Informação Alternativa

Mundo

08/12/2004

 

Quão silenciosos estão os invasores “humanitários” do Kosovo?

 

John Pilger

retirado de resistir.info

 

Silenciados pela evidência da catástrofe anglo-americana no Iraque, os responsáveis da guerra “humanitária” internacional deviam ser chamados a prestar contas pela sua já bastante esquecida cruzada no Kosovo, o modelo para a «marcha progressiva de libertação» de Tony Blair. Assim como o Iraque está a ser despedaçado pelas forças imperialistas, também o foi a Jugoslávia, o estado multi-étnico que foi o único a rejeitar ambos os lados durante a guerra fria.

 

Mentiras tão grandes quanto as de Bush e Blair foram propaladas por Clinton e Blair na sua preparação da opinião pública para o ataque ilegal e não provocado àquele país europeu. Tais como as fabricadas para a invasão do Iraque, a cobertura dos media na primavera de 1999 foi uma série de justificações fraudulentas, a começar pela declaração do secretário da Defesa americano William Cohen de que «verificamos agora que desapareceram cerca de 100 mil homens em idade de prestar serviço militar [albaneses]... podem ter sido assassinados». David Scheffer, o embaixador itinerante dos Estados Unidos para os crimes de guerra, anunciou que podiam ter sido mortos «225 mil homens de etnia albanesa com idades compreendidas entre os 14 e os 59 anos». Blair invocou o Holocausto e «o espírito da Segunda Guerra Mundial». A imprensa inglesa seguiu o seu exemplo. «Fuga do genocídio», dizia o Daily Mail. «Ecos do Holocausto», faziam coro o Sun e o Mirror.

 

Em Junho de 1999, terminado o bombardeamento, equipas internacionais de medicina legal iniciaram uma investigação minuciosa no Kosovo. O FBI americano chegou para investigar aquilo a que se chamou «o maior cenário de guerra da história forense do FBI». Algumas semanas mais tarde, não tendo encontrado uma única vala comum, o FBI voltou para casa. A equipa forense espanhola também voltou para casa, tendo-se o seu chefe queixado irritado de que ele e os seus colegas tinham sido envolvidos numa «pirueta semântica pelas máquinas de propaganda da guerra, pois não encontrámos nenhuma – nem uma única – vala comum».

 

Em Novembro de 1999, o Wall Street Journal publicou os resultados da sua própria investigação, desmentindo «a obsessão das valas comuns». Em vez dos «gigantescos campos de morte que alguns investigadores estavam à espera de encontrar... o padrão é de mortes isoladas [a maioria] em áreas onde o Exército de Libertação do Kosovo separatista entrara em acção». O Journal concluiu que a Nato avançou com a sua denúncia dos campos de morte sérvios quando «viu os corpos de imprensa exaustos inclinar-se para a história contrária: civis mortos pelas bombas da Nato»... A guerra no Kosovo foi «cruel, amarga, selvagem; genocídio não foi».

 

Um ano depois, o Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, um organismo criado pela própria Nato, anunciava que a contagem final dos cadáveres encontrados nas "valas comuns" no Kosovo era de 2788. Este número incluía combatentes de ambos os lados assim como sérvios e ciganos assassinados pelo Exército de Libertação do Kosovo albanês. Tal como as inventadas armas de destruição maciça do Iraque, os números usados pelos governos americano e inglês e repetidos pelos jornalistas foram invenções – juntamente com os “campos de violação” sérvios e as declarações de Clinton e de Blair de que a Nato nunca bombardeou civis deliberadamente.

 

Com o nome de código de “Fase Três”, os alvos civis da Nato englobavam transportes públicos, hospitais, escolas, museus e igrejas. Durante o ataque, James Bissel, o embaixador canadiano em Belgrado, disse: «Era do conhecimento público que a Nato avançou para a Fase Três [depois de algumas semanas]. De outro modo, não estariam a bombardear pontes aos domingos à tarde e mercados ao ar livre».

 

Os clientes da Nato eram o Exército de Libertação do Kosovo (ELK). Sete anos antes, o ELK fora classificado pelo Departamento de Estado como uma organização terrorista em ligação com a Al Qaida. Agora, os criminosos do ELK eram festejados; o secretário dos Negócios Estrangeiros Robin Cook autorizou-os a ligarem-lhe para o seu telemóvel. «Os albaneses do Kosovo manipularam-nos a seu bel-prazer», escreveu o comandante da ONU nos Balcãs, Major General Lewis MacKenzie, em Abril passado. «Subsidiámos e apoiámos indirectamente a sua violenta campanha em prol de um Kosovo etnicamente puro. Nunca os censurámos por terem sido os responsáveis da violência no princípio dos anos 90 e continuamos hoje a apresentá­‑los como vítimas apesar das provas em contrário».

 

O despoletar do bombardeamento da Jugoslávia foi, segundo a Nato, a recusa da delegação sérvia em assinar a conferência de paz de Rambouillet. O que ficou por dizer foi que o acordo de Rambouillet tinha um Anexo B secreto, que a delegação de Madeleine Albright inserira à última hora. Este exigia a ocupação militar de toda a Jugoslávia, um país com amargas recordações da ocupação nazi. Tal como Lord Gilbert, o ministro dos Negócios Estrangeiros, admitiu mais tarde perante uma comissão da defesa eleita da Câmara dos Comuns, o Anexo B foi inserido deliberadamente para provocar a rejeição do governo de Belgrado. Quando caíram as primeiras bombas, o parlamento eleito em Belgrado, que incluía alguns dos mais ferozes opositores a Milosevic, rejeitou-o por esmagadora maioria.

 

Igualmente revelador era o capítulo que tratava exclusivamente da economia do Kosovo. Reclamava uma «economia de livre mercado» e a privatização de todos os bens estatais. Como o escritor dos balcãs Neil Clark assinalou, «o problema da Jugoslávia... era ser a última economia no centro-sul da Europa a não estar colonizada pelo capital ocidental. As “empresas de propriedade social”, a forma de auto-gestão dos trabalhadores lançada sob Tito, ainda predominavam. A Jugoslávia tinha na posse pública o petróleo, a exploração mineira, as indústrias de automóveis e de tabaco, e 75 por cento da indústria era de propriedade estatal ou social».

 

Na cimeira de Davos [1] dos líderes neoliberais em 1999, Blair acusou Belgrado, não pela sua gestão no Kosovo, mas pela sua incapacidade para adoptar inteiramente a «reforma económica». Na campanha de bombardeamento que se seguiu, foram mais alvejadas as companhias estatais do que as instalações militares. A destruição pela Nato de apenas 14 tanques jugoslavos pode ser comparada com o bombardeamento de 372 centros industriais, incluindo a fábrica de automóveis Zastava, que deixou sem trabalho centenas de milhares de pessoas. «Não foi bombardeada nenhuma fábrica estrangeira ou privada», escreveu Clark.

 

Erguida sobre os caboucos desta sólida mentira, o Kosovo de hoje é um «mercado livre» de droga e prostituição, violento, administrado criminosamente pelas Nações Unidas. Mais de 200 mil sérvios, ciganos, bósnios, turcos, croatas e judeus foram limpos etnicamente pelo KLA sob o olhar das forças da Nato. Os pelotões de ataque do KLA incendiaram, pilharam ou demoliram 85 igrejas e mosteiros ortodoxos, segundo as Nações Unidas. Os tribunais são venais. «Mataste a tiro a avó de um sérvio, com 89 anos de idade?» gozava um funcionário dos narcóticos das Nações Unidas. «Ainda bem para ti. Sai da cadeia».

 

Embora a Resolução 1244 do Conselho de Segurança reconheça Kosovo como sendo parte integrante da Jugoslávia, e não autorize a administração das Nações Unidas a vender o que quer que seja, as companhias multinacionais estão a receber ofertas de aluguer por 10 e 15 anos das indústrias e recursos locais da província, incluindo as enormes minas Trepca, uma das jazidas minerais mais ricas do mundo [2]. Depois de Hitler as ter conquistado em 1940, as minas forneceram às fábricas de munições alemãs 40 por cento do seu chumbo. A fiscalizar esta «futura democracia» (Blair) espoliada, sanguinária e agora quase etnicamente pura, estão 4.000 soldados americanos no Campo Bondsteel, uma base permanente com 314 hectares.

 

Entretanto, o julgamento de Milosevic desenrola-se como uma farsa, parecido com o simulacro de um julgamento precedente em Haia: o dos líbios acusados da explosão de Lockerbie. Milosevic era um bruto; foi também um banqueiro considerado anteriormente como o homem do ocidente que deveria implementar as «reformas económicas» em consonância com as exigências do FMI, do Banco Mundial e da Comunidade Europeia; para sua desgraça, recusou abdicar da soberania. O império não espera nada menos.

 

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[1] O Fórum Económico Mundial realiza-se anualmente em Davos, na Suíça. Reúne dirigentes das empresas mais ricas do mundo, dirigentes políticos nacionais e alguns intelectuais e jornalistas seleccionados (N.T.)

 

[2] Ler a respeito no IA: Neil Clark, Despojos de uma outra guerra.