Informação Alternativa

Ásia

20/01/2005

 

Não devíamos nunca esquecer a Birmânia

 

John Pilger

 

Tentei telefonar­‑lhe noutro dia. Ainda tenho um número que ela me deu, para o qual podia telefonar infrequentemente e trocar umas palavras. Foi infrutífero tentar desta vez; o sinal sonoro rápido do outro lado foi um eco da sua opressão kafkaesca. O isolamento de Aung San Suu Kyi é agora completo, no décimo ano da sua detenção. A última vez que consegui contactá­‑la, perguntei­‑lhe o que se estava a passar fora da sua casa. «Oh, a rua está bloqueada e há soldados em toda a rua... para minha própria segurança, claro!»

 

Agradeceu­‑me pelos livros que lhe enviei, levados em mão pela clandestinidade que agora luta para manter o contacto. «Foi uma alegria ler bastante outra vez», disse. Tinha­‑lhe enviado uma colecção do seu favorito T. S. Elliot, bem como a novela política de Jonathan Coe, What a Carve Up!, cuja ironia gentil deve ter parecido estranha na Rangoon sob regime militar. Contou­‑me que saboreava as biografias daqueles que também tinham sofrido o isolamento: Mandela, Sakharov. Pouco chegou a ela desde então, e não se sabe se ainda tem o velho rádio Grundig de onda curta. O regime removeu agora os seus guardas pessoais de segurança do seu recinto junto ao lago Inya. Tendo torturado e assassinado os seus aliados mais próximos, devem acreditar que, se o mundo olhar para o outro lado, podem fazer­‑lhe o mesmo.

 

«Para os media, a Birmânia raramente está na moda», disse­‑me. «Mas o que é importante lembrar numa luta como a nossa é que perdura, quer o foco incida nela ou não, e não podem fazê­‑la voltar atrás». Para alguém tão sozinho, estas são palavras salutares; recomendo­‑as aos que perdem a força de vontade quando a sua participação numa manifestação falha em parar uma invasão. Afortunadamente, Aung San Suu Kyi e o movimento de democracia que lidera são apoiados por uma tenaz rede de solidariedade em todo o mundo; estou em dívida para com John Jackson e Yvette Mahon da Burma Campaign UK por nunca nos deixarem esquecer que, se o frequentemente degradado grito da democracia significa alguma coisa, o seu verdadeiro teste é a Birmânia. No presente número de Metta, o jornal da campanha, Desmond Tutu relembra­‑nos que Aung San Suu Kyi e o seu partido, a Liga Nacional para a Democracia, ganhou 82 por cento dos assentos parlamentares na eleição de 1990 na Birmânia, o sinal para uma junta militar caçar, prender, torturar e assassinar os vitoriosos, e escravizar grande parte da nação. «Suu Kyi e o povo da Birmânia», escreve Tutu, «não pediram que uma coalizão militar invadisse o seu país. Pediram simplesmente um máximo de pressão diplomática e económica contra os brutais ditadores da Birmânia».

 

Como a resposta do público ao tsunami e à invasão do Iraque mostrou, a divisão que mais rapidamente cresce no mundo é entre as pessoas e aqueles no poder que alegam agir moralmente em seu nome. A Birmânia exemplifica isto. Tomemos a política repugnante da União Europeia. Claramente com um olho no seu vasto mercado asiático, a EU, promotora dos “direitos humanos” quando o preço é adequado, apaziguou vergonhosamente a junta birmanesa. Considerem o que se passa hoje na Birmânia. A violação é usada como uma arma do estado contra mulheres e crianças étnicas. O trabalho forçado está disseminado, descrito pela Organização Internacional do Trabalho da ONU como um «crime contra a humanidade». A junta detém mais de 1350 prisioneiros políticos, muitos dos quais são rotineiramente torturados. Tanto como um milhão de pessoas foram forçadas a abandonar as suas terras. Metade do orçamento nacional é gasto num exército guerreiro e brutal cujo único inimigo é o seu próprio povo, enquanto quase nada é gasto em saúde; um em cada dez bebés birmaneses morrem durante a infância. E a verdadeira líder, eleita numa vitória esmagadora, está encarcerada, levantando­‑se às quatro horas todas as manhãs par meditar nessa injustiça épica.

 

Entretanto, a UE escora o regime ao aumentar as importações, no valor de cerca de 4 mil milhões de dólares entre 1998 e 2002. Em Outubro último, a quinta cimeira do Encontro Ásia­‑Europa (ASEM) foi realizada em Hanói e assistida por representantes da junta pela primeira vez. Em vez de anunciar um boicote, os europeus apareceram e nada disseram. Ou melhor, o presidente da França, Jacques Chirac, disse que esperava que sanções mais fortes não fossem necessárias porque «atingirão as pessoas mais pobres». No lugar de “pessoas mais pobres” leiam Total Oil Company, em parte propriedade do governo francês, o maior investidor estrangeiro na Birmânia, onde a infra­‑estrutura de estradas e caminhos­‑de­‑ferro da companhia de petróleo têm sido há muito objecto de alegações de trabalho forçado. Os euros da Total permitem à junta reequipar o seu estado de terror. «Nenhum dos funcionários da UE que encontrei», diz John Jackson, «nega que o investimento estrangeiro e a despesa militar estão intimamente ligados na Birmânia. Na semana em que o regime recebeu o seu primeiro pagamento por gás a ser canalizado para a Tailândia de um campo de gás operado pela Total Oil, fez um pagamento de 130 milhões de dólares por conta de dez jactos de combate MiG­‑29».

 

Jackson aponta para a farsa das actuais sanções da UE. Depois de tantos como 100 dos apoiantes de Suu Kyi terem sido espancados publicamente até à morte por soldados em 2003, a UE estendeu a sua interdição de visto à junta e a Alemanha congelou não menos do que 86 euros dos bens birmaneses com base na Alemanha. Em contraste, e através da acção directa, a campanha internacional conseguiu obter grandes desinvestimentos, tais como da Premier Oil, da Heineken, da PepsiCo, da British Home Stores. A corrente “lista suja” de investidores inclui as companhias de petróleo Total e Unocal, a Rolls­‑Royce, a Lloyd’s de Londres e as chamadas companhias de viagens prestige como Bales, Road to Mandalay e Orient Express. O popular guia da Lonely Planet é um desafio na lista. A Lonely Planet fez há muito tempo uma figura triste ao alegar, nas palavras de um dos seus escritores, que a Birmânia está «melhor» hoje, e que apesar da junta ser «abominável», «a prisão política, a tortura» e «o serviço civil involuntário ao estado» não são novos e «têm andado por aí há séculos».

 

Digam isso às pessoas de Pagan, a antiga capital, que costumava ter uma população de 4.000. Tendo-lhes sido dadas algumas semanas para sair, as suas casas foram arrasadas com bulldozers e foram obrigadas a caminhar com as armas apontadas até um buraco sem água que é um poço de pó no Verão, e lamacento no Inverno. A sua espoliação foi para abrir caminho aos turistas estrangeiros. «Darei as boas vindas a turistas e investidores», disse Aung San Suu Kyi, «quando formos livres». Há uma abundância de provas de que o turismo estrangeiro beneficiou o regime, não o povo birmanês, e que muita da infra­‑estrutura turística foi construída com «serviço civil involuntário», um eufemismo idiota para trabalho forçado ou completamente escravo.

 

Filmando secretamente na Birmânia há nove anos, encontrei o que poderia ser um cenário da Inglaterra de Dickens. Perto da cidade de Tavoy, no sul, grupos de pessoas estavam a construir um viaduto de caminho­‑de­‑ferro, guardadas por soldados. Estes eram trabalhadores escravos, e muitos eram crianças. Observei uma rapariga pequena num longo vestido azul lutar para empunhar uma enxada maior do que ela, cair para trás exausta, com dores, segurando o seu ombro. «Que idade tens?», perguntei­‑lhe. «Onze», foi a resposta.

 

Tal como não devíamos esquecer as pessoas de Fallujah e Najaf e Bagdade, e Ramallah e Gaza, também não devíamos esquecer esta rapariguinha, e o seu povo, e a sua líder, que pedem os mais básicos direitos e merecem o nosso apoio.

 

A página web da Burma Action Campaign é www.burmacampaign.org.uk.