|
Informação Alternativa |
|
Ásia |
|
14/04/2005 A queda de Saigão 1975: o
relato de uma testemunha * Saigão, Abril de 1975. Ao alvorecer eu estava acordado, estendido sob o meu colchão nos ladrilhos do chão, fitando a minha cama apoiada contra a janela de estilo francês. A cama devia servir para me proteger de estilhaços de vidro; mas se o hotel fosse atacado com foguetes, a cama seguramente cairia sobre mim. Morto pela queda de uma cama: isso de algum modo fazia sentido nisto, o último acto da mais longa e sinistra farsa: uma guerra que sempre foi desnecessária, frequentemente atroz e que tinha posto termo às vidas de três milhões de pessoas, deixando petrificada a sua terra outrora generosa. A campanha há muita esperada, dos legatários de Ho Chi Minh, para reunificar o Vietname tinha começado por fim, mais de 20 anos depois da divisão “temporária” imposta em Genebra. No dia de ano novo de 1975, o Exército Popular do Vietname (PAVN [nas siglas em inglês]) circundou a capital da província de Phuoc Binh, a 75 milhas de Saigão; uma semana mais tarde, a cidade era deles. Quang Tri, a sul da zona desmilitarizada, e Phan Rang seguiram‑se, e depois Bat Me Thout, Hue, Danang e Qui Nhnon em sucessão rápida e com pouco derramar de sangue. Danang, em tempos a maior base militar do mundo, foi tomada por uma dúzias de quadros da Frente de Libertação do Vietname (a NLF, conhecido como o Vietcong pelos americanos) acenando lenços brancos da traseira de um camião. Um fotografia da United Press de um americano socando um “aliado” sul vietnamita em cheio na cara enquanto o vietnamita tentava subir a bordo do último voo americano de Nha Trang para Saigão detinha um certo simbolismo do que tinha acontecido antes. Em meados de Abril, o fim estava à vista à medida que a batalha por Xuan Loc se desenrolava 30 milhas a noroeste de Saigão, a qual estava já ela própria cercada por tantas como 15 divisões do PAVN armadas com artilharia e mísseis térmicos. Em 20 de Abril, Xuan Loc foi capturada pelo PAVN. Só Saigão restava. Entre as fileiras de refugiados que fugiam do combate estavam soldados amargados do exército do regime de Saigão apoiado pelos EUA, cujo presidente e comandante‑em‑chefe, o general Thieu, tinha reconhecido a sua derrota ao voar para Taiwan com uma fortuna em ouro. Em 27 de Abril, o general Duong Van (“Grande”) Minh foi eleito presidente pela Assembleia Nacional, com instruções para encontrar um caminho para a paz. Tinha sido o “Grande” Minh quem, em 1963, tinha ajudado a derrubar o ditador Ngo Dinh Diem e tinha procurado, com os seus colegas oficiais, negociar um acordo de paz com o NLF. Quando os americanos souberam disto despacharam Minh do cargo, e a guerra prosseguiu. Eram agora oito horas; apressei‑me para a Praça Som Lam para beber um café urgentemente necessário. Saigão tinha estado sob ataque de foguetes por duas noites. Um foguete tinha cortado uma banda através de meio acre de casas minúsculas e empacotadas muito juntas em Cholom, o bairro chinês, e a tempestade de fogo que se seguiu tinha arrasado tudo. Havia pessoas que se mantinham de pé imóveis, como num retrato, olhando para o ferro contorcido que era tudo o que restava das suas casas. Havia poucos repórteres; os mísseis de ontem eram notícia, os primeiros a cair sobre Saigão em uma década; os foguetes de hoje não eram. Um fotógrafo francês cambaleava por entre o metal fundido, soluçando; puxou o meu braço e conduziu-me a uma pira que tinha sido uma cozinha. Perto havia uma criança, de aproximadamente cinco anos, que ainda vivia. A pele do seu peito estava aberta como uma página; os seus braços estavam estraçalhados e as suas mãos estavam petrificadas à sua frente, uma voltada para baixo, outra voltada para cima. A sua face ainda era reconhecível: tinha bochechas rechonchudas e olhos castanhos, embora a sua boca estivesse queimada e os lábios tivessem desaparecido completamente. Um polícia mantinha a mãe longe dela. Um escuteiro, com uma braçadeira da cruz vermelha, remexeu o metal, arfou e tapou a sua própria cara. O fotógrafo francês e eu ajoelhamo-nos ao lado dela e tentamos levantar‑lhe a cabeça, mas o cabelo dela estava preso ao ferro por argamassa transformada em cera pelo calor. Esperámos meia hora, aprisionados neste incubo, mesmerizados por um pequeno rosto, tentando dar‑lhe água, até um maqueiro chegar. A seguir aos ataques, o embaixador americano, Graham Martin, apareceu na televisão de Saigão e prometeu que os Estados Unidos não sairiam do Vietname. Disse: «Eu, o embaixador americano, não vou fugir a meio da noite. Qualquer um de vocês pode vir a minha casa e verificar por si próprio que não fiz as minhas malas. Dou‑lhes a minha palavra». Último pró‑cônsul americano do continente asiático, Martin era um homem irascível e de vontade forte em privado. Também estava muito doente; a sua pele estava escavada e coberta de pontos cinzentos de longos meses de pneumonia; os seus discursos eram pesados e frequentemente embaciados pelos remédios que tomava. Fumava continuamente, e as conversas com ele seriam interrompidas por extensos ataques de tosse. Descrever Graham Martin como um falcão seria atribuir a essa ave qualidades de ferocidade que não tem. Durante semanas tinha dito a Washington que o Vietname do Sul poderia sobreviver com um “anel de ferro” em redor de Saigão suprido por B-52s voando em estafeta. Mas Martin não podia ignorar completamente o que via; ele sabia que era sua tarefa, e sua tarefa somente, presidir ao fim de um império que em tempos reclamara dois terços da Indochina, pelo qual o seu próprio filho tinha morrido, nove anos antes. Na embaixada americana, uma árvore, um dos muitos tamarindos imponentes plantados pelos franceses um século antes, dominava o relvado e o jardim fora da casa principal. O outro único espaço suficientemente grande para um helicóptero aterrar tinha a piscina no meio dele, e o heliporto no telhado da embaixada fora concebido apenas para os pequenos helicópteros Huey. Se uma evacuação de helicóptero fosse requerida, apenas os helicópteros Chinook e Jolly Green Giant dos marines seriam capazes de trasladar grandes quantidades de pessoas para a Sétima Frota, 30 milhas ao largo, no decurso de um dia. A árvore era o último bastião de Graham Martin. Tinha dito ao seu pessoal que assim que a árvore caísse, o prestígio dos Estados Unidos cairia com ela, e ele não queria ter nada a ver com isso. Tom Polgar era a cabeça da estação da CIA. Ao contrário de muitos dos seus predecessores, estava inusitadamente bem informado e desesperava manifestamente com a teimosia do embaixador. Quando Thieu se fechou no bunker abaixo do palácio presidencial por três dias e meio, recusando demitir‑se ou mesmo atender chamadas telefónicas, foi Polgar, juntamente com o embaixador francês, Jean‑Marie Merrillon, quem finalmente persuadiu Graham Martin que devia intervir. Para Martin, a queda do presidente Thieu tinha‑se tornado como o corte da árvore da embaixada: uma questão de orgulho e de “face”, para ele e para a América. O governo dos Estados Unidos tinha‑se solenemente comprometido com Thieu e o Estado do sul que tinha inventado; disse frequentemente que o seu próprio filho tinha morrido para que o “Vietname do Sul” de Thieu pudesse permanecer “livre”. Em 28 de Abril, a NLF ergueu uma bandeira na ponte de Newport, a três milhas do centro da cidade. A monção tinha chegado cedo e Saigon encontrava‑se sob um céu de nuvens cinzentas; além do aeroporto arcos longos e arqueados de relâmpagos e trovões chegavam em pequenas salvas enquanto o presidente Minh se preparava para se dirigir ao que restava da sua “república”. Permaneceu ao fundo do grande salão no palácio presidencial, cheio de candelabros e de brocados de ouro, e falou com hesitação, como se mesmo estivesse a fazer uma oração sem esperança. Falou sobre «os nossos soldados que lutam com vigor» e apenas, pareceu, como um pensamento secundário apelou a um cessar‑fogo e a negociações. Quando acabou de falar, uma sucessão de aplausos cobriu as suas últimas palavras; a guerra estava a terminar com um sentido fino de teatro. Caminhei rapidamente ao longo de Tu Do, a principal rua da cidade, enquanto os relâmpagos se encaminhavam para o centro da cidade. Meia dúzia de lojas tinham fechado desde o dia anterior, tendo os seus donos saído para a pista de bowling e ginásio em Dodge City, o nome de código para o velho centro de comando norte‑americano no aeroporto de Tan Son Nhut, onde pagaram uma consideravelmente por um lugar na fila de espera. O alfaiate indiano do n.º 24 de Tu Do, “Austin’s Fine Clothes”, estava a contar demoradamente os seus dólares e a amaldiçoar o seu rádio por não conseguir apanhar as notícias da BBC World Service. Conhecia o alfaiate da Austin’s há muito tempo, e a nossa relação tinha sido sempre de murmúrios e piadas furtivas, envolvendo a passagem de uma nota verde, que era manuseada com os dedos, dobrada, examinada e posta contra a luz, e a recepção de um saco cheio com as melhores piastras vietnamitas britânicas (a maior exportação da Grã‑Bretanha para o Sul do Vietname eram notas de banco). O trovão pulverizava a cidade enquanto o alfaiate contava o seu dinheiro; tinha pelo menos 5.000 dólares na gaveta, os ganhos do dia e da véspera, e o seu passaporte indiano projectava‑se do bolso da sua camisa. «Os comunistas respeitam os passaportes», disse, dando palmadinhas no seu sem saber o que eles respeitavam. Disse que Saigão não cairia pelo menos durante um mês, o que provocou o riso do seu assistente vietnamita, que zumbia na sua máquina de costura por trás da cortina. O trovão tinha um novo som, seco e metálico. Era fogo de armas. A cidade parecia estar a explodir com armas de todo o tipo: armas pequenas, mosteiros, baterias antiaéreas. «Acho que estamos a ser bombardeados», disse o alfaiate, que interrompeu a sua contagem apenas para aumentar o volume do seu rádio, que estava sintonizado para a árida hora de ouro das velhas canções, da Voz da América. Durante a meia hora seguinte a própria loja parecia ser um alvo e eu assegurei‑me que havia duas paredes entre mim e a rua. O alfaiate, contudo, permanecia no seu posto e contava os seus dólares enquanto a Voz da América tocava Cherry Pink and Apple Blossom White, que mal se ouvia acima do tiroteio. Era uma canção profundamente tonta, mas cantei‑a juntamente com o alfaiate, e provavelmente nunca esquecerei as palavras. Num canto afastado, como um pássaro ferido, uma mulher vietnamita idosa agarrava-se à parede, chorando e rezando. Um pau de incenso e uma caixa de fósforos jaziam no chão à sua frente; não conseguia esfregar os fósforos porque todo o seu corpo tremia de medo. Depois de várias tentativas fui capaz de acendê‑lo para ela, só então percebendo a intensidade do meu próprio medo. O barulho forte, incluído o trovejar, parou, e havia então apenas um crepitar de pequenas armas de fogo. «Graças aos senhores que nos bombardearam», disse o alfaiate, «o preço acaba de subir mil piastras». Abriu as persianas de aço, olhou para fora e disse: «Ok, corra!» Parecia que toda Saigão corria, em espasmos de pânico controlado, silencioso. As minhas próprias pernas derretiam, mas andaram como nunca tinham andado antes, e ganharam nova vida com a irrupção de disparos à saída do café Bo Da. Um polícia militar, apoiado em ambos os joelhos, varria o outro lado da rua, levando as pessoas a deitar-se ou cair; ninguém gritava. Uma empregada de bar do Hotel Miramar, usando saltos altos, colidiu com a caleira, ferindo gravemente as suas pernas e face. Ficou deitada quieta, segurando a bolsa sobre a nuca. Na esquina afastada, oposta ao Hotel Caravelle e à saída de uma galeria especializada em horríveis pinturas juvenis instantâneas, um polícia pulverizada o céu com a sua espingarda M-16. Havia um homem deitado ao seu lado, com a bicicleta afivelada em torno de si. Saigão estava agora a “cair” perante os nossos olhos: a Saigão engordada e alimentada intravenosamente pelos Estados Unidos, então declarada um caso terminal; capital da única sociedade consumista do mundo que nada produzia; quartel‑general do quarto maior exército do mundo, o ARVN, cujos soldados estavam agora a desertar ao ritmo de mil por dia; e centro de um império que, ao contrário do império prévio dos franceses que vieram para pilhar, nada esperava dos seus súbditos, nem borracha nem arroz nem tesouros (não havia petróleo), apenas aceitação dos seus “interesses estratégicos” e gratidão pelas suas manifestações asiáticas: Coca‑Cola e Napalm. À uma da manhã, Graham Martin convocou uma reunião dos funcionários superiores da embaixada para anunciar que tinha falado com Henry Kissinger, que lhe tinha dito que o embaixador sovético em Washington, Anatoly Dobrynin, tinha prometida passar a sua (de Kissinger) mensagem a Hanoi pedindo um acordo negociado com o governo do presidente Minh. Martin disse que Kissinger esperava que os russos poderiam organizar isto. Disse que queria que a evacuação por avião de asa fixa continuasse tanto tempo quanto possível, talvez por 24 horas. Pouco passava das quatro horas da manhã quando montes de foguetes caíram sobre o aeroporto Tan Son Nhut, seguidos por uma barragem de artilharia pesada. A espera tinha terminado; a batlha por Saigão tinha começado. O sol ergueu-se como um fundo vermelho esbatido para os rastros dos projécteis. Um helicóptero armado explodiu e caiu lentamente, com as suas luzes ainda piscando. A leste, nos subúrbios, havia fogo de morteiro, o que significava que a NLF estava na própria Saigão, movendo‑se em linha quase recta para a embaixada. Um encontro às seis da manhã entre Martin e os seus funcionários superiores foi, disse um dos participantes, «um desastre». Todos, excepto Martin, concordavam que deviam começar a evacuação imediatamente. Martin disse não, não «fugiria», e anunciou para horror geral que guiaria o carro ele próprio para Tan Son Nhut a fim avaliar a situação pessoalmente. Havia pouco mais do que uma suspeita entre o pessoal da embaixada de que o último procônsul do império poderia, poderia só, ter planos para incendiar Roma. Quando a reunião terminou em confusão, Polgar ordenou que o grande tamarindo fosse abatido. Os cortadores de árvores reuniram‑se, como homens da Marlboro um pouco gordos. Estes eram os homens que fariam cair o grande tamarindo; um grupo considerável de funcionários da CIA, antigos homens das forças especiais (os boinas verdes) e uma variedade de antigos soldados fornecidos por duas companhias com base na Califórnia para proteger a embaixada. Empunhavam armas que poderiam deliciar os coleccionadores, incluindo metralhadoras e pistolas adornadas e obsoletas, e uma variedade de facas. Contudo, compartilhavam de uma característica: caminhavam com um ar de superioridade que era puro cowboy: pernas ligeiramente arqueadas, mão direita livre ao longo do flanco, com os dedos virados para dentro e de vez em quando dando palmadinhas no coldre. Estavam munidos de machados e serras eléctricas, e as secretárias da embaixada traziam‑lhes cerveja e sanduíches. Cortavam a árvore do embaixador sem o consentimento do embaixador. Ao mesmo tempo, uma frota de carros e camiões tinha estacionado no mercado no exterior do Jardim Botânico e do Jardim Zoológico, e rapidamente descarregaram a sua carga: bifes congelados, costelas de porco, sumo de laranja, grandes jarros de pickles e cerejas maraschino, caixotes de manteiga de feijão enlatada e manteiga de amendoim Chunkie, bolos Sara Lee, cerveja Budweiser, Seven‑Up, pastilha elástica Wrigley, cigarros com ponta de plástico Have-A-Tampa, e mais, tudo isso pilhado do comissariado de Saigão, que tinha sido abandonado pouco depois de uma unidade de sapa da NLF ter entrado em fila indiana através da porta das traseiras. Para os habitantes Saigão, roubar dos seus mentores e patronos tinha‑se tornado algo como uma obrigação cultural, e havia uma atmosfera carnavalesca e muita alegria quando os bifes mais macios eram vendidos por alguns centavos. Uma carrinha descarregou uma máquina de lavar louça e um refrigerador de água foi vendido rapidamente e levado num triciclo; a máquina de lavar louça era da marca Blue Swan e na sua caixa estava o lema da Blue Swan: «Só o melhor está certo para os nossos clientes». A máquina de lavar louça foi tirada da sua caixa e deixada na rua. Duas horas depois ainda lá estava, não vendida e despida de peças vitais, um monumento desolado à indústria do consumo no Vietname. Saigão estava agora sob um recolher obrigatório de 24 horas, mas havia gente nas ruas, e alguns deles eram soldados da 18ª Divisão do ARVN que tinha combatido bem em Xuan Loc, na Estrada Um. Tínhamos estado à espera deles e aguardando os primeiros sinais da sua raiva à medida que viam os norte‑americanos a preparar‑se para deixá‑los à sua sorte. Nessa manhã, quando primeiro apareceram no centro da cidade, eles meramente ficaram de olho nos estrangeiros, ou os roubaram, ou dispararam para o ar para aliviar a sua frustração. Caminhei de volta para o Hotel Caravelle onde encontraria Sandy Gall da Independent Television News (ITN); ele e eu éramos os “directores da evacuação” para a Imprensa NPT [TCN Press, em inglês], o que queria dizer Nacionais de Países Terceiros, o que queria dizer qualquer um que não fosse norte‑americano ou vietnamita. Durante alguns dias Gall e eu tínhamo‑nos preocupado com a tarefa supremamente excêntrica de tentar organizar aqueles representantes da imprensa britânica, canadiana, italiana, alemã, espanhola, argentina, brasileira, holandesa e japonesa que queriam ser evacuados. A embaixada norte‑americana tinha distribuído uma brochura de 15 páginas chamada SAFE, nome curto de “Standard Instruction and Advice to Civilians in na Emergency”. A brochura incluía um mapa de Saigão assinalando «áreas de reunião onde um helicóptero o recolherá». Havia uma página intercalada que dizia: «Note o sinal de evacuação. Não revele a outro pessoal. Quando a evacuação for ordenada, o código será lido na Rádio das Forças Americanas. O código é: A TEMPERATURA EM SAIGÃO É DE 112 GRAUS E ESTÁ A AUMENTAR. ISTO SERÁ SEGUIDO PELA APRESENTAÇÃO DE I’M DREAMING A WHITE CHRISTMAS». Os jornalistas japoneses estavam preocupados por não serem capazes de reconhecer a melodia e indagaram se alguém poderia cantá‑la para eles. No Caravelle, Gall e eu tínhamos nomeado directores de andar que, ao primeiro sinal de «yuletide snow» em Saigão, se assegurariam que jornalistas que estivessem enfermos, surdos, a dormir, confinados numa casa de banho ou a uma relação, não seriam deixados para trás. Havia mais do que um módico interesse pessoal neste arranjo; eu tinha, e tenho, uma angústia que me fez chegar atrasado a praticamente qualquer evento sério na minha vida. Dois avião Hércules C-130 da base da força aérea de Clark nas Filipinas voavam sobre Tan Son Nhut. Ordenaram‑lhes que não aterrassem. Batedores enviados para o perímetro do aeroporto relataram que dois pelotões de infantaria da PAVN tinham reforçado os sapadores no cemitério a uma milha de distância; um piloto sul‑vietnamita tinha aterrado o seu caça F-5 na pista e tinha‑o abandonado com o seu motor ligado; e um jipe carregado do ARVN arremetia contra um dos seus C-130 enquanto tentava descolar. «Há uns três mil civis em pânico na pista», disse o general Homer Smith na VHF. «A situação parece fora de controle». Graham Martin, sozinho no seu escritório, viu a árvore cair e ouviu o seu chefe da estação da CIA gritar “madeiraaaa!” Quando Kissinger telefonou pouco depois, em concordância com a decisão do presidente Ford de que o embaixador norte‑americano devia tomar a decisão final sobre a evacuação, ouviu pacientemente um exausto e aflito Graham Martin. Às 10:43 da manhã, foi dada a ordem para «avançar com a Opção Quatro» (a evacuação de helicóptero; as outras opções teriam envolvido evacuação por mar ou por ar). Mas Martin permaneceu firme na crença de que havia “tempo ainda” para negociar um “acordo honrado”. O Caravelle esvaziou‑se sem o conhecimento da Junta de Direcção não oficial dos NPT. Ninguém me disse. Bing Crosby não tinha cantado no meu rádio. Quando me levantei, os quartos pareciam o Marie Celeste [1], com roupas, papéis, escovas de dentes abandonados. Corri para o meu quarto, recolhi a minha máquina de escrever, o rádio e as notas e meti‑os dentro de um pequeno saco; o resto deixei. Dois empregados de quarto chegaram e viram o meu pânico frenético, estupidificados e ligeiramente receosos. Um perguntou: «Está de saída, senhor?» Eu disse que sim, numa maneira de dizer. «Mas a sua roupa para lavar só voltará à noite, senhor». Tentei não olhar para ele. «Por favor...fique com ela...e também tudo o resto que vê». Pus um monte de piastras nas suas mãos, sabendo que estava a comprar a sua deferência face à minha saída sem graça. Após nove anos, que maneira de sair. Mas que eu queria sair, não havia dúvida; já tinha tido a minha conta da guerra. Lá fora, a praça Lam Son estava vazia, excepto por alguns soldados do ARVN encostados nos portais e na sarjeta. Um deles caminhou vigorosamente por Tu Do acima, gritando para mim; estava embriagado. Tirou o seu revólver do coldre, pousou‑o num braço trémulo, apontou e disparou. A bala passou por cima da minha cabeça enquanto corria. Uma multidão estava a pressionar no portão da embaixada norte‑americana; alguns eram meramente os curiosos que tinham vindo ver o Dunquerque aéreo dos norte‑americanos, mas havia muitos que agarravam as áridas barras, rogavam à guarda de marines para os deixar entrar e acenavam com papéis selados com cera e cartas de responsáveis norte‑americanos. Um ancião tinha uma carta de um sargento que há muito tempo tinha dirigido o bar no clube de oficiais da Força Aérea em Pleiku. O ancião costumava lavar pratos lá, e a sua nota do sargento, datada de 5 de Junho de 1967, dizia: «O sr. Nha, o portador desta carta, serviu fielmente a causa da liberdade na República do Vietname». O Sr. Nha também apresentou uma estrela de Ranger do Texas de brinquedo que um dos pilotos em Pleiku lhe tinha dado. Acenou a carta e a estrela de Ranger do Texas de brinquedo ao guarda dos marines que estava a gritar à multidão. «Agora por favor não entrem em pânico... por favor!» Tanto quanto se podiam lembrar, a estas pessoas, que trabalharam para os norte‑americanos, tinha‑lhes sido dito para temerem os comunistas; agora estavam a dizer‑lhes, com os comunistas no seu quintal, que não deviam entrar em pânico. O ancião tentou deslizar pela abertura no portão e foi empurrado para o chão pelo marine que lhes estava a dizer para não entrarem em pânico. Ele levantou‑se, tentou outra vez e foi placado por um segundo marine que o impeliu para fora com a coronha da sua carabina e arremessou o crachá de Ranger do Texas sobre as cabeças da multidão. Dentro do recinto da embaixada os marines e os cowboys estavam em pé em torno do tronco do grande tamarindo. «OK, digam‑me o que vamos fazer acerca deste bastardo inamovível?» disse um dos cowboys para o seu walkie‑talkie. «Tem calma, Jed», veio uma resposta inaudível, «só tu e os rapazes abaixem‑na pelo menos 30 centímetros, para que haja espaço para as hélices. E Jed, remove essas aparas, ou de certeza vão ser sugadas para os motores». Assim, os marines e os cowboys continuaram a brandir os seus machados no tronco, mas com tal crescente frustração e incompetência que os seus cortes se tornaram num entretenimento tanto para aqueles que estavam dentro como para os que estavam fora no portão, e para os sorridentes guardas franceses no alto muro da embaixada francesa ao lado. Há na linguagem vietnamita, que é muito dada à poesia e à ironia, um ditado que diz que «só quando a casa arde é se vê o focinho dos ratos». Aqui estava o Dr. Phan Quang Dan, antigo adjunto do primeiro‑ministro e ministro responsável pela segurança social e a pela reinstalação de refugiados, um homem visto por Washington e pelo embaixador Martin como a encarnação do verdadeiro espírito nacionalista do Vietname do Sul. Um anti‑comunista obssessivo que estava constantemente a fazer discursos exortando os seus compatriotas a levantar‑se e lutar, o Dr. Phan Quang Dan estava acompanhado pela sua esposa roliça que sufocava sob um casaco de peles e por um pelotão de carregadores de malas cujas malas nunca saíam da sua vigilância. A “gente bonita” de Saigão também estava ali, incluindo aqueles jovens de idade militar cujos pais ricos tinham pago grandes subornos a fim de os manter fora do exército. Embora estivessem alistados como soldados ao serviço de alguma unidade, nunca se tinham apresentado ao serviço e os seus oficiais de comando muito provavelmente metiam ao bolso os seus salários. Eram chamadas “soldados fantasma” e continuaram a levar uma boa vida em Saigão: nos cafés, nas suas Hondas, na borda da piscina do Círculo Desportivo, enquanto os filhos dos pobres lutavam e morriam em Quang Tri, Na Loc, e todos os outros lugares. «Prestem atenção, sou eu... deixem‑me entrar, por favor... muito obrigado...olá, sou eu!». A voz aguda atrás da multidão fora do portão pertencia ao tenente‑general Dang Van Quang, encarado pelos seus concidadãos e por muitos norte‑americanos como um dos maiores e ricos especuladores no Vietname do sul. O guarda dos marines tinha uma lista de pessoas que poderia deixar entrar, e o general Quang estava nela. Com grande cuidado, o guarda ajudou o general Quang, que era muito gordo, a passar sobre as barras de 4,5 metros e depois recuperaram as suas três malas Samsonite. O general estava tão aliviado por estar dentro que se afastou, deixando o seu filho de 20 anos a lutar desesperadamente na multidão. Havia dois maços de dólares que saíam do bolso do peito do casaco do general. Quando lhos apontaram, empurrou-os de volta para dentro, e riu‑se. Para os norte‑americanos, o general Quang era conhecido como “Risinhos” e “General Gorducha”. Entre os norte‑americanos no recinto da embaixada havia um espírito festivo. Acocoravam‑se no relvado à volta da piscina com champanhe em baldes de gelo pilhados do restaurante da embaixada, e divertiam‑se à grande; um homem com um chapéu de cowboy pulverizou espuma noutro e havia cantigas joviais por dois mecânicos de avião, Frank e Elmer. Uma e outra vez cantaram ao ritmo da melodia “The camp town races”. Nós voltamos a casa como pássaros da liberdade Doo dah, doo dah; Não voltamos a casa em sacos de plástico, Oh doo dah day. «Foi aqui que cheguei ao fim de dez anos», disse Warren Parker quase em lágrimas. «Vê aquele homem ali? É um oficial da Polícia Nacional... não é melhor do que um torturador». Warren Parker tinha sido, até essa manhã, cônsul dos Estados Unidos em My Tho, no Delta, onde me tinha encontrado com ele uma semana antes. Era um homem pacato, quase tímido, que tinha passado 10 anos no Vietname tentando “aconselhar” os vietnamitas e interrogando‑se porque é que muitos deles não pareciam querer o seu conselho. Ele e eu furamos para entrar no restaurante ao lado da piscina passando por um homem que dizia «Vietnamitas aqui não, vietnamitas não», onde saqueámos uma garrafa fresca de vinho Taylor New York, rosa e doce. Os copos já tinham ido, por isso bebemos da garrafa. «Digo‑lhe uma coisa», disse no seu suave acento da Georgia, «se alguma vez houve um momento da verdade para mim, é hoje. Todos estes anos estive lá, fazendo um trabalho para o meu país e por este país, e hoje tudo o que posso ver é que fomos bem sucedidos em separar todas as boas pessoas da escumalha, e nós ficamos com a escumalha». Às 15:15, Graham Martin saiu a passos largos do elevador da embaixada, através da sala de entrada, entrando no recinto. Os grandes helicópteros, os Jolly Green Giants, ainda não tinham chegado e o toco do tamarindo não estava visivelmente mais curto, apesar dos furiosos cortes e serrações dos marines e cowboys. O cadillac de Martin estava à sua espera e, com pessoal da embaixada olhando em choque, o cadillac dirigiu‑se para o portão, que estava agora sob cerco. O marine no portão não podia acreditar no que os seus olhos viam. O cadillac parou, o marine levantou os seus braços no ar e o cadillac inverteu a marcha. O embaixador saiu e irrompeu, passando pelo toco e pelos cowboys. «Vou caminhar uma vez mais para a minha residência», exclamou. «Caminharei livremente nesta cidade. Deixarei o Vietname quando o presidente me disser para o deixar». Deixou a embaixada por uma entrada lateral, forçou a sua passagem por entre a multidão e caminhou os quatro quarteirões até à sua casa. Uma hora e meia mais tarde regressou com o seu poodle, Nitnoy, e o seu empregado doméstico vietnamita. Quando o primeiro helicóptero Chinook fez a sua precária aterragem, as suas hélices talharam uma árvore, e os ramos quebrados soavam como disparos. «Baixem‑se! Baixem‑se!», gritou um cabo, sob o efeito de methedrine [uma metanfetamina pura], à linha de pessoas agachadas contra a parede, esperando a sua vez para serem evacuadas, até que um oficial veio e o acalmou. A capacidade do helicóptero era 50, mas levantava com 70. A perícia do piloto tirava o fôlego enquanto subia verticalmente a 60 metros, com balas silvando contra as hélices e documentos rasgados da embaixada revoando no ar. Contudo, nem todos os documentos da embaixada estavam rasgados e alguns foram deixados no recinto em sacos de plástico abertos. Tenho um deles. Está datado de 25 de Maio de 1969 e nele se pode ler: «Top Secret (...) memorando de John Paul Vann, contrainsurreição (...) 900 casas na província de Chau Doe foram destruídas por ataques aéreos americanos sem provas de que um só inimigo tenha sido morto. A destruição desta aldeola por fogo americano amigo é um acontecimento que será sempre lembrado e nunca perdoado pela população sobrevivente...» Do agitado incinerador no telhado da embaixada chovia dinheiro. Era difícil acreditar nos meus olhos. O irreal e o real fundiam‑se. Do céu vinham notas de 20, 50 e 100 dólares. Muitas estavam queimadas; algumas não estavam. Os vietnamitas que esperavam em torno da piscina não podiam acreditar nos seus olhos; antigos ministros e generais e torturadores lutavam pela sua indemnização por despedimento que vinha do céu. Um funcionário da embaixada disse que mais de cinco milhões de dólares estavam a ser queimados. «Todos os cofres da embaixada foram esvaziados e fechados de novo», disse um funcionário, «para enganar os gooks quando tivermos partido». Pelo menos um milhar de pessoas estavam ainda no interior da embaixada, esperando ser evacuadas, embora a maioria da celebridades, como “Risinhos” Quang, tenham entrado nos primeiros helicópteros; os restantes esperavam passivamente, como que atordoados. Dentro da embaixada propriamente dita havia espuma de champanhe sobre as secretárias polidas, enquanto vários dentre o pessoal da embaixada tentavam sistematicamente destruir os seus próprios gabinetes: espatifando refrigeradores de água, esvaziando garrafas de uísque nas carpetes, arrancando fotografias das paredes. Num escritório do terceiro andar uma fotografia do falecido presidente Johnson foi atirada para um cesto de papéis, enquanto uma citação emoldurada de Lawrence da Arábia foi deixada na parede. A citação dizia: «É melhor deixá‑los fazer imperfeitamente, do que fazê‑lo perfeitamente tu próprio, pois é o seu país, a sua guerra, e o teu tempo é curto».
A meia-noite aproximava‑se. O recinto da embaixada estava iluminado pelos faróis de carros da embaixada, e os Jolly Green Giant levavam agora 90 pessoas cada um. Martin Garrett, o chefe de segurança, juntou todos os americanos que restavam. O vietnamitas que esperavam sentiram o que se estava a passar e um coronel dos marines apareceu para lhes assegurar que o embaixador Martin tinha dado a sua palavra de que seria o último a partir. Era uma mentira, evidentemente. Eram 02:30 de 30 de Abril quando Kissinger telefonou a Martin e lhe disse para terminar a evacuação às 03:45. Meia hora depois Martin apareceu com uma pasta, uma mala e a bandeira americana dobrada num saco. Subiu em silêncio ao sexto andar onde um helicóptero esperava. «Lady Ace 09 está no ar com Code Two». “Code Two” era o código para um embaixador norte‑americano. O rápido anúncio no circuito restrito queria dizer que a invasão norte‑americana da Indochina tinha terminado. Enquanto o seu helicóptero sobrevoava a Estrada Um, o embaixador podia ver as luzes dos camiões do Exército Popular do Vietname, esperando. Os últimos marines chegaram ao telhado e dispararam latas de gás lacrimejante para a escadaria. Podiam ouvir os vidros a quebrar e as tentativas desesperadas dos seus antigos aliados para forçar a abertura dos cofres vazios. Os marines estavam exaustos e a começar a entrar em pânico; o último helicóptero ainda tinha de chegar e já passava bem da alvorada. Três horas mais tarde, quando o sol abrasava uma cidade expectante, tanques arvorando as cores da NLF entraram no centro de Saigão. As suas tripulações jubilantes não mostraram ameaça, nem dispararam um único tiro. Foram corteses e estavam estupidificados; um deles desceu, abriu um mapa sobre o seu tanque e perguntou a transeuntes espantados, «Por favor, dirijam‑nos para o palácio presidencial. Não conhecemos Saigão, não temos estado aqui há algum tempo». Os tanques passaram ruidosamente pela praça Lam Som, ao longo de Tu Do, subiram passando pela catedral e, após terem feito uma pausa para que a bandeira revolucionária nas suas torras pudesse apanhar a brisa, bateram contra os portões ornados do palácio presidencial onde o “Grande” Mihn e o seu governo estavam à espera para se renderem. Nas ruas lá fora, botas e uniformes jaziam em pilhas arrumadas onde soldados do ARVN se tinham despido deles e se tinham fundido com a multidão. Não houve “banho de sangue”, como aqueles que pouco sabiam acerca dos vietnamitas tinham predito. Com o invasor expulso, este país extraordinário era de novo uma nação, como a conferência de Genebra tinha dito que tinha direito há tantos anos perdidos. A mais longa guerra do século 20 tinha terminado. ______ * Resumo de John Pilger, Heroes, Vintage Books, Londres; publicado pela primeira vez em 1975. [1] O Marie Celeste foi um bergantim do século dezanove, encontrado à deriva sem tripulação, sem sinais de violência ou qualquer outra explicação plausível, perto da costa de Portugal, em 1872. Para mais pormenores ver Mathias Carvalho, O mistério do Marie Celeste. |