Informação Alternativa

Iraque

11/11/2004

 

Faluja, as eleições dos EUA e o 11/Set:

uma questão de normalizar o impensável

 

John Pilger

retirado de resistir.info

 

O importante ensaio de Edward S. Herman, A Banalidade do Mal, nunca pareceu mais adequado. «Fazer coisas terríveis de um modo organizado e sistemático repousa na “normalização”», escreveu Herman. «Há habitualmente uma divisão de trabalho no fazer e no racionalizar o impensável, com a brutalização e morte directas feitas por um conjunto de indivíduos... outros trabalhando para melhorar a tecnologia (um melhor crematório a gás, um napalm mais adesivo e com queima mais prolongada, bombas de fragmentação que penetram a carne em padrões difíceis de detectar). É função dos peritos, e dos media de referência, normalizar o impensável para o público em geral.

 

Hoje (6 de Novembro), na Radio 4, um repórter da BBC em Bagdade referiu-se ao ataque em preparação à cidade de Faluja como “perigoso” e “muito perigoso” para os americanos. Ao ser questionado acerca dos civis ele disse, de modo tranquilizador, que os marines dos EU estavam «a avançar com um alto-falante» dizendo às pessoas para saírem. Ele omitiu dizer que dezenas de milhares de pessoas ficariam na cidade. Mencionou de passagem o «mais intenso bombardeamento» da cidade sem qualquer sugestão do seu significado para as pessoas debaixo das bombas.

 

Quanto aos defensores, aqueles iraquianos que resistem numa cidade que desafiou heroicamente Saddam Hussein, eles eram meros «insurrectos enfiados na cidade», como se fossem um corpo estranho, uma forma menor de vida a ser «varrida» (The Guardian): um terreno adequado para “caçadores de ratos”, que é a expressão que outro repórter da BBC nos disse ser utilizada pela Guarda Negra (Black Watch) britânica. Segundo um oficial superior britânico, os americanos vêem os iraquianos como untermenschen, um termo utilizado por Hitler no Mein Kampf para descrever judeus, romenos e eslavos como sub­‑humanos. Foi assim que o exército nazi colocou cidades russas sob cerco, massacrando combatentes e não-combatentes de igual modo.

 

Normalizar crimes coloniais como o ataque a Faluja requer tal racismo, unindo a nossa imaginação ao “outro”. O tema das reportagens é que os “insurrectos” são conduzidos por sinistros estrangeiros da espécie que decapita pessoas: por exemplo, Musab al-Zarqawi, um jordaniano que se diz ser o “chefe operacional” da Al-Qaeda no Iraque. Isto é o que os americanos dizem; é também a mentira mais recente de Blair ao parlamento. Contém as vezes que isto foi papagueado diante de uma câmara, para nós ouvirmos. Nenhuma ironia é observada no facto de que os estrangeiros no Iraque são esmagadoramente americanos e, segundo todas as indicações, odiados. Estas indicações vêm de organizações de inquéritos aparentemente críveis, uma das quais estima que dos 2700 ataques mensais da resistência, seis podem ser creditados ao infame al-Zarqawi.

 

Numa carta enviada a 14 de Outubro a Kofi Annan, o Conselho Shura de Faluja, que administra a cidade, afirma: «Em Faluja, [os americanos] inventaram um novo alvo vago: al-Zarqawi. Quase um ano decorreu desde que eles criaram este novo pretexto e sempre que destroem casas, mesquitas, restaurantes e matam crianças e mulheres dizem: “Lançámos uma operação com êxito contra al-Zarqawi”. O povo de Faluja assegura que esta pessoa, se ela existe, não está em Faluja... e não temos ligações a quaisquer grupos que apoiem comportamento tão desumano. Apelamos a si e urgimos as Nações Unidas [a impedirem] o novo massacre que os americanos e o governo fantoche estão a planear começar em breve em Faluja, bem como em muitas partes do país». Nem uma palavra acerca disto foi relatada nos media de referência [mainstream] da Grã-Bretanha e dos EUA.

 

«O que será preciso para sacudi-los do seu silêncio enganador?» perguntou em Abril o dramaturgo Ronan Bennett, depois de os marines dos EU, num acto de vingança colectiva pela morte de quatro mercenários americanos, terem morto mais de 600 pessoas em Faluja, número esse que nunca foi desmentido. Então, tal como agora, eles utilizaram o feroz poder de fogo da artilharia dos AC-130 e dos caça­‑bombardeiros F-16 e das bombas de 500 libras (227 kg) contra tugúrios. Eles incineraram crianças; os seus franco­‑atiradores (snipers) jactaram-se de matar qualquer um, tal como o fizeram os franco­‑atiradores em Sarajevo.

 

Bennett referia-se à legião de silenciosos deputados trabalhistas que se sentam no fundo do parlamento, com honrosas excepções, e os lobotomizados ministros júnior (lembram-se de Chris Mullin?). Ele poderia ter acrescentado aqueles jornalistas que se esforçam de todas as maneiras por proteger o “nosso” lado, que normalizam o impensável ao não fazerem o mínimo gesto perante a imoralidade e a criminalidade demonstráveis. Naturalmente, ficar chocado com o que “nós” fazemos é perigoso, porque isto pode levar a um entendimento mais vasto da razão porque “nós” estamos ali e do sofrimento que “nós” causamos não só aos iraquianos como também em muitas partes do mundo onde o terrorismo da al-Qaeda é diminuto em comparação com o nosso. Não há nada ilícito neste encobrimento; ele acontece à luz do dia. O exemplo recente mais gritante seguiu-se ao anúncio, em 29 de Outubro, pela prestigiosa revista científica Lancet, de um estudo no qual estimava que 100.000 iraquianos haviam morrido como resultado da invasão anglo-americana. Oitenta e quatro por cento das mortes foram causadas pelas acções dos americanos e dos britânicos, e 95 por cento destas foram mortas por ataques aéreos e fogo de artilharia, a maior parte das quais eram mulheres e crianças.

 

Os editores do excelente MediaLens observaram a pressa – não, a corrida – para adoçar esta notícia chocante com “cepticismo” e silêncio (mediaLens.org). Eles relataram que, em 2 de Novembro, o relatório do Lancet fora ignorado pelo Observer, Telegraph, Sunday Telegraph, Financial Times, Star, Sun e muitos outros. A BBC estruturou o relato em termos de “dúvidas” do governo e o noticiário do Channel 4 apresentou um trabalho alinhavado com base em informações da Downing Street. Com uma excepção, a nenhum dos cientistas que compilou este relato rigorosamente revisto por outros cientistas foi pedido que consubstanciasse o seu trabalho até dez dias depois, quando o pró-guerra Observer publicou uma entrevista com o editor do Lancet, tergiversando tanto que parecia estar a “responder aos seus críticos”. David Edwards, editor do MediaLens, pediu aos investigadores para responder às críticas dos media; a sua meticulosa demolição pode ser vista em www.medialens.org no alerta de 2 de Novembro. Nada disto foi publicado no media de referência [mainstream]. Assim, o facto impensável de que “nós” nos havíamos engajado em tal carnificina foi suprimido – normalizado. Isto recorda a supressão da morte de mais de um milhão de iraquianos, incluindo meio milhão de crianças abaixo dos cinco anos, em resultado do embargo conduzido pelos anglo-americanos.

 

Em contraste, não há qualquer questionamento dos media quanto à metodologia do Tribunal Especial Iraquiano, o qual anunciou que sepulturas em massa contêm 300.000 vítimas de Saddam Hussein. O Tribunal Especial, um produto do regime quisling de Bagdade, é dirigido pelos americanos; cientistas respeitados nada querem ter a ver com ele. Não há questionamento daquilo a que a BBC chama «primeiras eleições democráticas do Iraque». Não há relatos acerca de como os americanos assumiram o controle do processo eleitoral com dois decretos aprovados em Junho que permitem a uma “comissão eleitoral” eliminar partidos de que Washington não goste. A revista Time relata que a CIA está a comprar os seus candidatos preferidos, o que é a maneira como a agência conserta eleições por todo o mundo. Quando ou se as eleições tiverem lugar, seremos submergidos por clichés acerca da nobreza do acto de votar, enquanto os fantoches da América são “democraticamente” escolhidos.

 

O modelo para isto foi a “cobertura” da eleição presidencial americana, um vendaval de trivialidades a normalizarem o impensável de que o que se verificou a 2 de Novembro não foi a democracia em acção. Com apenas uma excepção, nenhum membro do rebanho de sábios vindos de Londres descreveu o circo de Bush e de Kerry como a maquinação de pouco mais do que 1 por cento da população, os ultra­‑ricos e poderosos que controlam e administram uma economia de guerra permanente. Que os perdedores não foram somente os democratas, mas sim a vasta maioria dos americanos, sem importar em quem votaram, era algo imencionável.

 

Ninguém relatou que John Kerry, ao contrastar a “guerra ao terror” com o desastroso ataque de Bush ao Iraque, simplesmente explorou a desconfiança pública em relação à invasão a fim de construir apoio à dominação americana por todo o mundo. «Não estou a falar em abandonar [o Iraque]», disse Kerry. «Estou a falar em vencer!». Assim, tanto ele como Bush mudaram a agenda ainda mais para a direita, de modo que milhões de democratas anti-guerra pudessem ser persuadidos de que os EUA tinham «a responsabilidade de acabar a tarefa» para que não houvesse o “caos”. A questão na campanha presidencial era nem Bush nem Kerry, mas uma economia de guerra destinada a conquistar o exterior e a efectuar divisão económica interna. O silêncio sobre isto foi completo, tanto na América como aqui.

 

Bush venceu apelando, com mais proficiência do que Kerry, ao medo de uma mal definida ameaça. Como foi ele capaz de normalizar esta paranóia? Vamos olhar para o passado recente. A seguir ao fim da guerra fria, a elite americana – republicanos e democratas – estava a ter grande dificuldade em convencer o público de que os milhares de milhões de dólares gastos na economia de guerra não deveriam ser desviados para um “dividendo da paz”. Uma maioria de americanos recusava-se a acreditar que ainda houvesse uma “ameaça” tão poderosa como a ameaça vermelha. Isto não impediu Bill Clinton de enviar ao Congresso o maior orçamento de “defesa” da história para apoiar uma estratégia do Pentágono denominada «dominância de pleno espectro». Em 11 de Setembro de 2001 foi dado um nome a essa ameaça: Islão.

 

Ao viajar recentemente a Philadelphia deparei-me com o Relatório Kean do Congresso sobre o 11 de Setembro, à venda na prateleira das livraria. «Quantos você tem para vender?» perguntei. «Um ou dois», foi a resposta. «Isto vai desaparecer logo». Todavia, este modesto livro de capa azul é uma revelação. Tal como o relatório Butler no Reino Unido, que pormenoriza toda a evidência incriminatória do amanhamento da inteligência feito por Blair antes da invasão do Iraque, e a seguir retirou as suas luvas e concluiu que ninguém era responsável, da mesma forma o relatório Kean torna dolorosamente claro o que realmente aconteceu, e a seguir deixa de tirar as conclusões que o fitam na cara. É um supremo acto de normalizar o impensável. Isto não é surpreendente, pois as conclusões são vulcânicas.

 

A mais importante prova para a Comissão 11/Set veio do general Ralph Eberhart, comandante da North American Aerospace Defence Command (Norad). «Os caças a jacto da força aérea podiam ter interceptado aviões de carreira sequestrados a correrem em direcção ao World Trade Center e ao Pentágono», disse ele, «se ao menos os controladores de tráfego aéreo houvessem pedido ajuda 13 minutos mais cedo... Nós teríamos sido capazes de derrubar todos os três... todos os quatro deles».

 

Por que é que isto não aconteceu?

 

O relatório Kean torna claro que «a defesa do espaço aéreo americano no 11/Set não foi conduzida de acordo com o treinamento pré-existente e com os protocolos... Se um sequestro fosse confirmado, os procedimentos determinavam ao coordenador do sequestro o dever de contactar o National Military Command Center (NMCC)... O NMCC pediria então a aprovação do gabinete do secretário da Defesa para proporcionar assistência militar...» Singularmente, isto não aconteceu. Foi dito à comissão, pelo vice-administrador da Autoridade Federal de Aviação, que não havia razão para o procedimento não estar a operar naquela manhã. «De acordo com os meus 30 anos de experiência...» disse Monte Belger, «o NMCC estava na rede e a ouvir tudo em tempo real ... Posso afirmar-lhe que vivi dúzias de sequestros... e eles estavam sempre a ouvir com todos os outros». Mas nesta ocasião, eles não estavam. O relatório Kean diz que o NMCC nunca foi informado. Porquê? Mais uma vez, singularmente, todas as linhas de comunicação falharam, foi dito à comissão pelas altas patentes militares da América. Donald Rumsfeld, secretário da Defesa, não podia ser encontrado, e quando ele finalmente falou com Bush uma hora e meia mais tarde, foi, diz o relatório Kean, «uma chamada breve na qual o assunto da autoridade para derrubar não foi discutido». Em resultado disso, os comandantes do Norad foram «deixados no escuro acerca do que era a sua missão».

 

O relatório revela que a única parte do sistema de comando, anteriormente à prova de falhas, que funcionou estava na Casa Branca, onde o vice-presidente Cheney estava no controle efectivo naquele dia, e em contacto estreito com o NMCC. Porque é que ele nada fez acerca dos primeiros dois aviões sequestrados? Porque é que o NMCC, a ligação vital, esteve silencioso pela primeira na sua existência? Kean ostentosamente recusa-se a falar disto. Naturalmente, podia ser devido à mais extraordinária combinação de coincidências. Ou não podia. Em Julho de 2001, num documento de informação top secret preparado para Bush lia-se: «Nós [a CIA e o FBI] acreditamos que OBL [Osama Bin Laden] lançará um ataque terrorista significativo contra os interesses dos EUA e/ou de Israel nas próximas semanas. O ataque será espectacular e concebido para infligir baixas em massa contra instalações ou interesses americanos. Os preparativos do ataque foram efectuados. O ataque ocorrerá com pequena ou nenhuma advertência».

 

Na tarde do 11 de Setembro, Donald Rumfeld, tendo deixado de actuar contra aqueles que haviam acabado de atacar os Estados Unidos, disse aos seus ajudantes para porem em movimento um ataque ao Iraque - quando a evidência era não existente. Dezoito meses depois, a invasão do Iraque, não provocada e baseada em mentiras agora documentadas, teve lugar. Este crime épico é o maior escândalo político do nosso tempo, o último capítulo na longa história do século XX de conquistas ocidentais de outras terras e dos seus recursos. Se permitirmos que isto seja normalizado, se recusarmos questionar e investigar as agendas escondidas e o inexplicável poder secreto das estruturas no coração dos governos “democráticos” e se permitirmos que o povo de Faluja seja esmagado em nosso nome, nós renunciaremos tanto à democracia como à humanidade.