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07/05/2005 Trazendo‑vos as notícias – cortesia da Lei dos Opostos e da Lei do Silêncio Consegue imaginar a BBC ou outro grande emissor a pedir desculpa a um regime velhaco que pratica o racismo e a limpeza étnica; que «legalizou efectivamente o uso da tortura» (Amnistia); que despreza a lei internacional, tendo desafiado centenas de resoluções da ONU, e construiu um muro de apartheid a despeito do Tribunal Internacional de Justiça; que demoliu milhares de casas de pessoas e deu aos seus soldados o direito de assassinar; e cujo líder foi julgado «pessoalmente responsável» pelo massacre de mais de 2.000 pessoas? Consegue imaginar a BBC a pedir desculpa ao Iraque de Saddam Hussein, ou outros demónios oficiais, por transmitir uma entrevista não censurada com um corajoso dissidente desse país, um homem que passou 19 anos na prisão, a maior parte em isolamento? Claro que não. Contudo, no mês passado, a BBC pediu “confidencialmente” desculpa a um regime com tal registo, de modo que o seu correspondente fosse autorizado a voltar, tendo prometido suportar um sistema de censura que continua a amordaçar a dissidência. O regime é a Israel de Ariel Sharon, cujos crimes de guerra, horrível registo de direitos humanos e ilegalidade duradoura continuam a receber um certificado de dispensa não apenas do ocidente dominado pelos EUA, mas pelo jornalismo respeitável. O conluio do governo de Blair com o bando de Sharon é reflectido na cobertura “equilibrada” da BBC de uma repressão descrita por Nelson Mandela como «a grande questão moral da nossa era». Simon Wilson, o correspondente obrigado a pedir desculpa por uma correcta, importante e há muito devida entrevista com Mordechai Vanunu, saberá melhor no futuro. Isto quase não é novo. A pressão aplicada à BBC e a outros emissores pelo “lobby” Israel tem sido tão bem sucedida que, como revelou um estudo da Universidade de Glasgow, muitos espectadores das notícias televisivas acreditam que os “colonos” judeus cuja repressão ilegal e com frequência violenta sobre os palestinianos minou esperanças de paz real, são de facto palestinianos. O que é novo é a extensão com que a insidiosa propaganda estatal penetrou em secções dos media cuja independência foi, até recentemente, aceite por grande parte do público. Para compreender isto, aplica‑se a Lei dos Opostos e a Lei do Silêncio. A Lei dos Opostos pode ser aplicada a quase qualquer emissor de notícias actualmente. A longamente esperada morte do Papa é um caso em destaque. Invertendo o rio de baba sobre o Papa – “o Papa do povo” (quase universal), «o homem que mudou a história» (Bush), «uma figura cimeira respeitada em todas as fés e nenhuma» (Blair) – têm a verdade. Este homem profundamente reaccionário deteve a história e destruiu vidas em todo o mundo com a sua fanática oposição a decências básicas, tais como o controlo de natalidade. Chamou a isto «abominável», divulgando o discurso, e assim condenou milhões, desde crianças famintas a bebés nascidos com SIDA. Na América Latina, humilhou publicamente padres corajosos cuja “preferência pelos pobres” se atreveu a contrariar a hierarquia medieval que ele defendeu. A alegação de que ele “deitou abaixo o comunismo” é também o oposto da verdade. Como fiquei a saber quando fiz reportagem sobre o seu regresso papal à sua nativa Polónia em 1979, a Igreja desse país, cujo conservadorismo ele corporizou, era um companheiro de intrigas do regime estalinista até que os ventos mudaram. A Lei dos Opostos pode ser aplicada à actual moda ocidental governamental/mediática de salvar África, conhecida como o Ano de África. A BBC foi o anfitrião de uma conferência sobre isto, tal como Blair será o anfitrião da cimeira do G8 em Julho com “erradicar a pobreza de África” como tema. Esta é «a grande oportunidade de a Grã‑Bretanha», escreveu Polly Toynbee no Guardian, «comprometer os ricos com o alívio da dívida, a ajuda, o comércio justo, as emissões de carbono e os inválidos da SIDA». Acrescentou: «Na dívida e no comércio, os Trabalhistas saíram‑se bem». O oposto é verdade. Tal como o resto do mundo empobrecido, os países africanos só se qualificam para o iluminismo em voga se concordarem em impor ao seu povo as restrições mortais da Organização Mundial do Comércio, do FMI e do Banco Mundial – tais como a destruição de tarifas que protegem economias sustentáveis e a privatização dos recursos naturais como a água. Ao mesmo tempo, são “encorajados” a comprar armas de companhias de armamento britânicas, especialmente se têm uma guerra civil em curso ou se existe uma tensão com um vizinho. A Lei do Silêncio é aplicada a crimes cometidos não por demónios oficiais – Saddam, Milosevic e outros – mas por governos ocidentais. Um correspondente da Australian Broadcasting Corporation, Eric Campbell, ao promover recentemente um livro das suas aventuras, descreveu a “cobertura” da guerra do Iraque da emissora. «O satélite ao vivo é um travesti», disse. «Basicamente, se [os repórteres] estão em satélite, não viram nada. Ao correspondente são lidas as histórias telegrafadas e é‑lhe dito que isso é o que ele tem para dizer no ar – isso é na maioria dos casos». Isto pode ajudar a explicar porque é que o horror do ataque norte‑americano a Fallujah ainda tem de ser reportado pelas outras grandes emissoras. Em contraste, jornalistas independentes como Dahr Jamail reportaram médicos que descrevem a matança de civis que portavam bandeiras brancas por marines dos EUA. Isto foi gravado em vídeo, incluindo o assassinato da maioria de uma família de 12. Uma testemunha descreveu como a sua mãe foi atingida com um tiro na cabeça e o seu pai no coração, e como um rapaz de seis anos que estava por cima dos seus pais mortos, a chorar, foi morto a tiro. Nada disto apareceu na televisão britânica. Quando interrogado, um porta‑voz da BBC disse: «A conduta das forças da coligação foi examinada extensivamente por programas da BBC». Isso é uma falsidade demonstrável. De modo similar, a Lei do Silêncio aplica‑se ao provável ataque americano ao Irão. Scott Ritter, o inspector de armas da ONU que em 1999 revelou que Saddam Hussein não tinha armas de destruição em massa e foi a partir de então praticamente proscrito, revelou recentemente que, de acordo com um oficial do Pentágono, o Irão será atacado em Junho. De novo, ele foi ignorado pela maioria dos media. Enquanto a propaganda da “democracia está em marcha no Médio Oriente” de Bush e Blair é relatada acriticamente, a Lei do Silêncio aplica‑se à campanha do regime de Bush para subverter e derrubar Hugo Chávez na Venezuela, indubitavelmente o líder mais vezes democraticamente eleito na América Latina, se não no mundo (nove eleições) cuja própria “preferência pelos pobres” fez reverter os rendimentos da quarta maior reserva de petróleo do mundo para a maioria dos venezuelanos. No ano passado, fiz uma longa entrevista com Jeremy Bowen, um repórter da BBC que eu admiro, para um programa sobre correspondentes de guerra. Embora adivinhasse que o que realmente se pretendia eram as minhas histórias de proezas jornalísticas na linha da frente, comecei por descrever como os jornalistas frequentemente produziram propaganda velada para o poder ocidental – ao aceitar a “nossa” versão ou ao omitir o desagradável, tais como as atrocidades do terrorismo de estado ocidental: um grande tabu. Enfatizei que esta censura não era conspiratória, mas frequentemente inconsciente, mesmo subliminar: tal era o nosso treino e preparação. O meu contributo não apareceu. |