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03/03/2005 Proteger um regime com
sangue nas suas mãos Há quase oito anos atrás, o coro do liberalismo britânico celebrou a nova era. Tony Blair, escreveu o pensador liberal Hugo Young, «quer criar um mundo que nenhum de nós conheceu», um mundo em que «a ideologia se rendeu inteiramente aos “valores” [e onde] não há vacas sagradas... nem limites fossilizados no terreno sobre o qual a mente poderia estender‑se em busca de uma melhor Grã‑Bretanha». As mentes embrutecidas estenderam‑se até longe. Num artigo de estilo mais‑harmonioso‑do‑que‑tú para o The Guardian, Martin Kette declarou Blair, de modo hilariante, um australiano honorário. «Ele não tem receio do passado», escreveu. «Não é intimidado pela classe. Ele é um meritocrata, um fazedor... Está simplesmente feliz fazendo a sua própria história... Seria bom pensar que um dia estas fossem pensadas como características britânicas, também». O antigo deputado do Partido Trabalhista, Roy Hattersley, descreveu um dos regimes mais ideológicos na história moderna britânica como «puro dogma»; Blair estava a «levar a política para fora da política». «Adeus, xenofobia», foi a manchete pós‑eleitoral do Observer, e «O Ministério dos Negócios Estrangeiros diz, Olá mundo, lembram‑se de nós?». O governo de Blair, disse o jornal, reivindicará «novas regras mundiais sobre direitos humanos» e implementará «duros novos limites sobre vendas de armas». Façamos uma pausa para considerar a verdade. Quando Blair comprovadamente mentiu sobre armas de destruição em massa para ajudar um regime extremista a lançar um ataque não provocado ao Iraque, um país indefeso, a vice‑conselheira jurídica do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Elizabeth Wilmshurst, demitiu‑se, chamando‑lhe, correctamente, um «crime de agressão». O sangue derramado por mais de 100.000 civis mortos e 300.000 feridos é dela e nossa testemunha. Agora considerem os «duros novos limites sobre vendas de armas». Um estudo da ActionAid revela que o governo de Blair vendeu armas a 14 países africanos empobrecidos onde existe um conflito interno. O povo de Aceh, arrasado pelo maremoto do ano passado, tem sido aterrorizado por aviões de combate Hawk, metralhadoras e munições fornecidos por britânicos. A Grã‑Bretanha é o líder mundial na exportação de armas ligeiras, mesmo de urânio empobrecido. Quase tudo sobre um regime Blair era desconhecido antes de ser eleito. A devoção típica de Vichy para com Washington era desconhecida: leiam os seus discursos sobre uma “nova ordem liderada pelos Estados Unidos”. A sua devoção para com Rupert Murdoch, que o transportou de avião à volta do mundo em primeira classe, era desconhecida. A sua devoção para com uma economia thatcheriana neoliberal extrema era desconhecida, soletrada em The Blair Revolution: can new Labour deliver? de Peter Mandelson e Roger Liddle, na qual as «forças económicas» da Grã‑Bretanha são enumeradas como sendo as empresas multinacionais, a indústria «aeroespacial» (armas) e «a preeminência da City de Londres». O seu desprezo de classe pelos pobres era conhecido; os seus ataques pré‑eleitorais às mães solteiras passaram rapidamente a lei, assistido pela maioria das suas novas, oportunistas deputadas femininas. Aqueles que tentam proteger Blair e “andar para a frente” em relação ao Iraque referem‑se à redução da pobreza como um dos seus “feitos”. Na verdade, a pobreza em famílias sem filhos no RU atingiu níveis recorde sob Blair, até 13 por cento – e um número maior do que sob Margaret Thatcher e John Major. Um certo PC‑ismo, assim como a tempestade sobre baixar a idade de consentimento gay, ajudam à ilusão de um governo trabalhista que, se não se tivesse alinhado com o horrível Bush, seria celebrado como “progressista”. Digam isso ao povo de um país longínquo, mais de metade do qual são crianças, cujas vidas foram devastadas pelo fanático Blair e a sua corte de defensores. Leiam a declaração robótica de Hoon sobre o uso de bombas de fragmentação – como as mães iraquianas iriam um dia estar «agradecidas» pelo uso de bombas que mataram as suas crianças – e as cartas do Ministério da Defesa ao público que mentem sobre urânio empobrecido e o seu efeito Hiroshima. O silêncio daqueles que se vêem a si próprios como comissários deste país e a classe liberal, respeitável, moral da Europa é bastante repugnante. Numa peça soberba no The Guardian (24 de Fevereiro) [1], Victoria Brittain perguntou: «Como pode ser que nenhuma figura pública principal na Europa tenha denunciado [o regime de tortura sistemática de Bush]?» Ela aponta que os Documentos da Tortura [The Torture Papers] [2] – mais de 1.200 páginas de memorandos e relatórios governamentais, editados na Universidade de Nova Iorque – mostram tortura sistemática, aprovada e dirigida de cima. Tal é o regime de um homem com quem Blair «partilha valores». Pensei nisto quando me apercebi do corrente debate na Igreja de Inglaterra sobre a “fractura” causada pelo “tema” do casamento gay. Comparem isso com o “tema” da matança de dezenas de milhares de pessoas inocentes, sobre o qual nem uma só palavra é ouvida daqueles que afirmam que a coragem moral é uma divindade. Leiam o relato árido do Dr. Salam Ismael, que levou ajuda a Fallujah em Janeiro. Ele descreve a provação de uma rapariga de 17 anos, Hudda Fawzi. O pai dela abriu a porta a marines dos EUA que o mataram a ele e a um amigo a tiro, depois balearam a sua irmã mais velha, tendo‑a espancado até perder os sentidos, depois destruíram a mobília da família. Pessoas feridas foram arrastadas das suas casas e atropeladas por tanques; uma clínica foi destruída por mísseis. «Tornou‑se claro para nós», escreveu Ismael, «que estávamos a assistir às consequências de um massacre, de uma carnificina a sangue‑frio de civis desamparados e indefesos». Não surpreende que o governo de Blair tenha recusado a Ismael nova permissão para visitar e falar livremente na Grã‑Bretanha. O seu testemunho, e o de muitas outras testemunhas fidedignas, é conhecido e temido. Em Abril último, o comando dos EUA concordou que pode bem ter massacrado até 600 pessoas em Fallujah. Quando um ouvinte perguntou a Judy Swallow, apresentadora do programa Newshour do BBC World Service, porque é que a BBC continuou a suprimir a verdade, Swallow enviou este email para um colega: «Valha‑me deus, Mike – tratamos deste género de coisas ou ignorámo‑las?» Na página web da BBC, ela descreve a Newshour como «expondo a injustiça e as mentiras desafiantes». O silêncio quase nunca é rompido por aqueles que são pagos para “expor a injustiça e as mentiras desafiantes”, quanto mais dizer a verdade. No Channel 5, um elemento do público, Neil Coppendale de Shoreham-by‑Sea, confrontou Blair com esta pergunta: «Tendo em conta que dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes morreram como resultado da invasão do Iraque, como dorme à noite, Sr. Blair?» Quando é que um jornalista, um com acesso privilegiado a Blair, alguma vez pergunta isso? Pela sua parte, o homem de Downing Street da BBC, Andrew Marr (aparentemente juntamente com a sua esposa), e o seu colega do programa Today, James Naughtie, estiveram na casa de campo do primeiro‑ministro, Chequers, para jantar com o assassino Blair. Foi Marr quem, na queda de Bagdade, disse aos espectadores que Blair tinha «dito que seriam capazes de tomar Bagdade sem um banho de sangue, e no fim os iraquianos estariam celebrando, e em ambos estes pontos provou‑se conclusivamente que ele estava certo». E foi Naughtie quem desempenhou um papel principal no British American Project, estabelecido por Ronald Reagan para encontrar uma “geração sucessora” à daqueles que propagavam a guerra fria em nome dos Estados Unidos. Se a vergonha não tem lugar na que é chamada “vida pública”, então o resto de nós devia quebrar o silêncio por eles. The Guardian diz que o eleitorado está “zangado” com Blair. Zangado? Que palavra tão gentil. Apoiar Blair, na sua propaganda e na sua desdenhosa necessidade de outro mandato, é apoiar o assassínio em massa. __________ [1] Victoria Brittain, Why are
we welcoming this torturer?, The Guardian, 24/02/2005 (n. do IA). [2] The
Torture Papers, Cambridge University Press (n. do IA). |