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26/10/2004 Haverá uma guerra contra o
mundo após 2 de Novembro? retirado de resistir.info Há algo surrealista em
visitar os Estados Unidos nos últimos dias da campanha presidencial. Se
George W. Bush ganhar, segundo um cientista com que me encontrei, o qual
escapou da Europa dominada pelos nazis, os EUA entregarão muitos dos seus
enfeites democráticos e sucumbirão aos seus impulsos totalitários. Se John
Kerry vencer, segundo a maior parte dos eleitores democratas, o único mandato
que terá é que ele não é Bush. Nunca tantas mãos liberais
foram tão forçadas sobre um candidato cujas únicas declarações memoráveis é
de que aspira a ser outro Bush. Veja-se o Irão. Uma das conselheiras de
segurança nacional de Kerry, Susan Rice, acusou Bush de “permanecer de lado
enquanto o programa nuclear do Irão avançava”. Não há nem um fragmento de
evidência de que o Irão esteja a desenvolver armas nucleares, mas Kerry está
a juntar-se ao mesmo frenesim orquestrado que conduziu à invasão do Iraque.
Tendo principiado a sua campanha a prometer mais 40 mil soldados para o
Iraque, diz-se que ele tem um “plano secreto para acabar a guerra” o qual
prevê uma retirada em quatro anos. Isto é um eco de Richard Nixon, que na
campanha presidencial de 1968 prometeu um “plano secreto” para acabar com a
guerra no Vietname. Uma vez no gabinete, ele acelerou a carnificina e a
guerra arrastou-se por mais seis anos e meio. Para Kerry, tal como para
Nixon, a mensagem é que não é um fraco. Nada na sua campanha ou na sua
carreira sugere que ele não continuará, e mesmo intensificará, a “guerra ao
terror”, a qual é agora santificada como uma cruzada de americanismo tal como
aquela contra o comunismo. Nenhum presidente democrata se esquivou a tal
tarefa: John Kennedy na guerra fria, Lyndon Johnson no Vietname. Isto representa um grande
perigo para todos nós, mas não se permite que nada disto interfira na
campanha ou na “cobertura” dos media. Numa sociedade supostamente livre e
aberta, o grau de censura por omissão é estarrecedor. O New York Times,
o porta-bandeira liberal do país, tendo-se recuperado de um suave ataque de
contrição pela sua falha abjecta em desafiar as mentiras de Bush sobre o
Iraque, tem estado a publicar polegadas de coluna sobre o-que-houve-de-errado
na “libertação” daquele país. Ele culpa erros: equívocos tácticos, falhas de
inteligência. Mas nem uma palavra sugere que a invasão foi uma conquista
colonial, deliberada como qualquer outra, e que sessenta anos de direito
internacional fazem disto “o supremo crime de guerra”, para citar os juizes
de Nuremberg. Nem uma palavra sugere que a carnificina americana da população
do Iraque foi e é uma atrocidade sistemática, na qual a tortura de
prisioneiros em Abu Ghraib foi um simples reflexo. A atrocidade em curso na
cidade de Faluja, na qual tropas britânicas, contra a opinião do povo
britânico, vão ser acessórias, é um bom exemplo. Para os políticos e
jornalistas americanos – há umas poucas excepções honrosas – os US marines
estão a preparar-se para mais uma das suas “batalhas”. O seu último ataque
contra Faluja, em Abril, proporcionou uma visão prévia. Tanques de quarenta
toneladas e helicópteros armados foram utilizados contra bairros de casebres.
Aviões despejaram bombas de 500 libras (226,5 kg), atiradores de elite (snipers)
mataram pessoas idosas, mulheres e crianças, ambulâncias foram alvejadas. Os
marines fecharam o único hospital numa cidade de 300 mil habitantes durante
mais de duas semanas, de modo a que pudessem utilizá-lo como posição militar.
Quando se estimou que eles tivessem abatido 600 pessoas, não houve qualquer
desmentido. Isto foi mais do que todas as vítimas das bombas suicidas no ano
anterior. Nem tão pouco eles negaram que a sua barbaridade era uma vingança
pela morte de quatro mercenários americanos na cidade; conduzidos por cowboys
confessos, eles são especialistas em vingança. John Kerry nada disse; os media
relataram a atrocidade como “uma operação militar”, contra “militantes
estrangeiros” e “insurrectos”, nunca contra civis e iraquianos a defenderem
os seus lares e a sua pátria. Além disso, o povo americano está quase
totalmente inconsciente de que os marines foram expulsos de Faluja através de
combates de rua heróicos. Os americanos permanecem inconscientes, também, da
pirataria que decorre da aventura assassina do seu governo. Quem na vida
pública pergunta o paradeiro dos 18,46 mil milhões de dólares que o Congresso
americano aprovou para a reconstrução e a ajuda humanitária ao Iraque? Como
relata a Unicef, a maior parte dos hospitais estão privados até mesmo de
analgésicos, e a desnutrição aguda entre crianças duplicou desde a “libertação”.
De facto, menos de 29 milhões de dólares foram atribuídos, a maior parte
disto a firmas de segurança britânicas, com os seus criminosos ex-SAS e
veteranos do apartheid da África do Sul. Onde está o resto deste dinheiro que
deveria estar ajudando a salvar vidas? O não-fraco Kerry não ousa perguntar. Nem
tão pouco ele ou qualquer pessoa com um perfil público perguntam porque o
povo do Iraque foi forçado a pagar, desde a queda de Saddam, quase 80 milhões
de dólares aos EUA e à Grã-Bretanha como “reparações”. Mesmo Israel recebeu
uma fortuna incontável em dinheiro do petróleo iraquiano como compensação
pelas suas “perdas de turismo” nas Colinas de Golan – parte da Síria que
ocupa ilegalmente. Quanto ao petróleo, tal palavra é imencionável na
competição pelo mais poderoso emprego do mundo. A resistência, na sua
campanha de sabotagem económica, tem tido tanto êxito que o oleoduto vital
que transporta petróleo para o Mediterrâneo turco foi explodido 37 vezes. Os
terminais no sul estão sob ataque constante, fechando efectivamente todas as
exportações de petróleo bruto e ameaçando economias nacionais. O facto de que
o mundo possa ter perdido o petróleo iraquiano é envolto no mesmo silêncio
que assegura que os americanos têm
uma escassa ideia da natureza e da escala da permissividade para derramar
sangue conduzida em seu nome. O silêncio mais duradouro é o
que protege o sistema produtor destes eventos catastróficos. Ou seja, o
americanismo, apesar de não ousar dizer o seu nome, o que é estranho pois o
seu oposto, o anti-americanismo, tem há muito sido exibido com êxito como uma
expressão pejorativa, uma resposta que dá para tudo em análises críticas do
sistema imperial e dos seus mitos. O americanismo, a ideologia, tem
significado democracia interna, para alguns, e uma guerra à democracia no
exterior. Da Guatemala ao Irão, do Chile à Nicarágua, à luta pela liberdade
na África do Sul, nos dias presentes na Venezuela, o terrorismo de Estado
americano, licenciado tanto pelas administrações republicanas como
democratas, combateu democratas e patrocinou totalitários. A maior parte das sociedades
atacadas ou subvertidas de outra forma pelo poder americano são fracas e sem
defesa, e há uma lógica nisto. Se um pequeno país tivesse êxito em tornar-se
livre e estabelecer o seu próprio caminho de desenvolvimento, então o seu bom
exemplo para os outros tornar-se-ia uma ameaça para Washington. E as graves
intenções por trás disto? Madeleine Albright, a secretária de Estado de Bill
Clinton, disse certa vez nas Nações Unidas que os EUA tinham direito ao «uso
unilateral do poder» para assegurar «acesso não inibido a mercados chave,
abastecimento de energia e recursos estratégicos». Ou como Colin Powell, o
risível Bushita promovido pelos media a liberal, colocou há mais de uma
década: «Quero ser o valentão (bully) do bairro». Os imperialistas da
Grã-Bretanha acreditavam exactamente nisso, e ainda acreditam, só que a
linguagem é discreta. É por isso que os povos de todo o mundo, cuja consciência sobre estes assuntos se tem elevado agudamente nos últimos poucos anos, são “anti-americanos”. Isto nada tem a ver com as pessoas comuns dos Estados Unidos, que agora observam um capitalismo darwiniano consumir as suas liberdades reais e lendárias e reduzir o “mercado livre” a uma liquidação em saldos de activos públicos. É notável, se não inspirador, que tantos rejeitem a lavagem cerebral baseada na classe e na raça, principiada na infância, e que esse sistema baseado numa classe e raça se chame “o sonho americano”. O que acontecerá se o pesadelo no Iraque prosseguir? Talvez aqueles milhões de americanos preocupados, que actualmente estão paralisados pelo desejo de se livrarem de Bush a qualquer preço, se desvencilhem da sua ambivalência, sem se importar com quem vence em 2 de Novembro. Será, então, que despertará um gigante, tal como aconteceu durante a campanha dos direitos civis e a guerra do Vietname e o grande movimento pelo congelamento de armas nucleares? Devemos confiar que sim; a alternativa é uma guerra ao mundo. |