Informação Alternativa

Ásia e Pacífico

19/01/2006

 

Austrália: Um país de primeira governado por pessoas de segunda

 

John Pilger

 

Logo após o Natal, Kerry Packer, o magnata australiano dos media, morreu na sua mansão com vista sobre o Porto de Sydney, guardado por grandes cães salivantes. Na Grã-Bretanha ele foi recordado como o homem que trouxe sensacionalismo e dinheiro para o cricket. Aqui, na Austrália, a sua morte proporcionou um vislumbre das mudanças impostas a sociedades que outrora se orgulhavam de serem chamadas democracias sociais.

 

Louvado como “o homem mais rico da Austrália” que “alcançou” uma classificação na lista de homens ricos da revista Forbes, como se isto o pusesse ao lado de Donald Bradman e da Opera de Sidney, Packer provocava um medo e servilismo que normalmente não é associado aos australianos. «Enterrado no seu amado país queimado pelo sol», dizia a obsequiosa manchete na primeira página do Sydney Morning Herald. O Sydney Sun­‑Herald coroou isto com: «A compaixão prática de Packer, um modelo para todos nós».

 

Packer era um homem pesado que perdia a sua têmpera muitas vezes, dizia “foda-se” muitas vezes, jogava e perdia enorme quantias, admirava Gengis Kan (sem ironia) e dominava através do poder absoluto do seu dinheiro herdado, grande parte dele acumulado evitando legalmente pagar muitos milhões de dólares de impostos — o método infalível empregado pelo seu principal competidor, Rupert Murdoch. Em meados do século XIX, a imprensa australiana era uma das mais vivas e corajosas do mundo; hoje, dominada pelos impérios do marketing de Murdoch, Packer e Fairfax, é pouco mais do que uma voz da elite política da Austrália e da Washington de Bush. Sem surpresa, o governo de John Howard vai conceder a Packer um funeral de estado. «Kerry», disse o primeiro­‑ministro, «era maior do que a vida». Foi Howard que, atacado de pneumonia, de forma memorável saiu da cama para receber “Rupert” na sua casa. Foi Howard que aceitou a distinção, concedida por uma revista de Packer, de ser o «vice­‑sherife» de Bush. (Quando questionado sobre isto, Bush imediatamente o promoveu a «sherife do sudeste da Ásia»).

 

O medo e a bajulação que Howard e o seus neoconservadores dos antípodas promoveram desde a chegada ao poder, há quase uma década, comprometeram a ténue auto-apreciação da Austrália como “a terra das oportunidades”. (A muito abusada expressão “país afortunado” era irónica, cunhada pelo autor, o falecido Donald Horne, para designar um país de primeira governando por pessoas de segunda.)

 

Tal como a América de Bush, a Austrália de Howard é não tanto uma democracia e sim uma plutocracia, governada por e para os “grandes da cidade”, embora, como destacou Mark Twain, isto seja «um continente inteiro povoado pelas ordens mais baixas». Ele não estava assim tão afastado; para a minha geração, tal como para aquela dos meus pais, nós éramos os pobres que tiveram de partir. Havia uma sensação de que havíamos herdado algo mais do que o legado britânico. Muito antes do resto do mundo ocidental, os australianos ganhavam um salário mínimo, um dia de trabalho de oito horas, pensões, auxílio à maternidade, benefícios para as crianças e o voto para as mulheres. A urna secreta foi inventada aqui e ficou conhecida como a “urna australiana”. O Partido Trabalhista Australiano constituiu governos 25 anos antes de qualquer social democracia comparável na Europa. Na década de 1960, com a excepção do povo aborígene — que é sempre a excepção — os australianos podiam orgulhar-se da mais equitativa distribuição de rendimento pessoal no mundo.

 

É uma história orgulhosa que é pouco mais do que uma memória na Austrália de Howard. O seu governo é uma união não declarada com o Partido Trabalhista da “oposição”, o qual, sob os seus antecessores Bob Hawke e Paul Keating, lançou uma espectacular redistribuição da riqueza em favor dos ricos. Segundo os analistas financeiros County Securities Australia, só a desregulamentação da indústria da televisão deu a Packer e Murdoch «uma prenda de mil milhões de dólares inteiramente livres de impostos». O vigarista condenado Alan Bond construiu um império de papel que devia 14 mil milhões de dólares australianos, ou 10 por cento da dívida nacional. «Bondy», disse Hawke, era também «maior do que a vida».

 

Howard toma como seus guias legislativos Blair e Bush, cujos impulsos para um estado policial foram recentemente tornados lei aqui. Os poucos membros do parlamento que tentaram debater este assunto foram silenciados, incrivelmente, pelo Presidente do Parlamento. O resultado é que os australianos que questionam seriamente o papel de Howard no Iraque arriscam-se a um processo sob a lei da sedição: pena de sete anos. Isto foi seguido por uma lei que destrói direitos sindicais. Nas Nações Unidas, que a Austrália ajudou a fundar, a Austrália tem-se oposto a quase toda a humanidade nas questões do aquecimento global e da vigência do direito internacional na Palestina.

 

Os recentes tumultos raciais em Sydney foram quase autorizados por um governo cujo racismo tem visto aqueles que procuram asilo irem em direcção à morte em botes furados, ou serem mantidos em campos agrestes e remotos. Os programas e instituições para os aborígenes foram destruídos ou emasculados e reivindicações ligadas aos direitos da terra atadas por leis que convidam ao litígio infindável. A maior parte dos jovens australianos negros pode esperar a prisão. Por trás do encanto do desporto australiano, futebolistas negros — incluindo equipas inteiras — muitas vezes estão mortos antes dos 40 anos. A Austrália é o único país desenvolvido que consta de uma “lista da vergonha” das Nações Unidos de países em que o tracoma, uma doença totalmente evitável que causa a cegueira, é tolerado entre o seu povo indígena. Utilizando acólitos na imprensa, o governo tem atacado instituições como o Museu Nacional, e historiadores que ousam recordar aos australianos o seu verdadeiro passado e presente. O “país afortunado” de Donald Horne ficou a descoberto.