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13/10/2005 O silêncio dos escritores – Sobre Harold Pinter, vencedor do Prémio Nobel da Literatura – Em 1988, o crítico literário e novelista inglês D. J. Taylor escreveu
uma peça seminal intitulada When the Pen Sleeps [Quando a caneta dorme].
Ele ampliou-a num livro, A Vain Conceit [Uma vã presunção], no qual
indagava porque é que o romance inglês degenerava, com tanta frequência, num
«palrear de sala de visitas» e porque é que as questões urgentes da
actualidade eram evitadas pelos escritores, ao contrário dos escritores de
outras regiões, digamos, na América Latina, que sentiam uma responsabilidade
de enfrentar a política: os grandes temas da justiça e injustiça, riqueza e
pobreza, guerra e paz. A noção do escritor a trabalhar em esplêndido
isolamento era absurda. Onde estavam, perguntava ele, os George Orwells, os
Upton Sinclairs, os John Steinbecks da era moderna? Doze anos depois, Taylor punha a mesma questão: onde estavam o Gore
Vidal e John Gregory Dunne ingleses: «intelectuais peso-pesados energicamente
actuantes no teatro político, enquanto nós terminámos com Lord [Jeffrey]
Archer...» No mundo pós-moderno das celebridades da escrita, os prémios são
distribuídos àqueles que competem pelas graças do imperador; os politicamente
inseguros não precisam candidatar-se. John Keanes, presidente do Prémio
Orwell para a Literatura Política, defendeu outrora a ausência de grandes
escritores políticos entre os vencedores do Prémio Orwell não para lamentar o
facto e perguntar porquê, mas para atacar aqueles que se referiam a «um
imaginário passado dourado». Escreveu que aqueles que «suspiram» por este
ilusório passado falham em apreciar escritores que dão sentido ao «colapso da
velha divisão esquerda-direita». Que colapso? A convergência dos partidos “liberal” e “conservador”
nas democracias ocidentais, como os Democratas e os Republicanos americanos,
representa uma reunião de mentes essencialmente afins. Jornalistas trabalham
assiduamente para promover uma falsa divisão entre os partidos principais e
para obscurecer a verdade de que a Grã-Bretanha, por exemplo, é agora um
estado de ideologia única com duas facções pró-negócios, quase idênticas, a
competirem entre si. As divisões reais entre esquerda e direita têm de ser
encontradas do lado de fora do Parlamento e nunca foram tão grandes. Elas
reflectem a disparidade sem precedentes entre a pobreza da maioria da
humanidade e o poder e privilégio de uma minoria corporativa e militarista,
com sede em Washington, que procura controlar os recursos do mundo. Uma das razões porque estes piratas poderosos têm tanta rédea solta é
que a intelligentsia anglo-americana, nomeadamente escritores, «as
pessoas com voz» como lhes chamou Lord Macauley, estão silenciosas ou
cúmplices ou acovardadas ou a palrear, e ricas como resultado. Provocadores
de pensamento surgem de tempos em tempos, mas o establishment inglês
sempre foi brilhante a extrair-lhes os dentes e absorvê-los. Aqueles que
resistem à assimilação são ridicularizados como excêntricos até que se
conformam ao seu estereótipo e às suas opiniões autorizadas. A excepção é Harold Pinter. Noutro dia, sentei-me para compilar uma
lista de outros escritores remotamente semelhantes a ele, aqueles “com uma
voz” e uma compreensão das suas responsabilidades mais vastas como
escritores. Rabisquei uns poucos nomes, todos eles agora empenhados em
contorções intelectuais e morais, ou então adormecidos. A página estava em
branco salvo por Pinter. Apenas ele não está tranquilo, não palra, tem coragem,
fala alto. Acima de tudo, ele entende o problema. Ouçam isto: «Estamos numa terrível descida neste momento, uma espécie de abismo,
porque o pressuposto é que a política está ultrapassada. Isto é o que diz a
propaganda. Mas não acredito na propaganda. Acredito que a política, a nossa
consciência política e a nossa inteligência política não estão ultrapassadas,
porque se estiverem, estamos realmente condenados. Eu próprio não posso viver
assim. Têm-me dito muitas vezes que vivo num país livre. Vou de certeza ser
livre. Com isso quero dizer que vou manter a minha independência de
pensamento e de espírito, e penso que é isto que é obrigatório para todos
nós. A maior parte dos sistema políticos falam nesta linguagem vaga, e é
nossa responsabilidade e nosso dever como cidadãos dos nossos vários países
exercitar actos de observação atenta desta utilização da linguagem. Isto
significa, naturalmente, que quem assim faz tende a tornar-se especialmente
impopular. Mas para o inferno com isso». Encontrei-me pela primeira vez com Harold quando ele estava a apoiar
o governo eleito pelo povo na Nicarágua, na década de 1980. Eu havia feito
reportagens da Nicarágua, e um filme sobre os notáveis avanços dos
sandinistas apesar das tentativas de Ronald Regan para esmagá-los através do
envio ilegal, através da fronteira das Honduras, de intermediários [proxies]
treinados pela CIA para cortar gargantas de parteiras e outros
anti-americanos. A política externa americana é, claro, ainda mais predatória
sob Bush: quanto mais pequeno o país, maior a ameaça. Com isto quero dizer a
ameaça de um bom exemplo para outros pequenos países que poderiam procurar
aliviar a pobreza abjecta do seu povo através da rejeição do domínio
americano. O que me impressionou quanto ao envolvimento de Harold foi o seu
entendimento desta verdade, a qual é geralmente tabu nos Estados Unidos e na
Grã-Bretanha, e a eloquente resposta «para o inferno com isso» em tudo o que
disse e escreveu. Quase sem assistência, aparentemente, ele restaurou “imperialismo” no
léxico político. Recorde-se que nenhum comentador utilizava mais esta palavra;
proferi-la num lugar público era como dizer “foda” num convento. Agora você
pode gritá-la por toda a parte e as pessoas estarão de acordo; a invasão do
Iraque apagou dúvidas, e Harold Pinter foi um dos primeiros a alertar-nos.
Ele descreveu, correctamente, o esmagamento da Nicarágua, o bloqueio contra
Cuba, a matança por atacado de civis iraquianos e jugoslavos como atrocidades
imperialistas. Ilustrando o crime americano cometido contra a Nicarágua, quando o
governo dos Estados Unidos ignorou uma sentença do Tribunal Internacional de
Justiça ordenando que parassem de violar a lei com os seus ataques assassinos,
Pinter recordou que Washington raramente respeitou o direito internacional; e
tinha razão. Escreveu: «Em 1965, o presidente Lyndon Johnson disse ao
embaixador grego nos EUA: “Que se foda o seu parlamento e a sua constituição.
A América é um elefante, Chipre é uma pulga. A Grécia é uma pulga. Se estas
duas criaturas continuarem a irritar o elefante, podem muito bem ser golpeadas
pela tromba do elefante, golpeadas para sempre...” Ele falava a sério. Dois
anos depois, os coronéis tomaram o poder e o povo grego passou sete anos no
inferno. É preciso agradecer a Johnson. Ele por vezes dizia a verdade, ainda
que brutal. Regan dizia mentiras. A sua célebre descrição da Nicarágua como
uma «masmorra totalitária» era uma mentira de qualquer ponto de vista concebível.
Era uma afirmação não apoiada pelos factos; não tinha qualquer base na
realidade. Mas era uma boa frase retumbante, viva, que persuadiu os
irreflectidos...» Na sua peça Cinza às cinzas, Pinter utiliza as imagens do
nazismo e do holocausto, interpretando-as como uma advertência contra
similares «actos de assassínio repressivos, cínicos e indiferentes» pelos
clientes de estados imperialistas negociantes de armas tais como os Estados
Unidos e a Grã-Bretanha. «A palavra democracia começa a feder», afirmou. «Assim,
em Cinza às cinzas, não estou simplesmente a falar sobre os nazis;
estou a falar sobre nós, da nossa concepção do nosso passado e da nossa
história, e do que ela representa para nós no presente». Pinter não está a dizer que as democracias são totalitárias como a
Alemanha nazi, de modo algum, mas que acções totalitárias são empreendidas
por democratas impecavelmente polidas, as quais, em princípio e em efeito, são
pouco diferentes daquelas empreendidas pelos fascistas. A única diferença é a
distância. Meio milhão de pessoas foram mortas pelos bombardeiros americanos
enviados secretamente e ilegalmente para os céus do Camboja por Nixon e
Kissinger, ateando um holocausto asiático, o qual foi completado por Pol Pot. Alguns críticos odeiam o seu trabalho político, muitas vezes atacando
as suas peças insanamente e tratando de forma condescendente a sua sinceridade. Ele, em troca,
ridiculariza esta zombaria vazia. É um narrador da verdade. O seu
entendimento da linguagem política segue o de Orwell. Não se importa, como
ele diria, com a propriedade da linguagem, só com o seu sentido mais
profundo. No fim da guerra fria, em 1989, escreveu: «...durante os últimos
quarenta anos, o nosso pensamento foi aprisionado em estruturas ocas de
linguagem, numa retórica fedorenta, morta, mas imensamente bem sucedida. Isto
representou, na minha opinião, uma derrota da inteligência e da vontade». Ele jamais aceitou isto, claro. «Para o inferno com isso!» Graças a ele, em não pequena medida, a derrota está longe de ser certa. Pelo contrário, enquanto outros escritores dormiam ou palreavam, manteve-se consciente de que as pessoas nunca são domadas, e na verdade agitam-se outra vez: Harold Pinter tem um lugar de honra entre elas. |