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17/03/2005 Outro sangue nas suas mãos Enquanto os defensores da aventura assassina de Bush e Blair no Iraque vêem um “forro de prata” nos pseudo‑acontecimentos do Médio Oriente, os verdadeiros acontecimentos na Colômbia iluminam a natureza universal da sua “missão”. Os últimos contam‑nos uma história horrenda que, se se qualificasse como notícia, seria provavelmente reportada como uma tragédia cujas vítimas «pagaram o preço da cocaína com sangue». Foi assim que o London Observer em 13 de Fevereiro representou o sofrimento da Colômbia, o que é típico da maior parte da imprensa norte‑americana e europeia, com um ministro dos negócios estrangeiros assegurando‑nos que as mágoas da Colômbia podiam todas ser atribuídas às drogas; e que o presidente da Colômbia «educado em Oxford», Alvaro Uribe, estava a «tentar dominar os elementos fora‑da‑lei do exército»; além disso, o governo britânico estava a ajudá‑lo na sua nobre causa. Quanto ao envolvimento militar colossal dos Estados Unidos na Colômbia, conhecido como “Plano Colômbia”, cujas despesas se situam logo atrás dos milhões despendidos no Iraque e em Israel, esse era meramente «controverso» e «apontado a erradicar o comércio [das drogas]...». Quanto a Bill Rammel, o subsecretário do ministro dos negócios estrangeiros responsável, parece, pela maior parte do planeta, o Observer informou que ele tinha identificado uma questão moral na Colômbia. Para as classes humanitárias inglesas, disse Busy Bill, fungar cocaína «devia ser socialmente tão tabu como beber uma garrafa de vinho sul‑africano durante o apartheid». Busy Bill esteve em Pyongyang não há muito tempo, dizendo aos norte‑coreanos que não estava certo que eles tivessem armas nucleares. Que o seu próprio governo estivesse armado até aos dentes com armas nucleares era, evidentemente, irrelevante. Antes disso, Busy Bill dizia‑me, numa entrevista no Ministério dos Negócios Estrangeiros, que as ilhas Chagos no Oceano Índico, cuja população inteira tinha sido brutalmente e ilegalmente expulsa da sua terra natal por governos britânicos, não poderia voltar porque estariam sob o risco mortal devido à «subida do mar». Quando o maremoto atacou no Dia de Santo Estêvão, poupou as Chagos – como os norte‑americanos sabiam que aconteceria: foi por isso que conspiraram com os britânicos para expulsar os habitantes e construir uma imensa base militar no que a marinha dos EUA chama «as soberbas, seguras e excepcionais condições ambientais» em Diego Garcia, a ilha principal. Deixemos Busy Bill por um momento e voltemos à Colômbia. Em 21 de Fevereiro, segundo testemunhas, soldados da 17ª Brigada do Exército Colombiano entraram na Comunidade de Paz de San José de Apartado, no noroeste do país. A comunidade não tem alianças políticas e é internacionalmente famosa e “protegida” pelo Tribunal Inter‑americano dos Direitos Humanos. De acordo com as declarações das testemunhas, os soldados sequestraram e assassinaram oito civis, incluindo três jovens crianças e uma rapariga adolescente, que foram retalhados até à morte com machetes. Entre eles estavam Luis Eduardo Guerra, o chefe da comunidade, a sua companheira Bellanira e o seu filho Deiner; Guerra era admirado como um notável humanitário e conciliador. Desde 1997, a sua gente sofreu mais de 130 assassinatos; não houve condenações. As Nações Unidas exigiram uma investigação; os Estados Unidos exigiram uma investigação; e assim o fez o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Se o passado for um guia, os últimos dois estarão confiantes de que este último horror se dissipe e a fachada da Colômbia possa ser erguida de novo. Pois tal como Bush e Blair estão ensopados de sangue no Iraque, também o estão na Colômbia. O exército e a polícia da Colômbia têm o pior registro de direitos humanos no hemisfério ocidental. Que o governo de Uribe «educado em Oxford» seja algo melhor que o dos seus predecessores e que as drogas por si sós sejam a causa de mais de 20.000 assassinatos em cada ano é uma ficção promovida em Washington e Londres. Ninguém duvida que as FARC, o grupo de guerrilha de base camponesa, traficaram cocaína, mas a esmagadora maioria do comércio de drogas e da violência na Colômbia são da responsabilidade do Estado, dos seus militares e paramilitares, financiados e treinados, directamente e indirectamente, pelos governos norte‑americano e britânico. Além disso, o tema da cocaína é uma distracção: o combustível do conflito, não a causa. As vítimas são pessoas como Luis Eduardo Guerra e a sua família, e activistas sindicais, professores, defensores da reforma agrária, indígenas e chefes camponeses que trabalham para promover a justiça social e económica e os direitos humanos. No seu estudo sobre a política externa britânica, Unpeople, o historiador Mark Curtis escreveu: «A guerra na Colômbia é essencialmente sobre o controlo dos recursos numa sociedade profundamente injusta: a elite, especialmente os grandes proprietários, controlam a maioria da riqueza enquanto a maioria da população vive na pobreza. O papel básico do Estado é marginalizar as forças populares e assegurar que os recursos da Colômbia – nomeadamente o petróleo – permaneçam nas mãos certas. A estratégia [estado‑unidense e britânica] é apoiar isto... A “guerra às drogas” é uma cobertura». Esquadrões da morte ligados aos governos colombianos têm sido tão bem sucedidos em expulsar as pessoas das suas quintas que 76 por cento da terra é agora controlada por uma elite de menos de três por cento da população. Dadas as ligações íntimas entre os militares e os paramilitares, diz Douglas Stokes da Universidade de Aberystwyth, «a ajuda militar dos EUA vai directamente para as maiores redes terroristas em toda a Colômbia, que traficam cocaína para o mercado dos EUA para financiar as suas actividades». O governo de Blair, juntamente com outros governos europeus pressionados pelos Estados Unidos, recusa‑se a dizer exactamente onde a maioria dos milhões de libras de “ajuda relacionada com a droga” dos seus contribuintes à Colômbia acaba. «Não damos detalhes de todo o apoio», diz Bill Rammel, «nem de unidades específicas a quem fornecemos assistência, pois fazê‑lo poderia reduzir a sua eficácia e potencialmente pôr em risco o pessoal do Reino Unido envolvido». Percebemos o seu sentido. O seu predecessor, Keith Vaz, era menos tímido. «Devemos dar tanto apoio quanto possível ao governo do presidente Pastrana», disse em Janeiro de 2000. Leiam os relatórios sobre a ligações assassinas do regime de Pastrana e certamente perceberão o seu sentido. Quanto a Uribe, a propaganda do governo de Blair é que ele tem um currículo «impressionante» na «contenção do crime e da violência». Querem dizer que permitiu à polícia colombiana, aos militares e aos paramilitares “pacificar” as cidades e fazer secções da classe média colombiana sentirem‑se mais seguras. Ninguém vê o que eles fazem fora dos subúrbios. No primeiro ano de Uribe como presidente, houve quase 7.000 assassinatos políticos e “desaparecimentos”, pior do que a média durante os quatro anos de Pastrana. Reflectindo a linha da União Europeia inspirada nos norte‑americanos, Rammel tem vindo a promover o regime de Uribe, e as suas omissões são muitas, tais como o facto de os químicos utilizados em transformar coca em cocaína virem todos dos EUA e da Europa, e que significativos investimentos britânicos no petróleo e violações dos direitos humanos são dois lados da mesma moeda, com a BP protegida pelo exército colombiano, e a companhia do oleoduto, na qual é grande accionista, investigada pelos suas reportadas ligações com uma notória brigada do exército. É tal a ameaça patrocinada pelo Estado na Colômbia que organizações não governamentais britânicas, juntamente com as suas parceiras colombianas, estão sob constante risco. «Instamos regularmente o governo colombiano», diz Busy Bill, «a apoiar e proteger o seu trabalho...». Os assassinos de Luis Eduardo Guerra e outros sete, incluindo crianças, devem estar a tremer. |