Informação Alternativa

União Europeia

21/04/2005

 

Um absurdo na Grã-Bretanha:

persuadir as pessoas de que têm uma escolha política

 

John Pilger; retirado de resistir.info

 

Está em curso uma pressão familiar, ainda que desesperada, para convencer o povo britânico de que os principais partidos políticos lhes oferece uma escolha democrática na eleição geral de 5 de Maio. Este demonstrável absurdo tornou­‑se hilariante quando Tony Blair, líder de um dos mais asquerosos e violentos regimes de extrema direita de que há memória, anunciou a existência de «uma suja campanha da extrema direita» para derrotá-lo. Se ao menos isto fosse divertido... Se ao menos fosse possível ler os tributos “ah, mas” a um “bem sucedido” governo trabalhista sem partir uma costela. Se apenas fosse possível ler os instigadores da guerra a lamentarem a “apatia” do eleitorado britânico sem que o riso seja ultrapassado pela urgência em vomitar.

 

A verdade pode ser subvertida, mas para milhões de britânicos decentes a subversão está ultrapassada, e a verdade foi revelada. Por isso, eles têm de agradecer a Blair. No dia 5 de Maio eles farão silenciosamente greve contra um sistema corrupto e não democrático, tal como o fizeram na última eleição, produzindo a mais baixa taxa de comparecimento desde que há direito de voto, incluindo cerca de um terço em algumas secções eleitorais. Outros ficarão sob uma pressão extraordinária para pôr de lado considerações de moralidade básica e votar por este “bem sucedido” governo Blair. Eles — permita-me isto por você — deverão estar conscientes do que isto significará para os seus semelhantes.

 

Ao votar por Blair, você passeará sobre os cadáveres de pelo menos 100.000 pessoas, a maior parte delas mulheres, crianças e idosos inocentes, abatidas pelas forças opressoras enviadas por Blair e Bush, sem provocação e em desafio ao direito internacional, a um país indefeso. Essa estimativa conservadora é a conclusão de um estudo anglo-americano revisto pelos pares, publicado no jornal médico britânico The Lancet. Trata-se do mais confiável vislumbre que temos da carnificina criminosa causada por Blair e Bush no Iraque, e está a ser omitida nesta “campanha” eleitoral.

 

Ao votar por Blair você estará a fazer orelhas moucas às lágrimas de incontáveis crianças iraquianas estraçalhadas pelas bombas de fragmentação britânicas e envenenadas por explosões tóxicas de urânio empobrecido. Estas vítimas invisíveis de Blair e Bush — incluindo mulheres iraquianas que desenvolveram um raro “câncer da gravidez”, e crianças com leucemia inexplicada — não farão parte das suas preocupações. Segundo um dos peritos militares que limparam o Kuwait após a Guerra do Golfo de 1991, Blair e Bush criaram «outro Hiroshima» em partes do Iraque. Você estará a votar para endossar isso.

 

Ao votar por Blair, você estará a voltar as costas às centenas de milhares de crianças abandonadas à fome no Iraque pela sua invasão e a de Bush. Em 30 de Março, a Comissão sobre Direitos Humanos das Nações Unidas foi informada de que as taxas de desnutrição entre crianças iraquianas com idade inferior a cinco anos havia quase duplicado desde a invasão — o dobro do número de crianças famintas sob Saddam Hussein. O autor do relatório à comissão, Jean Ziegler, um especialista da ONU sobre a fome, afirmou que a culpa cabe à “coligação”.

 

Ao votar por Blair, você estará a confirmar que os mentirosos triunfam. Blair é um mentiroso numa escala tão épica que mesmo aqueles que ainda o protegem com eufemismos parlamentares, como Robin Cook («Ele sabia perfeitamente bem o que estava a fazer. Penso que havia uma falta de sinceridade») e o Guardian e a BBC, agora lutam para aprimorar o seu perjúrio.

 

Examine-se a sua mentira mais recente. No dia 13 Março, Jonathan Dimbleby perguntou a Blair sobre o memorando de David Manning que veio à luz do dia, no qual Manning, o conselheiro de política externa do primeiro-ministro, confirmava a Blair em Março de 2002 que assegurara aos americanos que «você não mudaria de posição no seu apoio à mudança de regime». Blair mentiu a Dimbleby dizendo que «realmente não dissera aquilo como uma matéria de facto». Manning «[tornou] claro que o desenvolvimento de ADMs [armas de destruição em massa] em infracção a resoluções das Nações Unidas não mais seria tolerado».

 

A seguir estão as palavras que Manning escreveu a Blair: «Eu disse [a Condoleezza Rice] que você não mudaria de posição no seu apoio à mudança de regime mas você tinha de gerir uma imprensa, um parlamento e uma opinião pública que eram muito diferentes [de] qualquer coisa nos Estados Unidos». Não há qualquer menção, nada, acerca de resoluções das Nações Unidas, ou armas de destruição em massa.

 

Ao votar por Blair, você convidará a mais mentiras acerca de sustos terroristas na Grã-Bretanha de modo que leis totalitárias possam ser promulgadas. «Tenho um horrível sentimento de que nos estamos a afundar num Estado policial», disse George Churchill­‑Coleman, o antigo chefe do esquadrão anti-terrorista da Scotland Yard. Tal como as falsas razões para os tanques de Blair em torno de Heathrow na véspera da maior demonstração anti­‑guerra da história britânica, assim qualquer coisa, qualquer susto, qualquer detenção, qualquer “controle da ordem”, será possível.

 

Ao votar por Blair, você cairá nas manipulações, no mito, do social reformismo e “realizações económicas” do seu governo. A proibição da caça à raposa e a redução da idade da maioridade gay são distracções políticas e mediáticas que nada contribuem para proteger uma democracia social de ser despojada de liberdades antigas, tais como aquelas inscritas na Magna Carta.

 

A propaganda sensacionalista do “boom” e do “crescimento” na Grã­‑Bretanha foram booms para os ricos e não para as pessoas comuns. Com escassa atenção dos media, o governo Blair transferiu serviços públicos no valor de milhares de milhões de libras para mãos privadas sob o private finance initiative (PFI). As “taxas” [“fees”], ou pagamentos por fora [rake-off], para projectos PFI em 2006-2007 serão da ordem dos 6,3 mil milhões de libras, mais do que o custo de muitos dos projectos: um acto histórico de pirataria corporativa. Nem tão pouco está o novo trabalhismo a “apoiar” o Serviço Nacional de Saúde e sim a privatizá-lo na calada; em 2006-2007 os contratos privados aumentarão 150 por cento. Sob o tesoureiro Gordon Brown, a Grã-Bretanha tem a distinção de ter criado mais da metade dos paraísos fiscais do mundo, de modo que os semelhantes de Rupert Murdoch sejam capazes de pagar impostos mínimos. “Crescimento” tem significado o crescimento rápido do fosso entre ricos e pobres. O pagamento aos executivos de topo aumentou 500 por cento ao passo que o crescimento médio dos rendimentos é 45 por cento.

 

Ao contrário das alegações de Blair e Brown, a pobreza entre adultos em idade de trabalhar e sem filhos está a aumentar. Em 2002-2003, o último ano para o qual há números disponíveis, 12,4 milhões de pessoas, ou 22 por cento da população, estavam a viver na pobreza. Quanto ao mito do quase pleno emprego, a destreza deste governo em manipular constantemente números permitiu, por exemplo, que os centros de emprego reclassificassem trabalhadores como doentes de longo prazo ou incapacitados a fim de cumprir objectivos de “redução” de desemprego. Tem de facto havido um boom — em empregos inseguros, a tempo parcial e temporários, com poucos direitos e fracas condições. Há 8,8 milhões de trabalhadores aprisionados neste semi­‑mundo, muitos dos quais ficam felizes por obterem um par de dias de trabalho pago por semana. Para britânicos das camadas médias, que acreditam serem beneficiários do “boom”, há o espectro do endividamento pessoal — o qual, sob os trabalhistas, está a crescer à taxa de 15 milhões de libras por hora, até mesmo mais rapidamente do que nos EUA.

 

Pouco disto vem à tona para discussão. Em 2005 temos uma eleição, não política; uma corte dos media, não debate crítico. A verdadeira política é acerca de toda a humanidade, e da nossa responsabilidade por aqueles que cometem crimes em nosso nome. Nem a reverência pela santidade de um voto falsificado ou por uma falsa escolha — ou o menor mal de um inexistente, sentimental, Partido Trabalhista pré­‑Blair — alterará isso. Devemos essa verdade ao povo do Iraque, pelo menos.