Informação Alternativa

Iraque

27/09/2005

 

Eventos sinistros numa guerra cínica

 

John Pilger

Retirado de resistir.info

 

Eis aqui perguntas que não estão a ser formuladas acerca das mais recentes reviravoltas de uma guerra cínica. Foram descobertos explosivos e um detonador por controle remoto no carro dos dois homens das forças especiais SAS “resgatados” da prisão em Bassorá a 19 de Setembro? Se isto é verdade, o que estavam eles a planear fazer com eles? Porque é que as autoridades militares britânicas no Iraque publicaram uma versão inacreditável das circunstâncias que levaram veículos blindados a deitarem abaixo o muro de uma prisão?

 

De acordo com o responsável do Conselho Governante de Bassorá, que tem cooperado com os britânicos, cinco civis foram mortos por soldados britânicos. Um juiz afirmou serem nove. Quanto vale a vida de um iraquiano? Será que não haverá na Grã-Bretanha nenhum relato honesto deste evento sinistro, ou devemos nós simplesmente aceitar a costumeira arrogância do secretário da Defesa John Reid? «A lei iraquiana é muito clara», disse ele. «O pessoal britânico está imune aos processos legais iraquianos». Ele omitiu dizer que esta falsa imunidade foi inventada pelos ocupantes do Iraque.

 

Observar jornalistas “incorporados” no Iraque e em Londres, a tentarem proteger a linha britânica, era como observar uma sátira de toda a atrocidade no Iraque. Primeiro, houve choques fingidos de que a “lei” do regime iraquiano não vigorasse fora das fortificações americanas em Bagdade e de que a polícia “treinada pelos britânicos” em Bassorá pudesse estar “infiltrada”. Um ultrajado Jeremy Paxman quis saber como dois dos nossos rapazes — de facto, dois estrangeiros altamente suspeitos vestidos como árabes e transportando um pequeno arsenal — podiam ser presos pela polícia numa sociedade “democrática”. «Não são eles supostos estar do nosso lado», perguntou ele.

 

Embora relatado inicialmente pelo Times e pelo Mail, todas as menções aos explosivos alegadamente encontrados com os homens do SAS desvaneceram-se dos noticiários. Ao invés disso, as estórias eram sobre o perigo que os homens correriam se fossem entregues à milícia dirigida pelo clérigo “radical” Moqtada al­‑Sadr. “Radical” é um termo enxertado gratuitamente; al-Sadr tem realmente cooperado com os britânicos. O que tinha ele a dizer acerca do “resgate”? Muitíssimo, mas nada disso foi relatado neste país. O seu porta­‑voz, Sheikh Hassan al-Zarqani, disse que os homens da SAS, disfarçados como seguidores de al-Sadr, estavam a planear um ataque a Bassorá ante um importante festival religioso. «Quando a polícia tentou detê­‑los», afirmou, eles «abriram fogo sobre a polícia e transeuntes. Após uma perseguição de carro, foram presos. O que a nossa polícia encontrou no carro era muito perturbador — armas, explosivos e um detonador por controle remoto. Estas são as armas de terroristas».

 

O episódio ilumina a mais persistente mentira da aventura anglo-americana. A “coligação” diz que não tem culpa pelo banho de sangue no Iraque — mas tem, de forma esmagadora — e que terroristas estrangeiros orquestrados pela al-Qaeda são os culpados reais. O regente da orquestra, dizem eles nesta linha, é Abu Musab al-Zarqaui, um jordano. O poder demoníaco de Al-Zarqaui é central para o “Programa estratégico de informação” montado pelo Pentágono para enquadrar a cobertura dos noticiários da ocupação. Ele foi o único êxito incondicional dos americanos. Ligue qualquer noticiário nos EUA e na Grã-Bretanha e o repórter incorporado situado dentro de uma fortaleza americana (ou britânica) repetirá afirmações não comprovadas acerca de al-Zarqaui.

 

O resultado deixa duas impressões: de que o direito dos iraquianos a resistirem a uma invasão ilegal — um direito inscrito na lei internacional — foi usurpado e deslegitimado por duros terroristas estrangeiros, e que uma guerra civil está em andamento entre os xiitas e os sunitas. Um membro da Assembleia Nacional Iraquiana, Fatah al-Sheikh afirmou esta semana: «Há uma enorme campanha dos agentes dos ocupantes estrangeiros para entrarem e instilarem ódio entre os filhos do povo iraquiano e espalharem rumores a fim de uns intimidarem os outros... Os ocupantes estão a tentar iniciar incitamentos inter-religiosos e, se isso não acontecer, eles então iniciarão um incitamento entre os xiitas».

 

O objectivo anglo-americano do “federalismo” para o Iraque é parte de uma estratégia imperial de provocar divisões num país onde as comunidades tradicionalmente se têm sobreposto, e mesmo casado entre si. A promoção estilo­‑Ossama de al-Zarqaui, faz parte disto. Tal como o Pimpinela Escarlate, ele está em toda a parte mas em parte alguma. Quando os americanos esmagaram a cidade de Faluja no ano passado, a justificação para o seu comportamento atroz foi «apanhar aqueles sujeitos leais a al-Zarqaui». Mas as autoridades civis e religiosas da cidade negaram que ele alguma vez tivesse estado ali ou tivesse qualquer coisa a ver com a resistência.

 

«Ele é simplesmente uma invenção», disse o Imã da mesquita al-Kazimeya de Bagdade. «Al-Zarqawi foi morto no princípio da guerra no norte do Curdistão. A sua família chegou a organizar uma cerimonia após a sua morte». Seja isto verdadeiro ou não, a “invasão estrangeira” de al-Zarqawi serve como o último véu de Bush e Blair na sua “guerra contra o terror” e cambaleante tentativa de controlar a segunda maior fonte de petróleo do mundo.

 

Em 23 de Setembro, o Centre for Strategic and International Studies, em Washington, um organismo do establishment, publicou um relatório que acusou os EUA de «alimentarem o mito» dos combatentes estrangeiros no Iraque, os quais representam menos de 10 por cento de uma resistência estimada em 30.000 homens. Dos oito estudos abrangentes quanto ao número de civis iraquianos mortos pela “coligação”, quatro estabelecem o número em mais de 100.000. Até o exército britânico ser retirado de onde não tem o direito de estar, e aqueles responsáveis por este monumental acto de terrorismo serem acusados pelo Tribunal Criminal Internacional, a Grã-Bretanha estará coberta de vergonha.