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26/05/2005 Cambodja: uma vítima da “ajuda” John Pilger; retirado de resistir.info Visto do ar, parecia não
estar ninguém ali, nenhum movimento, nem mesmo um animal, como se a imensa
população asiática houvesse parado no rio Mekong. Mesmo a colcha de retalhos
dos campos de arroz era quase indiscernível; nada parecia ter sido plantado
ou estar a crescer, excepto a floresta e linhas de altas ervas selvagens. À
beira de aldeias desertas, muitas vezes seguindo um padrão de crateras de
bombas, a erva seguia linhas rectas; fertilizada por composto humano, pelos
remanescentes de milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, marcava
sepulturas comuns num país em que até dois milhões de pessoas, ou seja, entre
um terço e um quarto da população, estavam “faltando”. Este foi o Cambodja que
encontrei há 26 anos atrás, no rastro do Khmer Rouge, cujo domínio assassino
foi seguido por um inferno de bombas americanas. Pouco tempo depois, Jim
Howard, engenheiro sénior e bombeiro da entidade de beneficência britânica
Oxfam, chegou e enviou o seu primeiro telegrama: «Cinquenta a oitenta por
cento de destruição material e humana é a realidade terrível. Cem toneladas
de leite por semana necessárias, por ar e mar, durante os próximos dois meses
a começar já, repito, já». Então começou uma das mais
arrojadas operações de ajuda do século XX, a qual ultrapassou um embargo
americano e britânico destinado a punir o libertador do Cambodja, o Vietname.
Através da fina engenhosidade e visão política das suas acções e campanhas
internas, a Oxfam salvou e recuperou incontáveis pessoas. Posteriormente, ao
exigir que o ocidente parasse de apoiar o Khmer Rouge no exílio, a Oxfam
incorreu na hostilidade dos governos Thatcher e Reagan e foi ameaçada com a
perda do seu estatuto de entidade caritativa isenta de impostos. Isto era
claramente destinado a servir de advertência às organizações de ajuda
independentes, ou “ONGs”, para que não se tornassem demasiado “radicais”.
Muitas desde então abraçaram uma versão do corporativismo e uma aproximação
ao governo britânico, cujas políticas comerciais neoliberais continuam a ser
uma fonte de muita da pobreza do mundo. Em 27 de Maio, a organização
de vigilância ActionAid publicou um extraordinário relatório de condenação,
Real Aid : uma agenda para fazer a ajuda funcionar. Com a reunião do G8 em
Gleneagles, na Escócia, em Julho, e o governo Blair (e outros governos
europeus) a propagarem o disparate de que está ao lado dos pobres, o
relatório revela que o governo está a inflar em um terço o valor da sua ajuda
que já é mínima aos países pobres. E acrescenta que a maior parte de toda a
ajuda ocidental é realmente “ajuda fantasma”, o que significa que nada tem a
ver com a redução da pobreza. O estudo da ActionAid descreve
um regabofe de “assistência técnica” e “consultorias” com preços exagerados,
de carreirismo e contabilização deficiente. Os britânicos frequentemente
exageram os seus números da ajuda (com a inclusão de reduções na dívida); e
os EUA atam a sua ajuda ao comércio e ideologia e aos seus “interesses”. A
ajuda real, de facto, representa apenas 0,1 por cento do rendimento nacional
combinado dos países ricos. Comparado com o “objectivo” mínimo das Nações
Unidas de 0,7 por cento, isto mal chega a umas migalhas. O Cambodja é um exemplo
excelente. Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, nunca foi
permitido ao Cambodja que recuperasse do trauma infligido por Richard Nixon,
Henry Kissinger e Pol Pot. Durante a década de 1980, depois de Pol Pot ser
expulso pelos vietnamitas, um embargo americano e britânico tornaram a
reconstrução quase impossível. Ao invés disso, foi inventada uma “resistência”
pelos americanos, com a SAS britânica contratada para treinar os Khmer Rouge
em campos secretos na Tailândia e na Malásia. Em 1990, quando as Nações
Unidas finalmente chegaram ao Cambodja para organizar a “democracia”, isto
trouxe corrupção numa escala sem precedentes, bem como SIDA e “ajuda”. Isto
foi deturpado como um “triunfo” da “comunidade internacional”. O Cambodja é hoje uma vítima
desta “ajuda”. Tal como em África, os “doadores” (o ocidente e o Japão)
perpetuaram os mitos de um “caso perdido”: que os cambodjanos não podem fazer
nada por si próprios e que ajuda genuína ao desenvolvimento e capitalismo predador
são compatíveis. Não há símbolo mais adequado para o Cambodja do que as
florescentes oficinas de exploração (sweatshops) que fabricam bens por
uma fracção do seu preço de retalho no ocidente, fazendo vista grossa a
lugares onde crianças brincam junto a esgotos a céu aberto transmissores de
malária. Evidentemente, ajuda
falsificada ou “fantasma” e capitalismo rapinante são compatíveis. O relatório
da ActionAid menciona citações de Brad Adams da Human Rights Watch: «Na década
de 1980, havia ali uma T‑shirt popular que satirizava os anúncios de
recrutamento do Exército dos EUA com o slogan, “Aliste‑se no exército.
Viaje para terras exóticas e distantes. Encontre pessoas estimulantes e
inabituais. E mate-as”. Neste novo milénio, isto podia ser reformulado: “Aliste-se
na comunidade de ajuda. Viaje para terras exóticas e distantes. Encontre
pessoas estimulantes e inabituais. E ganhe uma fortuna”». Cerca da metade de toda a
ajuda ao Cambodja é gasta em “assistência técnica”, ou AT. Entre 1999 e 2003
esta montou a 1,2 mil milhões de dólares. O que é AT? É uma invasão de “conselheiros
internacionais” com os quais foram gastos mais de 70 milhões de dólares só em
2003. Some-os aos “consultores internacionais”, cada um dos quais custa mais
de 159 mil dólares. Em contraste, o custo de um trabalhador genuíno em ajuda
externa numa ONG verdadeiramente independente é menos de 45 mil dólares, e o
custo de recrutar um perito cambodjano é um oitavo disto. Mais de 740 conselheiros e
peritos estrangeiros ganham aproximadamente tanto quanto 160 mil funcionários
civis cambodjanos, os quais recebem tão pouco como 25 dólares por mês. Em
muitos ministérios, o pagamento de conselheiros estrangeiros excede todo o
orçamento anual. É mais do que o dobro do orçamento do Ministério da
Agricultura e quatro vezes aquele do Ministério da Justiça. Os trabalhadores estrangeiros
da ajuda queixam-se constantemente acerca da corrupção local, muitas vezes
com razão. Mas eles raramente identificam e medem a sua própria corrupção
legitimizada. «Não tem havido qualquer análise sistemática da efectividade da
AT no Cambodja», afirma a ActionAid. «Responsáveis do governo do Cambodja
sugeriram que isto é porque os doadores não querem reconhecer a ineficácia da
sua ajuda». O Conselho para o Desenvolvimento do Cambodja diz que os
estrangeiros criam sistemas paralelos ao governo. Eles não transferem
capacidade. Os peritos apenas fazem relatórios que ninguém lê... os doadores
queixam-se sempre acerca da falta de recursos humanos [mas] os cambodjanos
são seres humanos...» O relatório cita um esquema
para proteger aldeões de inundações no qual está envolvido o Departamento de
Desenvolvimento Internacional britânico. Apesar de ser promovido como “baseado
na comunidade”, três quartos do orçamento estão a ser gastos com consultores
estrangeiros, gabinetes e administração. O Cambodja tem três planos
económicos nacionais distintos, cada um deles concebido por uma agência
estrangeira diferente. Um dos maiores doadores é a agência USAID do governo
americano, notória pelas suas sangrentas intervenções políticas por todo o
mundo. A USAID financia grupos cambodjanos de oposição, “conselheiros de
direitos humanos” e jornais que estão alinhados à ideia de Bush de “boa
governação”. Mesmo a ajuda humanitária mais básica está ligada aos negócios
americanos. Os sais de re‑hidratação oral, por exemplo, que nos
trópicos são essenciais, devem ser comprados nos Estados Unidos a um preço
cinco vezes maior do que o do mesmo produto fabricado no Cambodja. Há pessoas boas nas ONGs
estrangeiras no Cambodja, e há um certo número de esquema efectivos. Mas “parceria”
com pessoas locais é uma palavra de que tanto os governos como as agências de
ajuda abusam. Os cambodjanos obtêm o que lhes é dado, tal como “empréstimos”
do Banco Mundial e do FMI com a espécie de condições ultrajantes que
prejudicaram países como a Zâmbia. Mais de 600 mil cambodjanos
foram mortos por bombas americanas na década de 1970. Como admitiu
posteriormente a CIA, a devastação proporcionou um catalisador para o horror
do Khmer Rouge. Milhares de mortes de crianças foram provocadas
posteriormente por um bloqueio económico apoiado pelo governo britânico. Vejo que Tony Blair, assim como locutores e outras celebridades, têm estado a usar a faixa da moda “Tornar a pobreza história”. É perverso. Tal como aqueles países na África, na Ásia e na América Latina há muito pilhados em nome dos “interesses” ocidentais, o Cambodja tem direito a reparações incondicionais a fim de poder atender às necessidades urgentes do seu povo, não às exigências daqueles que dizem ajudar. |