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28/02/2006 Mostre mais bandeiras: a formação de uma outra América Noutro dia foi encerrado um dos meus cinemas favoritos. Os andaimes
levantaram‑se em torno da art-deco do Valhalla, em Sydney, um dos
melhores do mundo quanto à apresentação de poderosos documentários políticos.
A ausência de alvoroço poderia parecer surpreendente numa cidade cuja
simbólica Opera House se diz encarnar o orgulho da Austrália moderna nas
artes. Pelo contrário, o encerramento reflectiu um abandono mais
generalizado. O Vallhalla era certamente uma anomalia numa Austrália tão envolvida no
culto do “marketing” que um executivo do Sydney Morning Herald chegou
a declarar que «a resposta» é «não pessoas mais inteligentes e capazes» mas
«pessoas que possam executar a sua estratégia». Em 9 de Fevereiro, a
Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico, em Paris,
proclamou a Austrália como a economia menos regulamentada e mais privatizada
do mundo ocidental. Isto é, um país possuído e dirigido por homens de
negócios. O exemplo mais vívido é a imprensa. Rupert Murdoch controla quase 70
por cento da circulação dos principais jornais. Com a excepção do
multi-étnico Special Broadcasting Service e da rede de rádio da Australian
Broadcasting Corporation, o resto dos media reflecte o murdoquismo e uma
ideologia de mercado importada por atacado dos Estados Unidos. As notáveis
guerras de cultura do primeiro‑ministro neoconservador, John Howard,
exemplificam isto. Howard acredita que “negócios e desporto” são os principais motores
da sociedade. Os outrora respeitados laboratórios de investigação científica
do país, os CSIRO, foram instruídos a adoptarem patrocinadores de negócios.
Quase isolada entre as nações, no ano passado a Austrália absteve‑se
em vez de votar por uma modesta proposta das Nações Unidas de que os membros
deveriam defender a «diversidade» nas suas próprias culturas — contra o
grande poder rapace. Quando o principal dramaturgo da Austrália, David
Williamson, comparou a Austrália privatizada das “aspirações” de Howard com
um navio de cruzeiro a navegar para o “destino soberano” de um desastre
ambiental, o seu discurso foi “criticado” [“called for”] pelo gabinete
do primeiro‑ministro e uma campanha odiosa foi orquestrada na imprensa
de Murdoch. Sem oposição política de que falar, as conquistas de Howard
realizaram‑se na vida cultural, com a historiografia envolvida.
Apoiando-se numa imutável clique de comentaristas da extrema‑direita,
ele efectivamente asfixiou o debate acerca do sangrento passado colonial da
Austrália enquanto ridicularizou a “teoria da braçadeira negra [black
armband] da história”: ou seja, a verdade de um racismo genocida que
continua a devastar o povo aborígene. A sua campanha patrioteira do “mostre
mais bandeiras” é puro George W. Bush. Foi ordenado às escolas que
instalassem mastros de bandeiras e, no “Dia da Austrália”, 26 de Janeiro, que
“celebra” a “colonização” do país de um outro povo, são distribuídas
bandeiras e frequentemente exibidas com agressividade imbecil. Isto nunca fez parte da vida australiana; os americanos embrulhavam‑se
nas suas bandeiras, mas não nós australianos. Nós víamo‑lo como uma
recordação respeitosa daqueles que tinham ido combater e morrer nas mais
catastróficas guerras imperiais da Austrália, daqueles que “fizeram o seu
melhor”. O regime de Howard mudou tudo isto. O pequeno líder usa uma bandeira
de plástico na lapela, tal como Bush, e põe a mão sobre o coração, tal como
Bush, e reforça uma sociedade baseada na raça, tal como Bush. Enquanto a
negligência de Nova Orleães é o símbolo de Bush, o desprezo mostrado em
relação aos primeiros australianos é o de Howard. No “Dia da Austrália”, abri caminho através das bandeiras até
Redfern, uma área aborígene no centro da cidade, e celebrei o que os
australianos negros chamam o Dia da Sobrevivência. O seu primeiro “Dia de
Luto e Protesto” foi realizado em 1938, no 150º aniversário da invasão
branca. Mais de um milhar de homens e mulheres aborígenes compareceram nessa
primeira reunião dos direitos civis, depois de lhes ter sido recusada a
utilização da Câmara Municipal de Sydney. Uma longa e penosa campanha pela
liberdade e justiça começou, e perdura, como uma presença invisível. No Parque Redfern, no Dia da Sobrevivência, as bandeiras eram negras,
vermelhas e douradas: as cores da pele indígena, da terra e do sol. O único
relato que pude encontrar de Redfern no dia seguinte foi de uma briga menor,
o qual foi sem dúvida enviado para os jornais pela polícia. Devendo a palavra
“aborígene” entrar na arena pública, ela deve ser associada, quando possível,
com “os sem esperança”. Na Austrália de Howard, o último “sem esperança” é um jovem doente,
aterrorizado, profundamente perturbado e maltratado chamado David Hicks [1].
Hicks era um vagabundo, que era outrora um tipo australiano conhecido como
“andarilho” [“swagman”] e “indisciplinado” [“larrikin”] e
enaltecido pelos nossos poetas pastoris e cantores de baladas. Nos anos 1990,
Hicks tornou-se muçulmano e vagabundeou pelo Kosovo, a seguir no Afeganistão,
onde foi sequestrado pelos americanos e enviado para o seu campo de
concentração na Baía de Guantánamo. Não existe um pedaço de prova de que
Hicks tenha combatido pela al-Qaeda, ou de que seja um terrorista. Ele é um
andarilho errante. No entanto, está para enfrentar uma das “comissões
militares” de Bush, para a qual é utilizada tortura para extrair confissões,
e não há direito a contra‑interrogar testemunhas, nem presunção de
inocência e nem qualquer padrão de prova “para além de uma dúvida razoável”.
Mesmo três dos seleccionados promotores militares americanos se retiraram,
argumentando que a comissão está adulterada para assegurar condenações.
Muitos dos principais juristas da Austrália concordam. O governo de Howard afirmou, em tantas palavras, que David Hicks pode
apodrecer. Ele é um sem esperança, não americano, sem aspirações. Mostre mais
bandeiras. _______ [1] (n. IA) O seguinte texto é traduzido da página http://www.es.amnesty.org/tortura/caso0/, da Amnistia Internacional:
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