|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
14/10/2005 De Suharto ao Iraque: nada mudou «O propósito do propagandista», escreveu Aldous Huxley, «é fazer um
conjunto de pessoas esquecerem que certos outros conjuntos de pessoas são
humanos». Os britânicos, que inventaram a moderna guerra de propaganda e
inspiraram Joseph Goebbels, eram especialistas neste campo. Na altura da
carnificina conhecida como Primeira Guerra Mundial, o primeiro-ministro David
Lloyd George confidenciou a C. P. Scott, editor do Manchester Guardian:
«Se as pessoas realmente soubessem [a verdade], a guerra seria interrompida
amanhã. Mas naturalmente elas não sabem, e não podem saber». O que mudou? «Se todos nós soubéssemos então o que sabemos agora», disse o New
York Times em 24 de Agosto, «a invasão [do Iraque] teria sido travada por
um clamor popular». A confissão significa dizer, com efeito, que jornais
poderosos, assim como poderosas organizações de comunicação de massa, traíram
os seus leitores, telespectadores e ouvintes por não descobrirem os factos — por
ampliarem as mentiras de Bush e Blair ao invés de desafiá-las e expô-las. As
consequências directas foram uma invasão criminosa chamada «Choque e pavor» e
a desumanização de todo um país. Isto em grande medida permanece como uma vergonha não falada na
Grã-Bretanha, especialmente na BBC, a qual continua a jactar-se do seu rigor
e objectividade enquanto faz eco a um governo corrupto e mentiroso, tal como
fez antes da invasão. Como prova disto, há dois estudos académicos
disponíveis — embora a capitulação do jornalismo da rádio e televisão já seja
óbvia para qualquer espectador atento, noite após noite, quando reportagens “incorporadas”
justificam ataques assassinos a cidades e aldeias iraquianas com “arrancar
insurgentes” e engolem a propaganda do exército britânico destinada a desviar
a atenção do seu desastre, enquanto nos preparam para ataques ao Irão e à
Síria. Tal como o New York Times e a maior parte dos media americanos,
se a BBC tivesse feito a sua tarefa, muitos milhares de pessoas inocentes
quase certamente estariam vivas hoje. Quando será que jornalistas importantes deixarão de ser
administradores do establishment e analisarão e confrontarão a parte
crítica que desempenham na violência de governos predatórios? Um aniversário
proporciona uma oportunidade. Há quarenta anos atrás, neste mês, o major
general Suharto começou uma tomada de poder na Indonésia com o
desencadeamento de uma onda de mortandade que a CIA descreveu como «o pior
assassínio em massa da segunda metade do século XX». Grande parte deste
episódio nunca foi relatado e continua secreto. Nenhum dos relatos dos
recentes ataques terroristas contra turistas em Bali mencionou o facto de que
próximo aos principais hotéis havia túmulos em massa com cerca de 80.000
pessoas mortas por chusmas orquestradas por Suharto e apoiadas pelos governos
americano e britânico. Na verdade, a colaboração de governos ocidentais, juntamente com o
papel dos negócios ocidentais, traçou o padrão para a subsequente violência
anglo-americana por todo o mundo: tal como no Chile em 1973, quando o
sangrento golpe de Augusto Pinochet foi apoiado por Washington e Londres; o
armamento do xá do Irão e a criação da sua polícia secreta; e o dispendioso e
meticuloso apoio a Saddam Hussein no Iraque, incluindo propaganda negra por
parte do Foreign Office que procurava desacreditar os relatos da imprensa de
que ele havia utilizado gás de nervos contra a aldeia curda de Halabja. Em 1965, na Indonésia, a embaixada americana forneceu ao general
Suharto cerca de 5.000 nomes. Estas eram as pessoas para assassinar, e um
diplomata sénior americano verificou os nomes dos que foram mortos ou
capturados. A maior parte eram membros do PKI, o Partido Comunista Indonésio.
Tendo já armado e equipado o exército de Suharto, Washington secretamente
despachou equipamento de comunicação do mais moderno, cujas frequências
elevadas eram conhecidas da CIA, conforme aconselhou o National Security Council
ao presidente Lyndon B. Johnson. Isto não só permitiu aos generais de Suharto
coordenarem os massacres como também significou que os mais altos escalões da
administração americana estavam a ouvi-los. Os americanos trabalharam em estreita colaboração com os britânicos.
O embaixador britânico em Jacarta, sir Andrew Gilchrist, telegrafou ao
Foreign Office: «Nunca escondi a minha crença de que uns poucos tiros na
Indonésia seriam um preliminar essencial para mudança efectiva». Os “poucos
tiros” ceifaram de meio milhão a um milhão de pessoas. Contudo, foi no campo da propaganda, da “administração” dos media e
na erradicação daquelas vítimas da memória das pessoas do ocidente, que os
britânicos brilharam. Oficiais de inteligência britânicos esquematizaram a
forma como a imprensa britânica e a BBC podiam ser manipuladas. «O tratamento
precisará ser subtil», escreveram eles, «por exemplo: a) todas as actividades
deveriam ser estritamente não atribuíveis; b) a participação ou cooperação britânica
[do governo] deveria ser cuidadosamente escondida». Para conseguir isto, o
Foreign Office abriu um departamento do seu Information Research Department
(IRD) em Singapura. O IRD era uma unidade top-secret de propaganda da guerra fria dirigida
por Norman Reddaway, um dos mais experientes mentirosos de Sua Majestade.
Reddaway e os seus colegas manipularam a imprensa “incorporada” e a BBC tão
astutamente que se gabou a Gilchrist numa mensagem secreta de que a falsa
estória que havia promovido — de que uma tomada de poder pelos comunistas estava
iminente na Indonésia — «percorreu todo o mundo e voltou aqui outra vez». Ele
descreveu como um experimentado jornalista do Sunday concordou «em dar
exactamente o seu ângulo sobre os acontecimento no artigo ... isto é, que
aquilo era um golpe com luva de seda sem carnificina». Estas mentiras, jactou-se Reddaway, podiam ser «colocadas quase
instantaneamente de volta à Indonésia através da BBC». Impedido de entrar na
Indonésia, Roland Challis, o correspondente da BBC no sudeste asiático,
estava inconsciente da carnificina. «As minhas fontes britânicas pretendiam
não saber o que se estava a passar ali», contou-me Challis, «mas elas sabiam
qual era o plano americano. Havia corpos a serem abatidos nos relvados do
consulado britânico em Surabaya, e navios da armada britânica escoltaram um
navio cheio de tropas indonésias ao longo dos Estreitos de Málaca de modo a
que pudessem tomar parte neste terrível holocausto. Foi só mais tarde que soubemos
que a embaixada americana estava a fornecer nomes e a assinalá‑los à medida
que eram mortos. Havia um acordo, você vê. Ao estabelecer o regime de Suharto,
o envolvimento do FMI e do Banco Mundial era parte dele... Suharto os chamaria
de volta. Este era o acordo». O banho de sangue foi quase inteiramente ignorado pela BBC e pelo
resto dos media ocidentais. Os títulos das notícias eram que o “comunismo”
fora derrubado na Indonésia, o qual, relatou o Time, «é a melhor notícia
da Ásia para o ocidente». Em Novembro de 1967, num conferência em Genebra
supervisionada pelo banqueiro bilionário David Rockefeller, os despojos foram
distribuídos. Todas as corporações gigantes estavam representadas, desde a
General Motors, Chase Manhattan Bank e US Steel até à ICI e à British
American Tobacco. Com a conivência de Suharto, as riquezas naturais do seu
país foram cortadas às fatias. A fatia de Suharto era considerável. Quando
ele finalmente foi derrubado, em 1998, foi estimado que ele possuía mais de 10
mil milhões de dólares em bancos estrangeiros, ou seja, mais de 10 por cento
da dívida externa da Indonésia. Da última vez que estive em Jacarta, caminhei
até ao fim da sua rua arborizada e distingui a mansão onde o assassino em
massa vivia luxuosamente. Enquanto caminha para o seu julgamento de fachada a
19 de Outubro, Saddam Hussein deve perguntar-se onde errou. Comparados com os
crimes de Suharto, os de Saddam parecem de segunda divisão. Com jactos Hawk e metralhadoras fornecidas pelos britânicos, o
exército de Suharto prosseguiu até matar um quarto da população de Timor
Leste: 200 mil pessoas. Utilizando os mesmos jactos Hawk e metralhadoras, o
mesmo exército genocida está agora a tentar esmagar até à morte o movimento
de resistência na Papua Ocidental e a proteger a companhia Freeport, a qual
está a extrair uma montanha de cobre na província. (Henry Kissinger é o seu “director
emérito”.) Uns 100 mil papuanos, 18 por cento da população, foram mortos com
apoio britânico, mas este “projecto”, como os Trabalhistas gostam de dizer,
quase nunca é reportado. O que aconteceu e continua a acontecer na Indonésia é quase uma
imagem espelhada do ataque ao Iraque. Ambos os países têm riquezas cobiçadas
pelo ocidente, ambos tinham ditadores instalados pelo ocidente para facilitar
a passagem dos seus recursos; e em ambos os países acções anglo-americanas
ensopadas em sangue foram disfarçadas pela propaganda voluntariamente feita
por jornalistas preparados para efectuar as necessárias distinções entre o
regime de Saddam (“monstruoso”) e o de Suharto (“moderado” e “estável”). Desde a invasão do Iraque, tenho falado com um certo número de jornalistas com princípios a trabalharem nos media pró-guerra, incluindo a BBC, os quais dizem que eles e muitos outros “mentem noite e dia” e querem falar abertamente e recomeçar a serem jornalistas a sério. Sugiro que este é o momento. |