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10/11/2005 A ascensão do novo inimigo dos EUA Fui largado em Paradiso, a última zona da classe média antes do
bairro La Vega, que escorrega por uma ravina abaixo como se fosse atraído
pela força da gravidade. Previa-se uma tempestade e as pessoas estavam
ansiosas, recordando os escorregamentos de lamas que tiraram a vida a 20.000
pessoas. “Porque é que estamos aqui?” perguntou o homem sentado frente a mim
no autocarro-jipe apinhado que roncava pela colina acima. Como tanta gente na
América Latina, parecia velho, mas não era. Sem esperar pela minha resposta,
enumerou porque é que apoiava o presidente Chavez: escolas, clínicas, comida
acessível, «a nossa constituição, a nossa democracia» e «pela primeira vez, o
dinheiro do petróleo vem para nós». Perguntei‑lhe se pertencia ao MVR,
o partido de Chavez. «Não, nunca estive num partido político; só lhe posso
dizer como é que a minha vida mudou, como eu nunca sonhei». São testemunhos simples como este, que ouvi vezes sem conta na Venezuela,
que estilhaçam o espelho dum só lado entre o ocidente e um continente que se
está a erguer. Por erguer, quero dizer o fenómeno de milhões de pessoas que
se movimentam de novo, «como leões depois da sesta / Em número invencível»,
escreveu o poeta Shelley em The Mask of Anarchy. Isto não é
sentimental; está a surgir uma epopeia na América Latina que exige a nossa
atenção para além dos estereótipos e clichés que reduzem sociedades inteiras
ao seu grau de exploração e de dispensabilidade. Para o homem no autocarro, e para Beatrice cujos filhos estão a ser
vacinados e a aprender história, arte e música pela primeira vez, e para
Celedonia, de setenta anos, que lê e escreve pela primeira vez, e para Jose
cuja vida foi salva por um médico a meio da noite, o primeiro médico que ele
viu na sua vida, Hugo Chavez não é um “provocador” nem um “autocrata” mas um
humanitário e um democrata que reúne quase dois terços do voto popular,
reconhecido pelas vitórias em nada menos do que nove eleições. Comparem isto
com o quinto do eleitorado britânico que reinstalou Blair, um autêntico
autocrata. Chavez e o levantamento de movimentos sociais populares, da Colômbia
até à Argentina, representam uma mudança radical, sem derramamento de sangue
por todo o continente, inspirada pelas grandes lutas de independência que
começaram com Simón Bolívar, nascido na Venezuela, e que levou os ideais da
Revolução Francesa para sociedades intimidadas pelo absolutismo espanhol.
Bolivar, tal como Guevara nos anos 60 e Chavez nos dias de hoje, percebeu
como era o novo senhor colonial do norte. «Os EUA», disse em 1819, «parecem
destinados pelo fado a infestar a América com a miséria em nome da liberdade». Na Cimeira das Américas na Cidade do Quebeque em 2001, George W. Bush
anunciou a última miséria em nome da liberdade sob a forma de um acordo de uma
Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Este permitiria aos Estados
Unidos impor finalmente o seu “mercado” ideológico, o neoliberalismo, em toda
a América Latina. Era o sucessor natural do Acordo de Livre Comércio Norte-Americano
de Bill Clinton, que transformou o México numa fábrica de exploração [sweatshop]
americana. Bush vangloriou-se de que seria lei em 2005. Em 5 de Novembro, Bush chegou à cimeira de 2005 em Mar del Plata,
Argentina, para ouvir dizer que o seu ALCA nem sequer constava na agenda.
Entre os 34 chefes de estado estavam caras novas, rebeldes e por detrás de
todas elas estavam populações que já não estão dispostas a aceitar as
tiranias dos negócios apoiadas pelos EUA. Nunca antes os governos
latino-americanos tiveram que consultar os seus povos sobre pseudo-acordos
deste tipo; mas agora têm. Na Bolívia, nos últimos cinco anos, os movimentos sociais têm-se
livrado de governos e de corporações estrangeiras, tais como a tentacular
Bechtel, que tentaram impor o que as pessoas chamam de locura capitalista
total – a privatização de quase tudo, especialmente do gás natural e da
água. No seguimento do Chile de Pinochet, a Bolívia iria ser um laboratório
neoliberal. Os mais pobres dos pobres foram sobrecarregados até dois terços
dos seus míseros rendimentos mesmo pela água da chuva. De pé nas ruas desoladas, gélidas, calcetadas de El Alto, a 4.000 metros
de altitude nos Andes, ou sentado nas casas de tijolo de antigos mineiros e campesinos
expulsos das suas terras, tive discussões políticas dum tipo raras vezes
desencadeado na Grã-Bretanha ou nos EUA. Eles são directos e eloquentes. “Porque
é que nós somos tão pobres”, dizem, “se o nosso país é tão rico? Porque é que
os governos nos mentem e representam poderes de fora?” Referem-se a 500 anos
de conquista como se fosse uma presença viva, o que de facto é, se fizermos
um percurso a partir da pilhagem espanhola de Cerro Rico, uma colina de prata
explorada pelo trabalho de escravos indígenas e que o Império espanhol
subscreveu durante três séculos. Quando a prata acabou, havia o estanho, e
quando as minas foram privatizadas nos anos 70 por ordem do FMI, o estanho
entrou em colapso, juntamente com 30.000 postos de trabalho. Quando a folha
da coca o substituiu – na Bolívia, mascar coca disfarça a fome – o exército
boliviano, forçado pelos EUA, começou a destruir as plantações de coca e a
encher as prisões. Em 2000, estourou a rebelião aberta contra os oligarcas de negócios
brancos e contra a embaixada americana cuja fortaleza se ergue como um
Vaticano andino no centro de La Paz. Nunca se tinha visto uma coisa assim,
porque saiu da maioria da população indígena «para proteger a nossa alma
indígena». Um racismo aberto contra as populações indígenas por toda a
América Latina é a herança espanhola. Eram desprezados ou invisíveis, ou curiosidades
para turistas: as mulheres com os seus chapéus de feltro e as suas saias
coloridas. Não mais. Dirigidas por visionários como Oscar Olivera, as
mulheres de chapéu de feltro e saias coloridas cercaram e fecharam a segunda
cidade do país, Cochabamba, até que a sua água fosse devolvida à propriedade
pública. Todos os anos desde então, o povo tem travado uma guerra pela água ou
pelo gás: essencialmente uma guerra contra a privatização e a pobreza. Depois
de expulsar o presidente Gonzalo Sanchez de Lozada em 2003, os bolivianos
votaram num referendo a favor da democracia real. Por intermédio dos
movimentos sociais exigiram uma assembleia constituinte semelhante à que
fundou a revolução bolivariana de Chavez na Venezuela, conjuntamente com a
rejeição da ALCA e de todos os outros acordos de “livre comércio”, a expulsão
das companhias de água transnacionais e um imposto de 50 por cento sobre a
exploração de todos os recursos energéticos. Quando o presidente substituto, Carlos Mesa, se recusou a implementar
o programa, foi forçado a demitir‑se. No próximo mês, vai haver
eleições presidenciais e a oposição Movimento para o Socialismo (MAS) pode
vir a derrubar a velha ordem. O líder é um indígena ex-cultivador de coca,
Evo Morales, a quem o embaixador americano comparou com Osama Bin Laden. Na
realidade, é um social democrata que, para muitos daqueles que fecharam
Cochabamba e desfilaram montanha abaixo desde El Alto, é demasiado moderado. «Isto não vai ser fácil», disse-me Abel Mamani, o presidente indígena
dos Comités de Bairros de El Alto. «As eleições não vão ser uma solução,
mesmo que ganhemos. O que precisamos de garantir é a assembleia constituinte,
a partir da qual possamos construir uma democracia baseada não no que os EUA
querem, mas na justiça social». O escritor Pablo Solon, filho do grande
muralista político Walter Solon, disse, «A história da Bolívia é a história
do governo por detrás do governo. Os EUA podem criar uma crise financeira;
mas na realidade para eles é ideológico; dizem que não aceitarão outro
Chavez». O povo, contudo, não aceitará outro traidor pró-Washington. A lição é
o Equador, onde um helicóptero salvou Lucio Gutierrez quando ele fugiu do
palácio presidencial em Abril passado. Tendo ganho o poder em aliança com o
movimento indígena Pachakutik, foi o “Chavez equatoriano”, até se afogar num
escândalo de corrupção. Para os latino-americanos vulgares, a corrupção do
topo já não tem perdão. Essa é uma das duas razões para o marcar passo do
governo do Partido dos Trabalhadores de Lula, no Brasil; a outra é a prioridade
que ele deu a uma agenda económica do FMI, em detrimento do seu próprio povo.
Na Argentina, os movimentos sociais afastaram cinco presidentes
pró-Washington em 2001 e 2002. Do outro lado da água no Uruguai, a Frente
Ampla, os herdeiros socialistas dos Tupamaros, os guerrilheiros dos anos 70
que combateram uma das mais cruéis campanhas terroristas da CIA, formaram um
governo popular no ano passado. Os movimentos sociais são agora uma força decisiva em todos os países
da América Latina – mesmo num estado de medo como é a Colômbia de Alvaro
Uribe Velez, o vassalo mais leal de Bush. No mês passado, os movimentos
indígenas desfilaram por todas as 32 províncias da Colômbia exigindo o fim
dum «mal tão grande como uma espingarda»: o neoliberalismo. Por toda a
América Latina, Hugo Chavez é o Bolívar moderno. As pessoas admiram a sua
imaginação política e a sua coragem. Só ele teve a coragem de descrever os
Estados Unidos como uma fonte de terrorismo e Bush como o Señor Peligro.
É muito diferente de Fidel Castro, a quem respeita. A Venezuela é uma
sociedade extraordinariamente aberta com uma oposição livre – que é rica e
ainda poderosa. À esquerda, há os que se opõem ao estado, por princípio,
acham que as suas reformas atingiram o seu limite, e querem que o poder saia
directamente da comunidade. Dizem-no energicamente, mas apoiam Chavez. Um
jovem e fluente anarquista, Marcel, mostrou-me a clínica onde dois médicos
cubanos possivelmente salvaram a sua namorada. (Num acordo de permuta, a
Venezuela fornece petróleo a Cuba a troco de médicos). À entrada de cada barrio há um supermercado estatal, onde
tudo, desde os alimentos essenciais até ao detergente para a loiça, custa
menos 40 por cento do que nas lojas comerciais. Apesar das acusações
especiosas de que o governo instituiu a censura, a maior parte dos media
mantém-se violentamente anti‑Chávez: uma grande parte deles está nas
mãos de Gustavo Cisneros, o Murdoch da América Latina, que apoiou a tentativa
fracassada para depor Chavez. O que é impressionante é a proliferação de
estações de rádio comunitárias cheias de vitalidade, que desempenharam um
papel crítico no salvamento de Chavez no golpe de Abril de 2002, apelando às
pessoas para se manifestarem em Caracas. Enquanto o mundo olha para o Irão e para a Síria como o próximo
ataque de Bush, os venezuelanos sabem que podem bem ser eles os próximos. A
17 de Março, o Washington Post noticiou que Felix Rodríguez, «um ex‑operacional
da CIA, bem relacionado com a família Bush», tinha tomado parte no
planeamento do assassinato do presidente da Venezuela. A 16 de Setembro, Chávez
disse, «Tenho provas de que há planos para invadir a Venezuela. Mais ainda,
temos documentação: quantos bombardeiros vão sobrevoar a Venezuela no dia da
invasão... os EUA estão a efectuar manobras na ilha de Curaçao. Chama‑se
Operação Balboa». Desde então, documentos internos do Pentágono, revelados
por fuga de informação, identificavam a Venezuela como uma «ameaça
pós-Iraque» exigindo um planeamento de «espectro total». O homem novo‑velho no jipe, Beatrice e os seus filhos saudáveis e Celedonia com a sua “nova auto‑estima”, são na verdade uma ameaça – a ameaça dum mundo alternativo, decente que alguns lamentam já não ser possível. Pois bem, é possível, e merece o nosso apoio. |