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11/10/2004 Roubando uma nação *: Como os britânicos e os EU
expulsaram uma população inteira Há momentos em que uma
tragédia, um crime nos diz como todo um sistema funciona por detrás da sua
fachada democrática e nos ajuda a entender quanto do mundo é governado para o
benefício dos poderosos e como os governos mentem. Para entender a catástrofe
do Iraque, e todos os outros Iraques ao longo do rastro de sangue e lágrimas da
história imperial, não precisamos de olhar mais longe do que Diego Garcia. A história de Diego Garcia é
chocante, quase incrível. Uma colónia britânica situada a meio caminho entre
a África e a Ásia no Oceano Índico, a ilha é uma de 64 ilhas de coral únicas
que formam o arquipélago Chagos, um fenómeno de beleza natural, e outrora de
paz. Os locutores referem‑se a ela de passagem: «B-52 americanos e bombardeiros
furtivos descolaram ontem à noite da ilha britânica inabitada de Diego Garcia
para bombardear o Iraque (ou o Afeganistão)». É a palavra inabitada que abre
a porta sobre o horror do que lá foi feito. Nos anos 70, o ministro de defesa
de Londres produziu esta épica mentira: «Não há nada nos nossos ficheiros
sobre uma população e uma evacuação». Diego Garcia foi povoada pela
primeira vez no final do século dezoito. Pelo menos 2000 pessoas viviam ali:
uma gentil nação crioula com vilas prósperas, uma escola, um hospital, uma
igreja, uma prisão, um caminho‑de‑ferro, docas, uma plantação
de copra. Vendo um filme rodado por missionários nos anos 60, posso entender
porque é que cada natural das ilhas Chagos que encontrei lhes chama paraíso;
há uma sequência granulada onde os cães amados pelos habitantes das ilhas estão
a nadar na lagoa abrigada, orlada de palmeiras, apanhando peixe. Tudo isto começou a findar
quando um almirante‑à‑ré norte‑americano pôs o pé em
terra em 1961 e Diego Garcia foi assinalada como o local do que é hoje uma
das maiores bases americanas do mundo. Há agora mais de 2000 tropas,
ancoragem para 30 navios de guerra, um depósito nuclear, uma estação de
espionagem por satélite, centros comerciais, bares, um campo de golfe. Os
americanos chamam‑lhe “Campo Justiça”. Durante os anos 60, em alto
secretismo, o governo trabalhista de Harold Wilson conspirou com duas
administrações norte‑americanas para «varrer» e «sanitarizar» as ilhas:
as palavras usadas em documentos norte‑americanos. Ficheiros
encontrados nos Arquivos Nacionais em Washington e no Gabinete de Registos Públicos
em Londres fornecem uma narrativa espantosa de mentira oficial demasiado
familiar para aqueles que fizeram a crónica das mentiras sobre o Iraque. Para se ver livre da população,
o ministério dos negócios estrangeiros inventou a ficção de que os habitantes
das ilhas eram apenas meros trabalhadores contratados em trânsito que podiam
ser “reenviados” para as Maurícias, a um milhar de milhas de distância. Na
verdade, muitos habitantes das ilhas traçaram a sua ancestralidade a cinco
gerações atrás, como os seus cemitérios testemunham. O objectivo, escreveu um
funcionário do ministério dos negócios estrangeiros em 1966, «é converter
todos os residentes existentes... em residentes de curto prazo, temporários». O que os ficheiros também
revelam é uma imperiosa atitude de brutalidade. Em Agosto de 1966, Sir Paul
Gore‑Booth, subsecretário permanente nos negócios estrangeiros,
escreveu: «Temos seguramente de ser muito duros acerca disto. O objectivo do
exercício foi obter alguns rochedos que permanecerão nossos. Não haverá
população indígena, a não ser de gaivotas». No final há uma nota escrita pela
mão de D. H. Greenhill, mais tarde barão Greenhill: «Juntamente com os pássaros
vão alguns Tarzans e Sextas Feiras...» Sob o título “Mantendo a ficção”,
outro funcionário insta os seus colegas a reclassificar os habitantes das
ilhas como «população flutuante» e a «inventar as regras à medida que
avançamos». Não há uma palavra de
preocupação pelas suas vítimas. Apenas um funcionário pareceu preocupar‑se
em ser apanhado, escrevendo que era «razoavelmente insatisfatório» que
«proponhamos certificar as pessoas, mais ou menos fraudulentamente, como
pertencendo a outro lugar». Os documentos não deixam dúvidas que o
encobrimento foi aprovado pelo primeiro‑ministro e pelo menos três
ministros do gabinete. A princípio, os habitantes das
ilhas foram enganados e intimidados para sair; aqueles que tinham ido às Maurícias
para tratamento médico urgente foram impedidos de voltar. À medida que os
norte‑americanos começaram a chegar e a construir a base, Sir Bruce
Greatbatch, governador das Seychelles que tinha sido encarregado de «sanitarizar»,
ordenou que todos os cães de Diego Garcia fossem mortos. Quase um milhar de
animais de estimação foram apanhados e gaseados, usando os fumos de escape de
veículos militares norte‑americanos. «Eles puseram os cães numa
fornalha onde as pessoas trabalhavam», disse Lizette Tallate, agora nos seus
60, «... e quando os seus cães foram levados à sua frente, as nossas crianças
gritaram e choraram». Os habitantes das ilhas
tomaram isto como um aviso; e a população remanescente foi carregada em
navios, autorizada a levar apenas uma mala. Deixaram para trás as suas casas
e mobília, e as suas vidas. Numa viagem nos mares tempestuosos, os cavalos da
companhia de copra ocuparam o convés, enquanto mulheres e crianças eram
forçados a dormir sobre uma carga de fertilizante de pássaro. Ao chegar às
Seychelles, foram encaminhados encosta acima para uma prisão onde foram
retidos até serem transportados para as Maurícias. Aí, foram despejados nas
docas. Nos primeiros meses do seu exílio,
enquanto lutavam para sobreviver, suicídios e mortes de crianças eram comuns.
Lizette perdeu duas crianças. «O doutor disse que não pode tratar a tristeza»,
relembrou. Rita Bancoult, agora com 79 anos, perdeu duas filhas e um filho;
disse‑me que quando disseram ao seu marido que a família nunca poderia
voltar a casa, sofreu um ataque e morreu. Desemprego, drogas e prostituição, todos
estranhos à sua sociedade, assolaram‑nos. Somente após mais de uma década
receberam qualquer compensação do governo britânico: menos de 3.000 libras cada,
o que não cobriu as suas dívidas. O comportamento do governo
Blair é, em muitos aspectos, o pior. Em 2000, os naturais das ilhas ganharam
uma batalha histórica no Supremo Tribunal, que decretou que a sua expulsão
foi ilegal. Algumas horas após o julgamento, o ministério dos negócios
estrangeiros anunciou que não seria possível que voltassem para Diego Garcia
por causa de um “tratado” com Washington – na verdade, um acordo escondido do
Parlamento e do Congresso dos EU. Quanto aos outros naturais das ilhas no
grupo, um «estudo de viabilidade» iria determinar se seriam reinstalados.
Isto foi descrito pelo professor David Stoddart, uma autoridade mundial sobre
as Chagos, como «inútil» e «uma perfeita charada». O “estudo” não consultou
um único natural das ilhas; concluiu que as ilhas se estavam a “afundar”, o
que eram histórias para os norte‑americanos, os quais estavam a
construir mais e mais instalações na base; a marinha dos EU descreve as
condições de vida como tão excepcionais que são «inacreditáveis». Em 2003, num caso seguinte no
Supremo tribunal, agora publicitado, foi negada uma compensação aos naturais
das ilhas, tendo sido permitido à defesa governamental pelo juiz atacá‑los
e humilhá‑los na cadeira das testemunhas, e com o juiz Ousley a
referir‑se a «nós» como se o tribunal e o ministério dos negócios
estrangeiros estivessem do mesmo lado. Em Junho passado, o governo invocou a
arcaica prerrogativa real em ordem a esmagar o julgamento de 2000. Foi emitido
um decreto dizendo que os naturais das ilhas estavam banidos para sempre de
voltar a casa. Estes eram os mesmos poderes totalitários usados para os
expulsar em segredo há 40 anos atrás; Blair usou‑os para autorizar o
seu ataque ilegal ao Iraque. Conduzidos por um homem notável,
Olivier Bancoult, um electricista, e apoiados por um tenaz e valente advogado
londrino, Richard Gifford, os naturais das ilhas, vão para o Tribunal Europeu
e talvez mais longe. O artigo 7 do estatuto do Tribunal Criminal
Internacional descreve a «deportação e transferência forçada de população... por
expulsão ou outros actos coercivos» como um crime contra a humanidade. Enquanto
os bombardeiros de Bush descolam do seu paraíso, os naturais das ilhas
Chagos, diz Olivier Bancoult, «não deixarão este grande crime passar. O mundo
está a mudar; vamos ganhar». ____________ * O documentário de John Pilger, Stealing a nation [Roubando uma nação], foi mostrado na ITV Network na Grã‑Bretanha. |