Informação Alternativa

Mundo

24/11/2005

 

Começou uma revolução da informação

 

John Pilger

 

A escritora indiana Vandana Shiva apelou a uma «insurreição do conhecimento subjugado». A insurreição está a caminho. Ao tentar apreender o sentido de um mundo perigoso, milhões de pessoas estão a afastar-se das fontes tradicionais de notícias e informação e a voltar­‑se para a world wide web, convencidos de que o jornalismo dominante é a voz do poder incontrolado. O grande escândalo do Iraque acelerou isto. Nos Estados Unidos, vários responsáveis de rádio e TV confessaram que se tivessem desafiado e exposto as mentiras contadas acerca de armas de destruição maciça do Iraque, ao invés de amplificá-las e justificá-las, a invasão poderia não ter acontecido.

 

Tal honestidade ainda tem de cruzar o Atlântico. Desde a sua fundação em 1922, a BBC serviu para proteger cada establishment britânico durante a guerra e a agitação civil. “Nós” nunca difamamos e nunca cometemos grandes crimes. Assim, a omissão de eventos chocantes no Iraque — a destruição de cidades, a carnificina de pessoas inocentes e a farsa de um governo fantoche — é aplicada rotineiramente. Um estudo da Cardiff School of Journalism descobriu que 90 por cento das referências da BBC às armas de destruição maciça de Saddam Hussein sugeriam que ele as possuía e que «a visão dos governos britânico e estadunidense foram bem sucedidos no enquadramento da cobertura». A mesma “visão” assegurou, até agora, que a utilização de armas banidas no Iraque, pelos americanos e britânicos, foi suprimida do noticiário.

 

Uma admissão pelo Departamento de Estado dos EUA, em 10 de Novembro, de que as suas forças tinham utilizado fósforo branco em Faluja seguiu-se a «rumores na Internet», segundo o Newsnight da BBC. Não houve rumores. Houve um trabalho de investigação de primeira classe que devia envergonhar jornalistas bem pagos. Mark Kraft de insomnia.livejournal.com descobriu a prova no número de Março-Abril de 2005 da revista Field Artillery e em outras fontes. Ele foi apoiado pelo trabalho do realizador Gabriele Zamparini, fundador do excelente sítio thecatsdream.com.

 

Em Maio último, David Edwards e David Cromwell, de medialens.org, postaram uma reveladora correspondência com Helen Boaden, a directora de notícias da BBC. Eles tinham­‑lhe perguntado porque a BBC havia permanecido silenciosa acerca de conhecidas atrocidades cometidas pelos americanos em Faluja. Ela replicou: «O nosso correspondente em Faluja na altura [do ataque estadunidense], Paul Wood, não relatou nenhuma destas coisas porque não viu nenhuma destas coisas». É uma declaração saborosa. Wood estava “incorporado” com os americanos. Não entrevistou nenhuma das vítimas das atrocidades americanas, nem jornalistas não­‑incorporados. Não só não se apercebeu da utilização de fósforo branco pelos americanos, que eles agora admitem, como nada relatou acerca da utilização de outra arma proibida, o napalm. Assim, os espectadores da BBC ignoravam as finas palavras do coronel James Alles, comandante do US Marine Air Group II. «Nós napalmizámos ambos esses acessos por ponte», disse ele. «Infelizmente, havia pessoas ali... podia­‑se vê-las no vídeo da cabina de pilotagem... Não é um modo muito bom de morrer. Os generais adoram o napalm. Tem um grande efeito psicológico».

 

Logo que o trabalho desconhecido de Kraft e Zamparini apareceram no Guardian e no Independent e forçaram os americanos a confessarem tudo acerca do fósforo branco, Wood estava no Newsnight a descrever a sua admissão como «um desastre de relações públicas para os EUA». Isto reflectiu Menzies Campbell, dos Liberais Democratas, talvez o político mais citado desde Gladstone, que declarou: «A utilização desta arma pode tecnicamente ter sido legal, mas os seus efeitos são tais que ela proporcionará uma vitória propagandística à insurgência».

 

A BBC e a maior parte do establishment político e dos media invariavelmente descreveram tal horror como um problema de relações públicas, enquanto minimizavam o esmagamento de uma cidade da dimensão de Leeds, a matança e mutilação de incontáveis homens, mulheres e crianças, a expulsão de milhares de pessoas e a negação de material médico, comida e água — um importante crime de guerra.

 

A evidência é volumosa, fornecida por refugiados, médicos, grupos de direitos humanos e uns poucos estrangeiros corajosos cujo trabalho aparece apenas na Internet. Em Abril do ano passado, Jo Wilding, uma jovem estudante britânica de direito, registou uma série de extraordinários relatos de testemunhas oculares a partir de dentro da cidade. Tão bons eram eles que incluí uma das suas peças numa antologia do melhor jornalismo investigativo. O seu filme, A Letter to the Prime Minister, feito no interior de Faluja com Julia Guest, não foi mostrado na televisão britânica. Além disso, Dahr Jamail, um jornalista independente libanês­‑americano que produziu algumas das melhores reportagens da linha da frente que já li, descreveu todas as “coisas” que a BBC não conseguiu “ver”. As suas entrevistas com médicos, responsáveis locais e famílias estão na Internet, juntamente com o trabalho daqueles que expuseram a utilização generalizada de munições revestidas com urânio, outra arma proibida, e bombas de fragmentação, as quais, diria Campbell, são “tecnicamente legais”. Experimente estes sítios web: dahrjamailiraq.com, zmag.org, antiwar.com, truthout.com, indymedia.org.uk, informationclearinghouse.info, counterpunch.org, www.voicesuk.org. Há muitos mais.

 

«Cada palavra», escreveu Jean-Paul Sartre, «tem um eco. Do mesmo modo cada silêncio».