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Mundo

26/07/2005

 

Blair é inepto para ser primeiro-ministro

 

John Pilger

 

Os últimos ataques em Londres produziram uma estranha atmosfera política aqui; não consigo lembra­‑me de algo semelhante. Uma verdade está a lutar para ser ouvida. Está a ser dita de modo circunspecto, como desculpando­‑se. Ocasionalmente, um membro do público rompe o silêncio, como fez um leste­‑londrino quando passeava quase trivialmente frente a uma equipa da CNN. «Iraque!», disse. «Invadimos o Iraque e o que esperávamos? Vá lá, digam.»

 

O deputado escocês Alex Salmond tentou dizer isto na rádio da BBC. Foi-lhe dito que estava a falar «com mau gosto... antes mesmo de os corpos estarem enterrados». O deputado George Galloway, do partido Respect, foi admoestado pelo apresentador da televisão BBC de que estava a ser «grosseiro». O prefeito de Londres, Ken Livingstone, afirmou o diametralmente oposto do que tinha dito anteriormente, que foi que a invasão do Iraque reverteria sobre as nossas ruas. Com a excepção de Galloway, nenhum dos chamados deputados anti­‑guerra falou num inglês claro, inequívoco. Permitiu-se aos belicistas fixarem as fronteiras do debate público; um dos mais idiotas, no Guardian, classificou Blair como «o principal estadista do mundo».

 

E contudo, tal como o homem que interrompeu a CNN, as pessoas entendem e sabem porquê, assim como a maioria dos britânicos se opõe à guerra e acredita que Blair é um mentiroso. Isto assusta a elite política britânica. Numa grande festa dos media a que compareci, muitos dos importantes convidados pronunciavam “Iraque” e “Blair” como uma espécie de catarse por aquilo que não ousam dizer profissional e publicamente.

 

As bombas de 7 de Julho foram bombas de Blair. Blair trouxe para este país a, sua e de George W. Bush, aventura no Médio Oriente, ilegal, não provocada e embebida em sangue. Não fosse pela sua épica irresponsabilidade, os londrinos que morreram no Metro e no autocarro n.º 30 quase certamente estariam hoje vivos. Era isto que Livingstone deveria ter dito. Parafraseando talvez a única questão desafiadora colocada a Blair na véspera da invasão, está agora certamente para além de qualquer dúvida que o homem é inepto para ser primeiro-ministro.

 

Quanto mais provas são necessárias? Antes da invasão, Blair foi advertido pelo Joint Intelligence Committee de que «de longe a maior ameaça terrorista» a este país seria «acrescida pela acção militar contra o Iraque». Foi advertido por 79 por cento dos londrinos que, de acordo com um inquérito YouGov de Fevereiro de 2003, acreditavam que um ataque britânico ao Iraque «tornaria mais provável um ataque terrorista sobre Londres». Um mês atrás, um relatório classificado da CIA revelou que a invasão havia tornado o Iraque um ponto focal de terrorismo. Antes da invasão, disse a CIA, o Iraque «não exportava ameaça terrorista para os seus vizinhos» porque Saddam Hussein era «implacavelmente hostil à al-Qaeda».

 

Agora, um relatório de 18 de Julho da organização Chatham House, um “think-tank” com ligações profundas ao establishment britânico, pode bem significar o golpe de misericórdia para Blair. Diz que «não há dúvida» de que a invasão do Iraque «deu um impulso à rede al-Qaeda» em «propaganda, recrutamento e angariação de fundos» ao mesmo tempo que proporcionava um alvo ideal e uma área de treinamento para terroristas. «Cavalgar na garupa com um aliado poderoso» tem custado vidas iraquianas, americanas e britânicas. O académico de extrema direita Paul Wilkinson, uma voz do poder ocidental, foi o autor principal. Leia-se entre as linhas e diz que o primeiro-ministro é agora uma séria responsabilidade. Aqueles que dirigem este país sabem que ele cometeu um grande crime; a “ligação” foi feita.

 

A lenga-lenga do bunker de Blair é que havia terrorismo muito antes da invasão, nomeadamente o 11 de Setembro. Qualquer pessoa com um entendimento da penosa história do Médio Oriente não ficaria surpreendida pelo 11 de Setembro ou pelas bombas de Madrid e Londres, só pelo facto de elas não terem acontecido mais cedo. Cobri a região durante 35 anos e se pudesse descrever numa palavra como milhões de árabes e muçulmanos se sentiam, diria “humilhados”. Quando o Egipto pareceu recuperar o seu território capturado na guerra de 1973 com Israel, passeava entre multidões jubilosas no Cairo: sentia­‑se como se o peso das humilhações da história houvesse sido levantado. Numa alegoria muito egípcia, um homem disse para mim: «Outrora nós apanhávamos bolas de cricket no British Club. Agora somos livres».

 

Eles não eram livres, claro. Os americanos reabasteceram o exército israelita e eles quase perderam tudo outra vez. Na Palestina, a humilhação de um povo cativo é a política israelita. Quantos bebés palestinianos morreram em postos de controle israelitas depois de as suas mães, sangrando e chorando em trabalho de parto prematuros, terem sido forçadas a parir junto à estrada num posto de controle militar com as luzes de um hospital à distância? Quantos homens idosos foram forçados a mostrar obediência a jovens recrutas israelitas? Quantas famílias foram explodidas em pedaços por F-16 fornecidos pelos americanos e utilizando peças fornecidas pelos britânicos?

 

A gravidade das bombas de Londres, disse um comentarista da BBC, «pode ser medida pelo facto de que elas marcam os primeiros ataques suicidas na Grã-Bretanha». E quanto ao Iraque? Não havia bombistas suicidas no Iraque até que Blair e Bush o invadiram. E quanto à Palestina? Não havia bombistas suicidas na Palestina até que Ariel Sharon, um criminoso de guerra confirmado patrocinado por Bush e Blair, ter chegado ao poder. Na “guerra” do Golfo de 1991, as forças americanas e britânicas deixaram mais de 200.000 iraquianos mortos e feridos e a infra­‑estrutura do seu país «num estado apocalíptico», segundo as Nações Unidas. O embargo subsequente, concebido e promovido por fanáticos em Washington e Whitehall, não era diferente de um cerco medieval. Denis Halliday, o responsável das Nações Unidas designado para administrar a concessão alimentar de quase­‑fome, classificou—o como «genocida».

 

Testemunhei as suas consequências: regiões do sul do Iraque contaminadas com urânio empobrecido e mini­‑bombas de fragmentação à espera de explodirem. Vi crianças moribundas, algumas do meio milhão de crianças cujas mortes a UNICEF atribuiu ao embargo — mortes que a secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, considerou terem «valido a pena». No ocidente, isto quase não foi relatado. Por todo o mundo muçulmano, a amargura era uma presença viva, o seu contágio atingindo muitos jovens muçulmanos nascidos britânicos.

 

Em 2001, em vingança pela morte de 3.000 pessoas nas torres gémeas, mais de 20.000 muçulmanos morreram na invasão anglo-americana do Afeganistão. Isto foi revelado por Jonathan Steele no Guardian londrino e nunca foi notícia, que eu saiba. O ataque ao Iraque foi o Rubicão, tornando a represália contra Madrid e as bombas de Londres inteiramente previsíveis: as últimas «em resposta aos massacres perpetrados pelos britânicos no Iraque e no Afeganistão...», alegou um grupo chamado a Organização para a al-Qaeda na Europa. Quer a alegação tenha sido ou não genuína, a razão foi. Bush e Blair queriam uma “guerra ao terror” e obtiveram­‑na.

 

Omitido da discussão pública é que o seu terror de Estado faz a al-Qaeda parecer minúscula em comparação. Mais de 100.000 homens, mulheres e crianças iraquianos foram mortos, não por bombistas suicidas, mas pela “coligação” anglo-americana, afirma um estudo revisto por pares publicado na Lancet, e amplamente ignorado.

 

No seu poema “Do Iraque”, Michael Rosen escreveu:

 

Somos os não encontrados

Somos não contados

Não vemos os lares que fizemos

Não somos nem mesmo as letras pequenas ou a parte entre parênteses...

porque vivemos longe de si,

porque você tem câmaras que apontam para o outro lado...

 

Imagine, por um momento, que está na cidade iraquiana de Faluja. É um estado policial americano, como um vasto gueto encurralado. Desde Abril do ano passado, os hospitais ali têm sido sujeitos a uma política americana de punição colectiva. Equipas foram atacas por US marines, médicos foram alvejados, remédios de emergência bloqueados. Crianças foram assassinadas em frente às suas famílias.

 

Agora imagine o mesmo estado de coisas imposto aos hospitais de Londres que receberam as vítimas das bombas. Quando alguém fará este paralelo numa das encenadas “conferências de imprensa” de Blair, nas quais se lhe permite que se emocione para as câmaras acerca dos «nossos valores [que] sobreviverão aos deles»? Silêncio não é jornalismo. Em Faluja, eles conhecem os “nossos valores” demasiado bem. E quando alguém convidará o obsequioso Bob Geldoff a explicar porque é que o mistificador “cancelamento da dívida” do seu herói Blair monta a menos do que o dinheiro que o governo de Blair gasta numa semana a brutalizar o Iraque?

 

A distorção acerca do “caminho da alma do Islão” é outra distracção. A Cristandade ultrapassa o Islão pela morte como um assassino industrial. A causa do terrorismo actual não é nem a religião nem o ódio pelo “nosso modo de vida”. É política, requerendo uma solução política. É a injustiça e os duplos padrões, os quais plantam o mais profundo descontentamento. Isso, e a culpabilidade dos nossos líderes, e as «câmaras que apontam para o outro lado", constituem o núcleo disto.

 

Em 19 de Julho, enquanto os governadores da BBC celebravam a sua reunião geral anual no Television Centre, um inspirado grupo de produtores britânicos de documentários encontrou-se do lado de fora dos portões principais e conduziu uma série de novas reportagens da espécie que você não vê na televisão. Actores representaram famosos repórteres a fazerem as suas “peças para a câmara”. As “histórias” que relataram incluíram o alvejar da população civil do Iraque, a aplicação dos Princípios de Nuremberga ao Iraque, a reescrita ilegal das leis do Iraque pelos EUA e o roubo dos seus recursos através da privatização, a tortura diária e a humilhação de pessoas comuns e o fracasso na protecção da herança arqueológica e cultural dos iraquianos.

 

Blair está a utilizar as bombas de Londres para esvaziar ainda mais os nossos direitos e os dos outros, tal como Bush fez nos EUA. O seu objectivo não é a segurança, mas maior controle. A memória das suas vítimas no Iraque, no Afeganistão, na Palestina e noutros lados exige a renovação da nossa ira. As tropas devem voltar para casa. Nada menos é devido àqueles que morreram e sofreram em Londres no dia 7 de Julho, desnecessariamente, e nada menos é devido àqueles cujas vidas estão marcadas se esta farsa perdurar.