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Mundo

10/02/2006

 

A próxima guerra – para lá do Rubicão

 

John Pilger

 

Será que Tony Blair, o minúsculo César, cruzou finalmente o seu Rubicão? Tendo subvertido as leis do mundo civilizado e trazido um massacre a uma população indefesa e derramamento de sangue à sua própria gente, tendo mentido e mentido e utilizado a morte de uma centena de soldados britânicos no Iraque para se entregar à sua obscena autocomiseração, estará prestes a tomar parte em mais um crime antes de se ir embora?

 

Talvez esteja seriamente instável agora, como alguém sugeriu. O poder traz uma certa loucura aos seus prodigiosos abusadores, especialmente àqueles de carácter superficial. Em The march of folly: from Troy to Vietnam, a grande historiadora norte-americana Barbara Tuchman descreveu Lyndon B. Johnson, o presidente cuja política demencial o conduziu através do seu Rubicão, no Vietname. «Faltava-lhe a ambivalência de [John] Kennedy, nascida de um certo sentido histórico e de, pelo menos, alguma capacidade de pensamento reflexivo», escreveu. «Enérgico e dominante, um homem enfatuado consigo mesmo, Johnson viu­‑se afectado, na condução da sua política no Vietname, por três elementos do seu carácter: um ego insaciável e nunca seguro; uma insondável capacidade de usar e impor os poderes governamentais sem inibição; uma profunda aversão, uma vez estabelecido um curso de acção, a qualquer contradição».

 

Isso é o que são, comprovadamente, Bush, Cheney, Rumsfeld e o resto da cabala que se assenhoreou do poder em Washington. Mas há uma lógica na sua idiotice: a ambição de domínio. Também se aplica a Blair, para quem a única lógica é a vanglória. E, agora, está a ameaçar arrastar a Grã­‑Bretanha para o pesadelo disponível no Irão. É improvável que os seus mentores em Washington requeiram tropas britânicas; não ainda. Ao princípio, preferirão bombardear de uma altura livre de riscos, como fez Bill Clinton na sua destruição da Jugoslávia. Estão conscientes de que, como os sérvios, os iranianos são gente séria com uma história de autodefesa e que não estão golpeados pelos efeitos de um longo bloqueio, como o estavam os iraquianos em 2003. Quando o ministro de defesa iraniano promete «uma resposta esmagadora», sente­‑se que fala a sério.

 

Escutemos Blair na Câmara dos Comuns: «É importante que enviemos um sinal de força» contra um regime que «virou costas à diplomacia» e que está «a exportar terrorismo» e a «desprezar as suas obrigações internacionais». Vindo de alguém que exportou terrorismo para o vizinho do Irão, que escandalosamente renegou as mais sagradas obrigações internacionais britânicas e que abandonou a diplomacia em favor da força bruta, estas são como palavras de Alice através do espelho.

 

No entanto, começam a fazer sentido quando se lê os discursos de Blair sobre o Iraque, na Câmara dos Comuns, de 25 de Fevereiro e 18 de Março de 2003. Em ambos os debates cruciais – o último conduziu à desastrosa votação da invasão – usou as mesmas ou similares expressões para mentir que permanecia comprometido com uma resolução pacífica. «Ainda agora, hoje, estamos a oferecer a Saddam a perspectiva de um desarmamento voluntário...», disse. A partir das revelações do livro de Philippe Sands, Lawless world, a magnitude do seu engano fica clara. Em 31 de Janeiro de 2003, Bush e Blair confirmaram a sua prematura decisão secreta de atacar o Iraque.

 

Tal como a invasão do Iraque, um ataque ao Irão tem uma agenda secreta que não tem nada a ver com as imaginárias armas de destruição em massa do regime de Teerãoo. Que Washington tenha conseguido coagir suficientes membros da Agência Internacional de Energia Atómica a participarem numa charada diplomática, não é mais que uma reminiscência da maneira como intimidou e subornou a “comunidade internacional” para atacar o Iraque em 1991.

 

O Irão não representa uma “ameaça nuclear”. Não existe a mais mínima evidência de que tenha as centrifugadoras necessárias para enriquecer urânio ao grau de material bélico. O director geral da AIEA, Mohamed El Baradei, disse, repetidamente, que os seus inspectores não encontraram nada que apoiasse as afirmações estadunidenses e israelenses. O Irão não fez nada de ilegal, não demonstrou ambições territoriais nem se empenhou na ocupação de um país estrangeiro – ao contrário dos Estados Unidos, da Grã­‑Bretanha e de Israel. Cumpriu com as suas obrigações sob o Tratado de Não Proliferação Nuclear de permitir aos inspectores “ir a qualquer parte e ver qualquer coisa” – ao contrário dos Estados Unidos e de Israel. Este último negou­‑se a reconhecer o TNP e tem entre 200 e 500 armas termonucleares apontadas ao Irão e a outros estados do Médio Oriente.

 

Aqueles que se burlam das regras do TNP são amigos consagrados dos norte-americanos e britânicos. Tanto a Índia como o Paquistão desenvolveram as suas armas nucleares secretamente e desafiando o tratado. A ditadura militar paquistanesa exportou abertamente a sua tecnologia nuclear. No caso do Irão, a desculpa a que o regime de Bush se tem aferrado é a suspensão das medidas “geradoras de confiança”, puramente voluntárias, que o Irão acordou com o Reino Unido, a França e a Alemanha com o objectivo de aplacar os EUA e demonstrar que está “acima de suspeita”. No equipamento nuclear foram colocados selos de acordo com uma concessão feita, alguns diriam tontamente, pelos negociadores iranianos e que nada tinham a ver com as obrigações do Irão sob o TNP.

 

O Irão reclamou, desde então, o seu “direito inalienável”, sob os termos do TNP, a enriquecer urânio com propósitos pacíficos. Não há dúvida de que esta decisão reflecte o fermento da vida política em Teerão e a tensão entre as forças radicais e as conciliadoras, das quais o belicoso novo presidente, Mahmoud Ahmadinejad, não é senão uma voz. Como os governos europeus pareceram compreender por momentos, esta situação exige autêntica diplomacia, especialmente tendo em conta a história.

 

Durante mais de meio século, a Grã­‑Bretanha e os EUA ameaçaram o Irão. Em 1953, a CIA e o MI6 derrocaram o governo democrático de Mohamed Mossadeq, um nacionalista inspirado que pensava que o petróleo iraniano pertencia ao Irão. Instalaram o venal Xá e, através de uma monstruosa criação chamada Savak, construíram um dos mais depravados estados policiais da era moderna. A revolução islâmica, em 1979, foi inevitável e muito feia, contudo não foi monolítica e, por pressão popular e movimentos de dentro da elite, o Irão começou a abrir­‑se ao mundo exterior – apesar de ter contido uma invasão de Saddam Hussein, que foi encorajado e apoiado pelos EUA e a Grã­‑Bretanha.

 

Ao mesmo tempo, o Irão viveu com a ameaça real de um ataque israelense, possivelmente com armas nucleares, a respeito das quais a “comunidade internacional” guardou silêncio. Recentemente, um dos principais historiadores militares israelenses, Martin van Creveld, escreveu: «Obviamente, não queremos que o Irão tenha armas nucleares e não sei se as estão a desenvolver mas, se não as estão a desenvolver, são loucos».

 

Dificilmente surpreenderá que o regime de Teerão tenha aprendido a “lição” de como a Coreia do Norte, que tem armas nucleares, se desfez com sucesso do predador norte­‑americano sem disparar um tiro. Durante a guerra fria, os estrategas britânicos da “dissuasão nuclear” ofereciam a mesma justificação para armar a nação de armas nucleares; vinham aí os russos, diziam. Como sabemos a partir de documentos desclassificados, isto era ficção, ao contrário da perspectiva de um ataque norte­‑americano ao Irão, que é muito real e, provavelmente, iminente.

 

Blair sabe isto. Também sabe as verdadeiras razões para um ataque e a parte que a Grã-Bretanha presumivelmente desempenhará. No próximo mês, o Irão tem programada a mudança dos seus petrodólares para uma bolsa baseada em euros [1]. O efeito sobre o valor do dólar será significativo, se não, a longo prazo, desastroso. Actualmente, o dólar é, em teoria, uma divisa sem valor que suporta o peso de uma dívida nacional que excede os 8 biliões de dólares e um déficit comercial de mais de 600 mil milhões de dólares. Só o custo da aventura do Iraque, segundo o prémio Nobel de economia Joseph Stiglitz, poderia ser de 2 biliões de dólares. O império militar norte-americano, com as suas guerras e mais de 700 bases militares e intrigas sem limite, é financiado por credores asiáticos, principalmente a China.

 

Que o petróleo se comercie em dólares é crítico para manter o dólar como a divisa de reserva mundial. O que o regime de Bush teme não são as ambições nucleares do Irão, mas o efeito de o quarto maior produtor e comerciante mundial de petróleo romper o monopólio do dólar. Começarão, então, os bancos centrais a mudar as suas reservas e, efectivamente, a desfazer-se do dólar? Saddam Hussein estava a ameaçar fazer o mesmo quando foi atacado.

 

Embora o Pentágono não tenha planos para ocupar a totalidade do Irão, tem os olhos postos sobre uma faixa de terra que se estende junto à fronteira com o Iraque. Trata-se do Kuzistão, onde se localiza 90 por cento do petróleo iraniano. «O primeiro passo a tomar por uma força invasora», informou o Daily Star de Beirute, «seria o de ocupar a província iraniana do Kuzistão, rica em petróleo, assegurando o sensível estreito de Ormuz e cortando o fornecimento de petróleo ao exército do Irão». No dia 28 de Janeiro, o governo iraniano disse ter provas de ataques britânicos encobertos no Kuzistão, incluindo bombardeamentos, durante o ano passado. Irão os reanimados parlamentares trabalhistas seguir este tema? Irão perguntar o que farão as tropas britânicas estacionadas nas proximidades de Bassora – especialmente o SAS – se e quando Bush começar a bombardear o Irão? Com o controle do petróleo do Kuzistão e do Iraque e, por delegação, da Arábia Saudita, os EUA terão o que Richard Nixon chamou «a maior recompensa de todas».

 

Mas, e a promessa iraniana de «uma resposta esmagadora»? No ano passado, o Pentágono enviou 500 bombas “antibunker” para Israel. Utilizá-las-ão os israelenses contra um desesperado Irão? A Revista da Postura Nuclear (Nuclear Posture Review: NPR) de Bush, do ano 2002, menciona o ataque “pre­­‑emptivo” com as chamadas armas nucleares de baixo rendimento, como uma opção. Irão os militaristas de Washington utilizá­­‑las, ainda que seja só para demonstrar ao resto de nós que, apesar dos seus problemas no Iraque, são capazes de «combater e ganhar múltiplos e simultâneos palcos importantes de guerra», como alardearam?. Que um primeiro­‑ministro britânico possa tomar parte, ainda que modicamente, deste desvario, é suficiente motivo para uma acção urgente deste lado do Atlântico.

 

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[1] A criação da bolsa petrolífera iraniana foi adiada, de momento, para finais de Junho (n. IA).