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22/06/2005 A cimeira do G8: uma
fraude e um circo A capa do The Observer no dia 12 de Junho anunciava: «Anulados 55 mil milhões de dólares na dívida de África, “uma vitória para milhões de pessoas”». A «vitória para milhões de pessoas» é citação de Bob Geldof, que disse, «Amanhã, 280 milhões de africanos acordarão pela primeira vez nas suas vidas sem vos dever ou a mim um centavo...». Esse disparate seria de tirar o fôlego se o fôlego do leitor não tivesse já sido extraído pelos incessantemente sofismas de Geldof, Bono, Blair, The Observer e companhia. A pilhagem imperial e tragédia de África foram transformadas num circo em benefício dos chamados líderes do G-8 que irão à Escócia no próximo mês e aqueles de nós que estejam dispostos a ser distraídos pelos latidos dos cães do circo: os meios de comunicação do establishment e as suas “celebridades”. A ilusão de uma cruzada anti‑establishment conduzida pelas estrelas pop – uma imagem cultivada, controlada de rebelião – serve para diluir um grande movimento político de cólera. Em cimeira atrás de cimeira, nem uma só “promessa” significativa do G8 se cumpriu, e a «vitória para milhões de pessoas» não é uma excepção. É uma fraude – na verdade, um recuo na redução da pobreza em África. Inteiramente condicionada por viciosos, desacreditados programas económicos impostos pelo Banco Mundial e pelo FMI, o “pacote” assegurará que os países “escolhidos” se afundarão ainda mais na pobreza. Constitui alguma surpresa que isto seja apoiado por Blair e pelo seu ministro das Finanças, Gordon Brown, e George Bush; e que mesmo a Casa Branca lhe chame um «marco»? Para eles, é uma importante fachada, erguida pelos famosos e ingénuos e vazios. Tendo espargido Blair, Geldof descreve Bush como «apaixonado e sincero» sobre terminar com a pobreza. Bono chamou a Blair e a Brown «o João e o Paulo da fase do desenvolvimento global». Por detrás desta fachada, o poder rapace pode “reordenar” as vidas de milhões a favor de corporações totalitárias e do seu controlo dos recursos mundiais. Não há conspiração; o
objectivo não é um segredo. Gordon Brown afirma‑o em discurso após
discurso, que os jornalistas liberais optam por ignorar, preferindo a versão
abreviada das Finanças. O comunicado do G8 anunciando a«vitória para milhões
de pessoas» é inequívoco. Sob uma secção de título “Propostas do G8 para o
cancelamento da dívida dos HIPC” [HIPC = Heavily Indebted Poor Countries = Países
Pobres Pesadamente Endividados], diz que o alívio da dívida para os países
pobres será concedido apenas se mostrarem «ajustar os seus fluxos de assistência
bruta pelo montante dado»: por outras palavras, a sua ajuda será reduzida
pelo mesmo montante que o alívio da dívida. Por isso, nada ganham. O segundo
parágrafo estabelece que «é essencial» que os países pobres «acelerem o
desenvolvimento do sector privado» e assegurem «a eliminação de impedimentos
ao investimento privado, tanto doméstico como estrangeiro». Os «55 mil milhões» alegados pelo The Observer montam, quando muito, a mil milhões distribuídos por 18 países. Isto será certamente diminuído para metade – providenciando menos de seis dias de pagamentos da dívida – porque Blair e Brown querem que o FMI pague a sua parte do “alívio” reavaliando o seu vasto stock de ouro, e o apaixonado e sincero Bush disse que não. A primeira coisa não mencionável é que o ouro foi pilhado originalmente de África. A segunda coisa não mencionável é que os pagamentos da dívida irão aumentar substancialmente a partir do próximo ano, mais do que duplicando até 2015. Isto significará não uma «vitória para milhões de pessoas», mas a morte para milhões de pessoas. No presente, por cada dólar de
“ajuda” a África, 3 dólares são retirados pelos bancos, instituições e
governos ocidentais, e isso não inclui o lucro repatriado pelas corporações
transnacionais. Considerem o Congo. Trinta e duas corporações, todas elas
sediadas em países do G8, dominam a exploração deste país profundamente
empobrecido, rico em minerais, onde milhões morreram na “causa” de 200 anos
de imperialismo. Na Costa do Marfim, três companhias do G8 controlam 95 por
cento do processamento e exportação de cacau: o principal recurso. Os lucros
da Unilever, uma companhia britânica há muito em África, são um terço
superiores ao PIB de Moçambique. Uma companhia americana, a Monsanto –
conhecida pela engenharia genética – controla 52 por cento das sementes de
milho da África do Sul, o principal género alimentar desse país. Blair não poderia dar dois traques pelo povo de África. Ian Taylor da Universidade de St Andrews utilizou a Lei de Liberdade de Informação para ficar a saber que enquanto Blair estava a declamar o seu desejo de “fazer da pobreza história”, estava a cortar secretamente os funcionários e pessoal de África do governo. Ao mesmo tempo, o seu “departamento para o desenvolvimento internacional” [DpDI; em inglês, DfID] estava a forçar, pela porta do cavalo, a privatização do abastecimento de água no Gana para benefício dos investidores britânicos. Este ministério vive pelo ditado da sua “Unidade para as Parcerias de Negócios”, que é devotada a encontrar «meios pelos quais o DpDI pode melhorar o ambiente propício para o investimento produtivo no estrangeiro... contribuir para a operacionalização do sector financeiro». Redução da pobreza? Claro que
não. Uma charada promove a moderna ideologia imperial conhecida como
neoliberalismo, contudo quase nunca é relatado dessa maneira e as conexões
raramente são feitas. No número do The Observer anunciando «vitória
para milhões de pessoas» foi um tema de notícia secundária que as vendas britânicas
de armas para África tinham passado de mil milhões de dólares. Um dos
clientes das armas britânicas é o Malaui, que gasta mais nos juros da sua dívida
do que em todo o seu orçamento de saúde, apesar do facto de 15 por cento da sua população ter SIDA. Gordon
Brown gosta de usar o Malaui como exemplo de porque é que «deveríamos fazer
da pobreza história», contudo o Malaui não receberá um tostão do alívio da
«vitória para milhões de pessoas». A charade é um presente para
Blair, que tentará tudo para persuadir o público a “ultrapassar” o terceira
coisa não mencionável: o seu papel no maior escândalo político da nossa era,
o seu crime no Iraque. Apesar de ser essencialmente um oportunista, como as
suas mentiras demonstram, apresenta‑se a si mesmo como um imperialista
kiplinguesco. A sua “visão para África” é tão paternalista e exploradora como
um palco cheio de estrelas pop brancas (com testemunhos negros agora
acrescentados). As suas referências messiânicas a «abanar o caleidoscópio»
das sociedades sobre as quais pouco entende e «ver as peças cair» traduziu‑se
por sete intervenções violentas no estrangeiro, mais do que qualquer primeiro
ministro britânico durante meio século. Bob Geldof, um irlandês da sua corte,
devidamente armado cavaleiro, nada disse acerca disto. Os protestantes que vão à cimeira do G8 em Gleneagles não devem deixar-se distrair por estes jogos. Se for necessária inspiração, juntamente com provas de que a acção directa pode resultar, deveriam olhar para os poderosos movimentos populares da América Latina contra a locura capitalista total (loucura capitalista total). Deveriam olhar para a Bolívia, o país mais pobre da América Latina, onde um movimento indígena pôs os amigos corporativos de Blair e Bush a fugir, e para a Venezuela, o único país do mundo onde os dividendos do petróleo foram desviados para o benefício da maioria, e para o Uruguai e a Argentina, o Equador e o Perú, e o grande movimento popular dos sem terra do Brazil. Por todo o continente, pessoas comuns estão a enfrentar a velha ordem patrocinada por Washington. «Que se vayan todos!» (Que se vão todos!) dizem as multidões nas ruas. Muita da propaganda que passa por notícias na nossa própria sociedade é dada para imobilizar e pacificar as pessoas e distraí‑las da ideia de que não podem enfrentar o poder. A actual tagarelice sobre a Europa, à qual nenhum jornalista dá sentido, é parte disto; contudo, os votos “não” franceses e holandeses são parte do mesmo movimento da América Latina, devolver a democracia à sua verdadeira casa: a do poder responsável perante as pessoas, não perante o “livre mercado” ou as políticas de guerra de insolentes desenfreados. E isto é apenas um começo. |