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Outubro 2004 Como produzir cidadãos
consumidores, mal-informados e
conformistas John Pilger * Le Monde
Diplomatique – Edição Brasileira «Qualquer um que conheça a
história sabe que a desobediência é a virtude original do homem.» Oscar Wilde Em viagem pelos EUA, um
grupo de soviéticos espantou‑se porque todos as notícias sobre as
questões essenciais eram mais ou menos idênticas. «No nosso país, para obter
esse resultado temos uma ditadura, prendemos pessoas, arrancamos as suas
unhas. Aqui, vocês não têm nada disso. Então, qual é o vosso segredo? Como
vocês fazem?» Uma das minhas citações
favoritas é do jornalista norte-americano T. D. Allman: «O jornalismo
autenticamente objectivo é aquele que não só descreve exactamente os factos,
mas apreende o significado dos acontecimentos. Persuasivo hoje, ele sobrevive
à prova do tempo. É ratificado por “fontes confiáveis”, mas também pelo
desenrolar da história. Dez, vinte, cinquenta anos depois dos factos, ele
reflecte ainda uma imagem inteligente e fiel dos acontecimentos». Allman escreveu esse texto em
homenagem a Wilfred Burchett, que morreu em 1983, cuja carreira
extraordinária e frequentemente movimentada comporta o que foi descrito como
o “furo do século”. Enquanto, em 1945, centenas de “jornalistas embarcados”
para o Japão pelas forças aliadas de ocupação foram conduzidos em tropas para
a teatral cerimónia de rendição, Burchett, em suas próprias palavras, soltou
a sua coleira, para realizar uma viagem perigosa com destino a um lugar a
partir de então gravado nas consciências humanas: Hiroshima. Primeiro
jornalista ocidental a entrar na cidade após o bombardeio, a sua reportagem
de primeira página no Daily Express de Londres tinha essa manchete
profética: “Escrevi isso como um alerta para o mundo”. O alerta dizia respeito aos
efeitos nefastos da radioactividade cuja existência era, então, negada pelas
autoridades da ocupação. Burchett foi acusado, particularmente por alguns dos
seus colegas que participaram da propaganda e dos ataques orquestrados contra
ele. Independente e corajoso, ele tinha mostrado a guerra nuclear com todo o
seu horror. O “desenrolar da história” deu-lhe razão. 15
anos de prisão Porque é que esse tipo de
jornalismo é tão precioso? É que, sem ele, não teríamos mais palavras para
expressar o sentimento de injustiça e ninguém iria dispor das armas da
informação para combater essa injustiça. O enunciado de Orwell, segundo o
qual «para ser corrompido pelo totalitarismo, não é necessário viver num país
totalitário», seria então aplicável. Em 2003, quando o Parlamento
turco votou contra as exigências de Washington e dos generais turcos, ele
levava em conta a oposição esmagadora da população à participação do seu país
na invasão do Iraque. Isso representa uma manifestação sem precedentes de
verdadeira democracia num país com assassinos obscuros. Foi também, em grande
medida, fruto do trabalho dos jornalistas que tinham aberto o caminho,
desvendando os crimes do Estado, particularmente a repressão relativa aos
curdos. O editor de Ozgur Gundem (Agenda livre), Ocar Isik Yurtcu, por
exemplo, purga 15 anos de prisão por ter enfrentado uma lei em virtude da
qual todas as reportagens sobre a repressão e a rebelião na Turquia
constituem propaganda ou “incitação ao ódio racial”. Ele é vítima típica das
leis utilizadas contra os que desafiam o Estado e os militares. Na Europa, nos Estados
Unidos, no Canadá e na Austrália, os jornalistas não arriscam a sua vida com
frequência. O escritor Simon Louvish conta a surpresa de um grupo de
soviéticos em viagem pelos Estados Unidos na época da guerra fria. Após terem
lido os jornais e assistido à TV, eles declararam‑se espantados porque
todos as notícias sobre as questões essenciais eram mais ou menos idênticas.
Eles perguntavam‑se por que «Em nosso país, para obter esse resultado
temos uma ditadura, prendemos pessoas, arrancamos as suas unhas. Aqui, vocês
não têm nada disso. Então, qual é o vosso segredo? Como vocês fazem?” As
previsões de Orwell Na introdução de Revolução
dos bichos, Orwell descreve como a censura nas sociedades livres é
infinitamente mais sofisticada e minuciosa do que nas ditaduras: «As ideias
impopulares podem ser passadas em silêncio e os factos incómodos permanecer
na sombra sem necessidade de nenhuma proibição oficial». Meio século se
passou e a mensagem nada perdeu da sua precisão. Nada disso sugere uma
“conspiração”. Ela nunca é necessária. Os jornalistas e os apresentadores de
TV não são diferentes dos historiadores e dos professores: eles interiorizam
as prioridades, as modas e as conveniências do poder estabelecido. Como
alguns dirigentes nas altas esferas do poder, eles são direccionados ou
preparados para descartarem as dúvidas muito devastadoras. Quando o
cepticismo é estimulado, não o é em relação ao sistema, mas à competência dos
que o dirigem, ou às reacções populares tais como os jornalistas as percebem. Na imprensa de Robert Murdoch
na BBC, as regras não declaradas do clube da mídia moderna não variam muito.
Os limites invisíveis das “informações” permitem que falsas premissas passem
por bom senso ou que as fraudes oficiais sejam difundidas e ampliadas. A
sorte de sociedades inteiras é decidida de acordo com a sua utilidade para
“nós”, termo frequentemente utilizado pelo poder ocidental, e que veicula a
sua porção de narcisismo, de linguagem equivocada e de omissões abertas. Bons
e maus terroristas, vítimas dignas ou não de interesse. Essa ortodoxia,
explica Richard Falk, professor de relações internacionais na Universidade de
Princeton, é transmitida «através de um anteparo moral e legal em um único
sentido. Uma imagem positiva dos valores ocidentais e de uma inocência
ameaçada justifica uma campanha de violência política sem limite». BBC
em risco Os britânicos viverão logo a
experiência australiana entre eles se a concentração da mídia continuar ao
ritmo de uma desregulamentação do audiovisual que evoca a “competitividade”
internacional. A apropriação do governo de Anthony Blair da BBC inscreve‑se
nesse quadro. O poder da BBC baseia‑se no duplo papel da mídia pública
e da empresa multinacional, cujos rendimentos ultrapassam os 5 bilhões de
dólares. Mais americanos assistem à BBC World do que britânicos assistem à
principal cadeia da BBC. Murdoch e os outros barões da mídia, para a maioria
dos norte‑americanos, procuram há muito tempo o deslocamento e a
privatização da BBC para que lhes advenham as suas vastas “partes do
mercado”. Esses padrinhos ambicionam um território, eles se mostram
impacientes. Em 2003, os ministros de
Blair ameaçaram “rever” o financiamento da BBC para a concessão de TV. Sem
essas receitas, a cadeia britânica seria reduzida a uma variante da
Australian Broadcasting Corporation, que depende das subvenções directas do
governo e é frequentemente ameaçada. Relata-se a génese de tudo
isso sem esforço. Em 1995, Tony e Cherie Blair viajaram de primeira classe à
custa de Rupert Murdoch, rumo à Ilha Hayman, na costa de Queensland. Sob o
sol tropical e de pé atrás da tribuna da News Corp., o futuro
primeiro-ministro britânico extravasou a sua «vontade de uma nova moral na
política» e prometeu uma transição da mídia de um universo de «regulamentação
pesada» para o da “empresa”. O seu anfitrião aplaudiu e deu‑lhe um
caloroso aperto de mão. No dia seguinte, em Londres, o Sun de Murdoch
comentava: «Mr. Blair vai longe, ele é determinado e fala a mesma língua que
nós relativa à moralidade e aos valores da família». Ameaça
ao jornalismo livre Ainda recentemente, esses
assuntos eram raramente discutidos nas páginas dos jornais britânicos, que
preferiam as manobras secretas dos administradores da imprensa e a sua
habilidade em conceder generosas recompensas. As intrusões dos tablóides na
vida privada das pessoas ricas e famosas eram objecto de desaprovações
hipócritas. Ideias críticas sobre o jornalismo eram evocadas de passagem, ou
em nenhum momento. A publicação, em Janeiro de 2004, do relatório de lorde
Hutton, que atacava a BBC e absolvia o governo no caso Gilligan, levou a
questão ao espaço público [1]. Um lorde correndo a serviço do establishment
para sufocar um caso incómodo para o poder actual apresenta uma das mais
directas ameaças que pesam sobre o jornalismo livre. Nos Estados Unidos, onde
constitucionalmente os meios de comunicação são os mais livres do mundo, a
própria ideia de uma humanidade com direitos universais é correntemente
colocada em questão. Assim como os vietnamitas anteriormente, os iraquianos
seriam impuros, bons para serem caçados. «Para cada GI (soldado do exército
americano) morto, 20 iraquianos devem ser executados», dizia uma carta de
leitor publicada pelo Daily News de Nova York. O New York Times
e o Washington Post talvez não publicassem uma correspondência como
esta, mas à sua maneira também sustentam a ficção de um arsenal de armas de
destruição maciça no Iraque. Mentiras
de guerra Bem antes da invasão, os dois
jornais advertem sobre o perigo em nome da Casa Branca. Na primeira página do
New York Times, podia-se ler as seguintes manchetes: “ARSENAL SECRETO
[do Iraque]: A CAÇA ÀS BACTÉRIAS DA GUERRA”, “UM DESERTOR DESCREVE OS
PROGRESSOS DA BOMBA ATÓMICA NO IRAQUE”, “UM IRAQUIANO FALA DAS RENOVAÇÕES DE
LUGARES DE ARMAS QUÍMICAS E NUCLEARES” e “DESERTORES CONFIRMAM O DOSSIÊ
AMERICANO CONTRA O IRAQUE, DIZEM OFICIAIS”. Todos esses artigos revelaram-se
pura propaganda. Num e-mail interno (publicado pelo Washington Post),
a jornalista do New York Times, Judith Miller, admite que a sua fonte
principal era Ahmed Chalibi, um exilado iraquiano e prevaricador condenado
pelos tribunais, que havia dirigido o Congresso Nacional Iraquiano (INC)
residente em Washington e financiado pela CIA. Uma pesquisa do Congresso
conclui que quase toda a informação fornecida por Chalabi e outros exilados
do INC não tinha valor. Em Julho de 2003, quando a
ocupação chegava ao seu auge, o Times e o Post dedicaram a sua
primeira página à volta para casa de Jessica Lynch, 20 anos, cuidadosamente
colocada em cena pela administração Bush. Durante a invasão, a jovem tinha sido
ferida num acidente na estrada e capturada. Médicos iraquianos haviam cuidado
dela, provavelmente salvando-lhe a vida – e arriscando a deles – enviando-a
para as forças norte-americanas. A versão oficial, segundo a qual ela havia
corajosamente combatido os agressores iraquianos, era apenas uma trama de
mentiras, assim como a sua “salvação” num hospital praticamente abandonado,
filmado com a ajuda de câmaras de infra-vermelho por um cineasta de Hollywood
[2]. Isso não dissuadiu a nata do jornalismo
norte-americano de se unir para sustentar a encenação da volta beatífica de
Lynch a Elizabeth, na Virgínia ocidental, imagens do Epinal com o apoio e as
pessoas do lugar dizendo como se sentiam satisfeitas. O Post reclamou
que o caso tinha «se tornado confuso devido às declarações contraditórias dos
meios de comunicação». Já Orwell evocava as «palavras que caem sobre os
factos como neve, confundindo os seus contornos e cobrindo todos os
detalhes». Conformismo
dos jornalistas Em Washington, entrevistei
sobre esse assunto Charles Lewis, ex-estrela do “60 minutos” da CBS. Lewis,
que actualmente dirige uma unidade de pesquisa, o Centro pela Integridade
Pública, explicou: «Você sabe, sob Bush, o conformismo e o silêncio entre os
jornalistas é pior do que nos anos 1950. Rupert Murdoch é o magnata mais
influente da mídia nos Estados Unidos; ele impõe a norma, e não há a menor
discussão pública. Porque é que a maioria do público norte-americano ainda
acredita que Saddam Hussein estava por trás dos atentados de 11 de Setembro?
Porque a mídia não parou de ecoar o discurso do governo». Eu perguntei‑lhe o que
aconteceria se os meios de comunicação “mais livres do mundo” tivessem
colocado em questão Bush e Donald Rumsfeld e tivessem verificado a
autenticidade das suas declarações, em vez de difundirem o que se revelou
pura propaganda? A sua resposta foi: «Se os meios de comunicação tivessem
sido mais combativos na sua busca da verdade, é bem possível que jamais
teríamos entrado em guerra contra o Iraque». No seu discurso diante do
Congresso dos Estados Unidos em 2003, Anthony Blair declarou: «Jamais o poder
dos Estados Unidos foi tão necessário e tão incompreendido. Jamais um estudo
da história nos ajudou tão pouco a compreender o presente». No caso, tratava
de nos alertar contra o estudo do imperialismo, por medo que ele nos levasse
a recusar o “destino manifesto” dos Estados Unidos e a sua oferenda à
Grã-Bretanha de um papel imperial durável, ainda que subordinado. Palavras
esvaziadas É claro que o primeiro-ministro
britânico não pode advertir ninguém de maneira eficaz se ele não beneficia do
apoio das primeiras páginas dos jornais, da televisão e das rádios, que fazem
ecoar as suas palavras e as amplificam. Ao abandonar o seu papel de
“rascunho” de uma história que será escrita posteriormente, o jornalismo
estimula, directamente e por omissão, um imperialismo cujas verdadeiras
intenções são, muitas vezes, pouco desvendadas. Em vez disso, as palavras e
os conceitos nobres, tais como “democracia”, “liberdade” e “libertação”,
esvaziadas do seu sentido real, são colocadas ao serviço da conquista. Quando
os jornalistas autorizam essa corrupção da linguagem e das ideias, eles
desorientam, eles não informam. Ou melhor, como disse Edward S. Herman, eles
«normalizam o impensável na opinião pública». Em Junho de 2002, diante de
um público de cadetes militares de West Point que se levantaram como robôs
para aclamá-lo, George W. Bush desaprovou a política de “dissuasão” da guerra
fria e anunciou que a partir de então os Estados Unidos lançariam uma acção
preventiva contra todo o inimigo potencial. Alguns meses antes, um vazamento
do Pentágono havia revelado os planos de urgência da administração relativos
à utilização do armamento nuclear contra o Irão, a Coreia do Norte, a Síria e
a China. Na sequência lógica, a Grã-Bretanha anunciava então, pela primeira
vez, que “se necessário”, ela atacaria o armamento nuclear dos países que não
tinham essa capacidade. A informação praticamente não foi retomada na
imprensa, e não provocou nenhuma discussão. Mais ou menos como há cinquenta
anos, quando os serviços de informações britânicos alertaram o governo das
intenções norte‑americanas de partir em guerra atómica “preventiva”
contra a União Soviética, e que o público não soube de nada. De acordo com os dossiês
oficiais que se tornaram públicos a partir de 1968, o público não soube que
os principais projectistas britânicos foram persuadidos de que os russos não
tinham a intenção de atacar o Ocidente. «A União Soviética não vai
desencadear uma guerra geral ou mesmo limitada à Europa», observaram eles ao
descrever a política soviética como «prudente e realista». A verdade privada
contrastava inteiramente com o que se dizia na época para a imprensa e para o
público. O
silêncio e a mentira «Quando a verdade é
substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira», dizia o poeta soviético
Evgeni Evtoushenko. Reina hoje um silêncio surrealista, cheio do barulho de
pequenas frases de homens políticos, que se mordem e se esbofeteiam para
justificar a sua hipocrisia e a sua violência. O que se fala da actualidade,
não é mais do que paródia ao diapasão das vozes dissonantes de jornalistas
que proclamam todos quase a mesma coisa. Jamais tivemos um volume de
“informações” repetitivas como essas nem tamanha apropriação por parte dos
que as controlam. Desde os anos 1980, os conglomerados de mídia
norte-americanos desembaraçaram‑se aos poucos das suas últimas
obrigações de serviço público ao mesmo tempo que atacaram toda a
regulamentação internacional. Em 1983, os principais meios
de comunicação pertenciam a cinquenta sociedades. Em 2002, contávamos apenas
com nove conglomerados transnacionais. Dirigida pelo filho do secretário de
Estado, Colin Powell, a Comissão Federal das Comunicações (FCC, conforme a
sigla em inglês) dedica‑se a facilitar o controle de 90% da audiência
norte-americana pela Fox, de Murdoch, e quatro outros conglomerados [3]. Em
Fevereiro de 2004, Murdoch previa que, daqui a três anos, haverá apenas três
grandes sociedades de meios de comunicação, entre elas a sua. Os vinte sites
mais visitados na Internet pertencem a sociedades como Fox, Disney, AOL Time
Warner, Viacom e um punhado de gigantes desse género; os catorze maiores
absorvem 60% do tempo que os norte-americanos passam na tela. A sua ambição
comum: produzir cidadãos mal informados e conformistas. Consumidores
obedientes. _______________ *Acaba de publicar Tell me no lies, Random House, do qual foi extraído este artigo. [1] Durante uma reportagem de
rádio, o jornalista Andrew Gilligan revelou a maneira empregada pelo governo
para manipular as provas e os relatórios dos serviços secretos para dar
crédito à existência de uma ameaça das armas de destruição maciça que Saddam
Hussein detinha. [2] Sobre esse caso, ler
Ignacio Ramonet, Mentiras
de Estado, Le Monde diplomatique, Julho de 2003. [3] Cf. Eric Klinenberg, MDV
USA à venir (O futuro da MDV americana). |