Informação Alternativa

Mundo

11/07/2005

 

Para que não esqueçamos: Estas foram “bombas de Blair”

 

John Pilger

 

Em toda a cobertura dos atentados de Londres na semana passada, uma verdade básica lutou por ser ouvida. Tem sido dita em conversa baixa, educadamente, cautelosamente, como se pudesse de algum modo desonrar os mortos, em vez de contribuir para a verdade. Embora não duvidando da atroz desumanidade daqueles que colocaram as bombas (como se alguém pudesse fazê­‑lo), ninguém deveria duvidar de que estas são “bombas de Blair”; e não lhe deveria ser permitido evadir-se da sua culpabilidade com mais um untuoso discurso sobre «o nosso modo de vida». Os bombistas atacaram porque ele e Bush atacaram o Iraque, tendo sido avisados pelo Comité Conjunto de Informação de que «de longe a maior ameaça terrorista» a este país seria «aumentada pela acção militar contra o Iraque».

 

Na verdade, esta foi a única advertência confiável dos serviços de informação britânicos nos preparativos para a invasão do Iraque. Um comité da Câmara dos Comuns verificou desde então esta advertência. Tivesse Blair prestado atenção ao invés de conspirar para enganar a nação afirmando que o Iraque apresentava uma ameaça, os londrinos que morreram na quinta-feira poderiam hoje estar vivos, assim como dezenas de milhares de iraquianos inocentes.

 

Há três semanas atrás, um relatório classificado da CIA revelou que a invasão anglo-americana do Iraque havia transformado aquele país num ponto focal de terrorismo. Nenhuma das agências de informação encarava o Iraque como um tal ponto focal antes da invasão, por muito tirânico que fosse o regime. Pelo contrário, em 2003, a CIA relatou que o Iraque «não exportava ameaça terrorista para os seus vizinhos» e que Saddam Hussein era «implacavelmente hostil à Al-Qaeda».

 

A invasão de Blair e Bush alterou tudo isto. Ao invadir um país batido e indefeso no coração do mundo islâmico e árabe, a sua aventura tornou-se auto realizável. A negação disso por aqueles que apoiaram a invasão insulta a memória de todos aqueles que morreram como resultado. A irresponsabilidade épica de Blair trouxe os horrores diários da casa iraquiana para a Grã-Bretanha e ele não é – para parafrasear uma das poucas questões desafiadoras que lhe foram colocadas antes da invasão (por John Humphries) – adequado para ser primeiro­‑ministro.

 

Durante mais de um ano ele instou os britânicos a “ultrapassarem” a questão do Iraque, e na semana passada parecia que os seus mestres da manipulação e a boa fortuna haviam juntado as mãos. O prémio para Londres das Olimpíadas de 2012 criou a ilusão passageira de que tudo estava bem, apesar dos sujos eventos num distante país. Além disso, a reunião do G8 na Escócia e a campanha “Fazer da pobreza história” que a acompanhou e o circo de celebridades serviram como uma cobertura temporária para o que é o maior escândalo político dos tempos modernos: uma invasão ilegal concebida em mentiras que, sob o sistema do direito internacional estabelecido em Nuremberga, representou um “supremo crime de guerra”.

 

Ao longo das últimas duas semanas, o contraste entre a cobertura do G8, as suas marchas e concertos pop, e um outro evento “global” foi impressionante. O Tribunal Mundial do Iraque, em Istambul, não teve praticamente nenhuma cobertura, ainda que a evidência que produziu, a mais terrífica até à data, tenha sido o espectro silencioso nas extravagancias de Geldoff.

 

O tribunal é uma séria investigação pública internacional acerca da invasão e da ocupação, da espécie que os governos não ousam efectuar. Os seus peritos, testemunhas oculares, disse a escritora Arundathi Roy, um dos membros do júri, «demonstram que mesmo aqueles de nós que têm tentado acompanhar a guerra de perto não estão conscientes de uma parte dos horrores que foram desencadeados no Iraque». O depoimento mais chocante foi prestado por Dahr Jamail, um dos melhores repórteres não incorporados que trabalham no Iraque. Ele descreveu como os hospitais da Faluja assediada foram sujeitos a uma táctica americana de punição colectiva, com marines dos EUA a assaltarem equipas do hospital e a impedirem os feridos de entrarem, e snipers [atiradores de elite] americanos a dispararem para as portas e janelas, e remédios e sangue de emergência impedidos de os alcançarem. Crianças, idosos, foram abatidos em frente às suas famílias, a sangue frio.

 

Imagine por um momento o mesmo aterrador estado de coisas imposto aos hospitais londrinos que receberam as vítimas dos atentados de quinta-feira. Inimaginável? Bem, acontece, em nosso nome, independentemente da supressão de Faluja e de outras atrocidades pela BBC. Quando é que alguém fará este paralelo numa das “conferências de imprensa” encenadas nas quais Blair se permite comover perante as câmaras sobre «os nossos valores [que] sobreviverão aos deles»? O silêncio não é jornalismo. Em Faluja, eles conhecem «os nossos valores» demasiado bem.

 

Enquanto os dois homens responsáveis pela carnificina no Iraque, Bush e Blair, estavam lado a lado em Gleneagles, por que não foi feita a conexão entre a sua fraudulenta “guerra ao terror” com o atentado em Londres? Quando é que alguém na classe política dirá que os fumos-e-espelhos de Blair quanto ao “cancelamento da dívida” na melhor das hipóteses equivale a menos do que o dinheiro que o governo gastou em uma semana a brutalizar o Iraque, onde a violência britânica e norte­‑americana é a causa da duplicação da pobreza infantil e da desnutrição desde que Saddam Hussein foi derrubado (UNICEF)?

 

A verdade é que o alívio da dívida que o G8 está a oferecer é letal. As suas “condicionalidades” brutais de economias cativas ultrapassam quaisquer ténues benefícios. Isto foi tabu durante a semana do G8, cujo tema não foi tanto fazer da pobreza história, mas silenciar e pacificar e cooptar a dissidência e a verdade. As ridículas imagens sobre écrans gigantes atrás de estrelas pop no Hyde Park não incluíam fotos dos médicos iraquianos assassinados com o sangue a jorrar das suas cabeças, cortadas pelos snipers de Bush.

 

A vida real tornou-se mais satírica do que a sátira poderia alguma vez ser. Ali estava Bob Geldoff nas primeiras páginas ostentando a sua cara sorridente sobre o ombro do sorridente Blair, o criminoso de guerra e o seu bobo de serviço. Ali estava um heroicamente esboçado Bono, que celebra homens como Jeffrey Sachs como salvadores dos pobres do mundo enquanto louvam a “compassiva” “guerra ao terror” de George Bush como um dos maiores feitos da sua geração; e ali estava Paul Wolfowitz, irradiante e prometendo fazer da pobreza história: este é o homem que, antes de ser guindado ao controle do Banco Mundial, era um apologista do regime genocida de Suharto na Indonésia, que foi um dos arquitectos do golpe “neo-con” de Bush e do banho de sangue no Iraque e da noção de “guerra sem fim”. Para os políticos, estrelas pop, líderes da igreja e pessoas educadas que acreditaram em Blair e Gordon Brown quando eles declararam a sua “grande cruzada moral” contra a pobreza, o Iraque era um embaraço. A morte de mais de 100.000 iraquianos devido principalmente ao tiroteio e bombas americanas — um número relatado num estudo abrangente e examinado por pares antes da publicação em The Lancet — foi eclipsado do debate dos media dominantes.

 

Números não divulgados de entes queridos estão desaparecidos no Iraque por causa do horror que Bush e Blair infligiram nessa sociedade. Mas onde colocam as famílias as suas fotografias, como os afligidos fazem em Londres? Se perguntam nas bases norte­‑americanas, correm o risco de eles próprios desaparecerem. Nas nossas sociedades com liberdade de expressão, o imencionável é que «o estado perdeu o juízo e está a punir demasiadas pessoas inocentes», como escreveu outrora Arthur Miller, «e assim a evidência tem de ser negada internamente». Não só negada, como tergiversada por toda uma corte: Geldoff, Bono, Madonna, McCartney e outros, cujo “Live 8” foi a antítese total do 15 de Fevereiro de 2003 quando dois milhões de pessoas trouxeram os seus corações e cérebros e mostraram a sua ira nas ruas de Londres. Blair quase certamente utilizará a atrocidade e a tragédia da semana passada para esvaziar ainda mais os direitos humanos básicos na Grã­‑Bretanha, tal como Bush o fez nos Estados Unidos. O objectivo não é a segurança, mas maior controle. Acima de tudo isto, a memória das suas vítimas, das “nossas” vítimas, no Iraque exige o retorno da nossa ira. E nada menos é devido àqueles que morreram e sofreram em Londres na semana passada, desnecessariamente.