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13/09/2005
Notícias vindas de trás de
A Fachada
John
Pilger
Retirado de resistir.info
Quando eu vivia nos Estados Unidos, no fim da década de 1960, muitas
vezes o meu lar era em Nova Orleans, numa casa de tábuas cinzentas de um
amigo construída numa parte da cidade em que lutadores pelos direitos civis
se refugiavam da violência do Sul Profundo (Deep South). Dizia-se que
Nova Orleans era cosmopolita; também era sinistra e assassina. Éramos
protegidos pelo então Promotor Distrital Jim Garrison, um liberal independente
cujas investigações quanto ao assassínio de John Kennedy lhe fizeram
poderosos inimigos por trás de A Fachada (The Facade).
A Fachada era como descrevíamos a linha divisória entre a América da vida
real — de uma pobreza tão profunda que a escravidão ainda existia e um poder
de estado tão voraz que travava guerra contra os seus próprios cidadãos,
assim como contra negros e pessoas de pele morena em países remotos — e a
América que desovava a gula do corporatismo e inventou as relações públicas
como meio de controle social: o “Sonho americano” e o “Modo de vida
americano” começaram como slogans publicitários.
A deliberada negligência do regime Bush antes e após o furacão Katrina
proporcionou um raro vislumbre da parte de trás de A Fachada. Os pobres não
eram mais invisíveis; os corpos a flutuarem na água contaminada, os
sobreviventes ameaçados com tiros da polícia, a característica obesidade da
pobreza americana — tudo isto ridicularizou as florestas de cartazes
publicitários, os implacáveis anúncios na televisão e as notícias em pílulas
(duração média de 9,9 segundos) que glorificam o “sonho” da riqueza e do
poder. Uma palavra há muito expropriada e falsificada — realidade — mostrou o
seu verdadeiro significado, ainda que brevemente.
Como que por acidente, os media americanos, os quais são o braço legitimador
das relações públicas corporativas, relatou a verdade. Durante uns poucos
dias, a um selecto grupo de leitores de jornais liberais foi dito que a
pobreza havia aumentado espantosos 17 por cento sob Bush; que um bebé afro‑americano
nascido num raio de uma milha (1609 m) da Casa Branca tinha menos
oportunidade de sobreviver ao seu primeiro ano do que um bebé urbano na
Índia; que os Estados Unidos agora estavam classificados na 43ª posição na
mortalidade infantil mundial; na 84ª posição na imunização de sarampo e na
89ª na de pólio; que a mais rica companhia petrolífera do mundo, a
ExxonMobil, faria 30 mil milhões de dólares de lucros este ano, tendo
recebido uma enorme fatia dos 14,5 mil milhões de dólares de “isenções
fiscais” que a nova lei da energia de Bush garante aos seus apaniguados da
elite.
Nas suas duas eleições Bush recebeu a maior parte das “contribuições
corporativas” — o eufemismo para subornos que totaliza 61,5 milhões de
dólares — de companhias de petróleo e gás. A conquista sangrenta do Iraque, a
segunda maior fonte de petróleo do mundo, será o prémio: o seu saque.
Iraque e Nova Orleans não estão muito separados. Em 13 de Abril de 2003, Matt
Frei, o correspondente em Washington da BBC, relatou o banho de sangue da
invasão americana com estas palavras: «Não há dúvida de que o desejo de levar
o bem, levar os valores americanos, ao resto do mundo, e especialmente agora
ao Médio Oriente... está agora cada vez mais ligado ao poder militar». As
justificações de Frei para o regime Bush a partir da frente da Casa Branca, e
especificamente para o arquitecto da carnificina no Iraque, Paul Wolfowitz,
eram coerentes com a sua reportagem a partir de Nova Orleans, que foi
eloquente. Em 5 de Setembro, ele descreveu as tropas prontas para a batalha
da 82ª Aerotransportada (Airborne) a andarem com dificuldade através
das ruas de Nova Orleans como os «heróis de Tikrit». A maior parte da
mortandade em Tikrit e em outros lugares do Iraque foi cometida não pelos
“insurgentes” mas sim pelos tais “heróis”: um facto quase nunca aceite na
“cobertura”, seja na Fox ou na BBC. Com as mãos na cabeça em Nova Orleans,
Frei queria saber porque Bush havia feito tão pouco. A usurpação da realidade
estava completa.
Antes que passe o momento, e as atrocidades e mentiras de Bush no Iraque
sejam outra vez aceites como boas, vale a pena ligar o seu desrespeito pelo
sofrimento em Nova Orleans com outras verdade por trás de A Fachada. A
natureza imutável dos 500 anos da cruzada imperial do ocidente é
exemplificada no sofrimento não relatado de pessoas de todo o mundo, inimigos
declarados nas suas próprias pátrias. O povo de Tal Afar, uma cidade do norte
iraquiano que agora surge no noticiário como “uma fortaleza insurrecta” — isto
é, daqueles que se recusaram a ser expulsos dos seus lares — está a ser
bombardeado e descarnado e torturado enquanto você lê isto, assim como o foi
o povo de Faluja, e o povo de Najaf, e o povo de Hongai, uma “fortaleza” no
Vietname, outrora o lugar mais bombardeado da Terra, e o povo de Neak Loeung,
no Cambodja, uma das incontáveis cidades arrasadas pelos B-52. A lista de
tais lugares remetidos à notoriedade, e a seguir ao olvido, é aparentemente
infindável. Porquê?
A resposta em grande parte está em que muitos dos académicos ocidentais
puseram a humanidade fora do estudo das nações, congelando-a com jargão e
reduzindo-a a um esoterismo denominado “relações internacionais”, o grande
tabuleiro de xadrez do poder ocidental que classifica as nações como utilizáveis
ou não, dispensáveis ou não. (Ouçam a conversa do secretário britânico dos
Negócios Estrangeiros Jack Straw acerca de «nações fracassadas»: pura
invenção dos fanáticos de RI anglo-americanos). É esta ortodoxia desenfreada
que determina como fala o poder e como os seus historiadores e repórteres
relatam.
Tal ortodoxia, afirma Richard Falk, professor de Relações Internacionais em
Princeton e dissidente distinto, «que é tão amplamente aceite entre
cientistas políticos a ponto de ser virtualmente indesafiável em jornais
académicos, encara a lei e a moralidade como irrelevantes para a
identificação da política racional». Assim, a política externa ocidental é
formulada «através de um farisaico écran moral/legal, de sentido único com
imagens positivas dos valores ocidentais e de inocência retratada como
ameaçada, validando uma campanha de violência política irrestrita...» Este é
o filtro através do qual a maior parte do povo obtêm o seu noticiário sério.
Esta é a razão porque a maior parte das verdades óbvias, tal como a
predominância do terrorismo de estado ocidental sobre a minúscula variedade
al-Qaeda, nunca é relatada. Esta é razão porque a destruição pela América de
35 democracias em 30 países (a última contagem do historiador William Blum) é
desconhecida do público americano.
Mais prementemente, esta é a razão porque as implicações históricas dos
assaltos de Bush e Blair às nossas liberdades mais básicas — tais como o habeas
corpus — raramente são relatadas. Em 9 de Setembro, o Tribunal Federal
americano de recursos adiou para as calendas gregas um julgamento contra José
Padilla, uma alegada testemunha de uma alegada “trama” de reclusos da Baía de
Guantanamo, permitindo aos militares americanos mantê‑lo detido sem
acusação, indefinidamente. Apesar de não haver processo contra ele, é
improvável que o Supremo Tribunal derrube esta simulação, o que significa o
fim da Carta de Direitos (Bill of Rights) e do «próprio núcleo da
liberdade... liberdade do aprisionamento indefinido à vontade do Executivo»,
como escreveu outrora famosamente um jurista americano.
Isto esteve longe de ser notícia na Grã-Bretanha, assim como as advertências
de Lord Hoffmann passaram ao lado da maior parte de nós. Como membro da Casa
do Lordes, ele afirmou que os planos de Blair para destruir os nossos
próprios direitos básicos constituíam uma ameaça maior do que o terrorismo.
Aprisionamento indefinido para os inocentes perante a lei e intimidação de
uma comunidade minoritária e de dissidentes — são estes os objectivos das
“medidas necessárias” de Blair, tomadas de empréstimo a Bush. Quem o desafia?
A sua conferência de imprensa na Downing Street é uma augusto redil de
carneiros, com balidos escassamente audíveis. Na Índia, relatou outro dia o
editor político do Guardian londrino, «o sr. Blair mal se susteve no
chão quando desafiado acerca da guerra do Iraque» — isto é, por repórteres
indianos. The Guardian não descreveu nem os seus desafios nem as
réplicas de Blair.
Por trás de A Fachada, a destruição da democracia tem sido um projecto a
longo prazo. Os milhões de pobres, como a maior parte do povo de Nova
Orleans, não têm lugar no sistema americano, razão pela qual eles não votam.
O mesmo está a acontecer sob Blair, que atingiu a mais baixa porcentagem de
votantes desde o direito de voto. Tal como Bush, isto não é preocupação para
ele, pois os seus horizontes vão muito mais além. Vender armas e negócios de
privatização à Índia um dia, preparar o terreno para atacar o Irão a seguir.
Sob Blair, o Serviço Secreto de Informações, MI6, executou a Operação
Atracção em Massa (Operation Mass Appeal), uma campanha para plantar
estórias nos media acerca das armas de destruição maciça de Saddam Hussein.
Sob Blair, jovens paquistaneses vivendo na Grã-Bretanha foram treinados como
combatentes jihadi e recrutados para a primeira das suas guerras — o
desmembramento da Jugoslávia em 1999. Segundo a Observer Research Foundation,
com sede em Deli, eles aderiram a esta rede terrorista «com o pleno
conhecimento e cumplicidade das agências de inteligência britânicas e
americanas».
Na sua obra clássica, O grande tabuleiro de xadrez (The Grand
Chessboard), Zbigniew Brzezinski, o padrinho das políticas e acções
americanas no Afeganistão e no Iraque, escreve que para a América dominar o
mundo ela não pode manter uma democracia genuína, popular, porque «a busca do
poder não é um objectivo que comande a paixão popular... A democracia é
inimiga da mobilização imperial». Ele descreve como o presidente Carter,
persuadido secretamente, em 1976 financiou e armou os jihadis no
Paquistão e no Afeganistão como meio de assegurar o predomínio da América na
Guerra Fria. Quando lhe perguntei em Washington, dois anos atrás, se
lamentava que as consequências fossem a al-Qaeda e os ataques do 11 de
Setembro, ele ficou muito exasperado e não respondeu; e uma fenda em A
Fachada fechou-se. É tempo de aqueles de nós pagos para manter os registos
correctos o façam completamente.
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