio», mas foram forçados pela administração de
John F. Kennedy a aceitar um controle indonésio «temporário» sobre aquilo que
um conselheiro da Casa Branca denominou «uns poucos milhares de milhas de
terra canibal». Os papuásios ocidentais foram enganados. Holandeses, americanos,
britânicos e australianos apoiaram um “Act of Free Choice” [“Acto de livre
escolha”] dirigido ostensivamente pelas Nações Unidas. Os movimentos de uma
equipa de 25 monitores da ONU foram restringidos pelos militares indonésios e
foram‑lhes negados intérpretes. Em 1969, de uma população total de
800.000 pessoas, “votaram” uns 1000 papuásios ocidentais. Todos eles foram
seleccionados pelos indonésios. À ponta de pistola, “concordaram” em
permanecer sob o domínio do general Suharto — que havia capturado o poder em
1965 naquilo que a CIA posteriormente descreveu como «um dos piores assassínios
em massa do século XX». Em 1981, o Tribunal sobre os Direitos Humanos na
Papuásia Ocidental, organizado no exílio, ouviu de Eliezer Bonay, primeiro
governador da província da Indonésia, que aproximadamente 30.000 papuásios
haviam sido assassinados no período 1963‑69. Pouco disto foi relatado
no ocidente. O silêncio da “comunidade internacional” explica-se pelas riquezas
fabulosas de Papuásia Ocidental. Em Novembro de 1967, logo após Suharto ter
consolidado a sua tomada do poder, a Time-Life Corporation patrocinou uma
extraordinária conferência em Genebra. Entre os participantes incluíam-se os
mais poderosos capitalistas do mundo, liderados pelo banqueiro David
Rockefeller. Do lado oposto a eles estavam sentados os homens de Suharto,
conhecidos como a “mafia de Berkeley”, pois vários deles haviam desfrutado de
bolsas de estudo do governo americano na Universidade da Califórnia em
Berkeley. Ao longo de três dias, a economia indonésia foi dissecada, sector a
sector. Um consórcio americano e europeu ficou com o níquel da Papuásia
Ocidental; companhias americanas, japonesas e francesas obtiveram as suas
florestas. No entanto, o grande prémio — a maior reserva de ouro do mundo e o
terceiro maior depósito de cobre, literalmente uma montanha de cobre e ouro —
foram para o gigante americano da mineração, a Freeport‑McMoran. No
seu conselho de administração está Henry Kissinger que, como secretário de
Estado dos EUA, deu o “sinal verde” para Suharto invadir Timor Leste, afirma
o relatório holandês. A Freeport é hoje provavelmente a maior fonte única de receitas do
regime indonésio: afirma-se que a companhia entregou a Jacarta 33 mil milhões
de dólares entre 1992 e 2004. Pouco disto chegou ao povo de Papuásia
Ocidental. Em Dezembro último, 55 pessoas confirmadamente morreram de
inanição no distrito de Yahukimo. O Jakarta Post notou a «horrível
ironia» da fome numa província tão «imensamente rica». De acordo com o Banco
Mundial, «38 por cento da população de Papuásia está a viver na pobreza, mais
do dobro da média nacional». As minas da Freeport são guardadas pelas forças especiais indonésias,
as quais estão entre os mais calejados terroristas do mundo, como o
demonstram os seus crimes documentados em Timor Leste. Conhecidas por
Kopassus, elas foram armadas pelos britânicos e treinadas pelos australianos.
Em Dezembro último, o governo Howard em Canberra anunciou que retomaria a «cooperação»
com o Kopassus na base australiana SAS próxima de Perth. Numa inversão da
verdade, o então ministro australiano da Defesa, o senador Robert Hill, descreveu
o Kopassus como tendo «a mais efectiva capacidade para responder a contra‑sequestros
ou ameaças de recuperação de reféns». Os ficheiros das organizações de
direitos humanos transbordam de provas do terrorismo do Kopassus. Em 6 de
Julho de 1998, na ilha papuásia de Biak, a norte da Austrália, forças
especiais massacraram mais de 100 pessoas, a maior parte delas mulheres. Contudo, os militares indonésios não conseguiram esmagar o popular
Free Papua Movement (OPM). Desde 1965, quase sozinho, o OPM recordou aos
indonésios, muitas vezes audaciosamente, que eles são invasores. Nos últimos
dois meses, a resistência fez com que os indonésios levassem mais tropas para
Papuásia Ocidental. Dois transportadores blindados de pessoal Tactica,
fornecidos pela Grã-Bretanha, equipados com canhões de água, chegaram de Jacarta.
Foram primeiramente entregues durante a [apregoada] “dimensão ética” na
política externa de Robin Cook. Caças-bombardeiros Hawk, fabricados pela BAE
Systems, foram utilizados contra aldeias na Papuásia Ocidental. O destino dos 43 que pedem asilo à Austrália é precário. Em
contravenção ao direito internacional, o governo Howard levou-os do
continente para a ilha Christmas, a qual faz parte de uma “zona de exclusão”
australiana para refugiados. Deveríamos observar cuidadosamente o que
acontece a estas pessoas. Se a história dos direitos humanos não for a
história da impunidade das grandes potências, a ONU deve retornar a Papuásia
Ocidental, tal como acabou por fazer em Timor Leste. Ou teremos sempre de esperar pela multiplicação de cruzes? Para informação sobre como ajudar visite www.freewestpapua.org |