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22/03/2004 A justiça universal não é
um sonho A invasão do Iraque, agora no
seu segundo ano em curso, foi «planificada à base de mentiras», afirma o novo
presidente do governo espanhol. Cabe alguma dúvida? Não obstante, as ditas
mentiras continuam a prevalecer na Austrália. E os seus responsáveis empenham‑se
dia após dia em continuar a falsear e a justificar uma agressão absurda e
ilegal que causou a morte a 55.000 pessoas, incluídos pelo menos 10.000
civis; que em cada mês provoca a morte ou lesões a 1.000 crianças, por exposão
de bombas de fragmentação; que semeou de urânio os povos e cidades do Iraque,
pelo que se recomenda aos soldados estadounidenses e britânicos que se
abstenham de aproximar‑se dos lugares onde brincam as crianças, para
evitar contaminar-se. Comparemos essa mortandade
com a atrocidade ocorrida em Madrid. Por terrível que esse acto de terrorismo
fosse, foi pequeno em comparação com o terrorismo que exerce a “aliança” encabeçada
pelos Estados Unidos da América. Sim. Terrorismo. O termo soa um tanto
estranho quando qualifica os “actos” dos nossos governos. No Ocidente estamos
tão impregnados do discurso da maldade endémica dos tiranos do terceiro mundo
(muitos deles fruto do imperialismo ocidental), que perdemos toda a noção da
realidade do descomunal crime perpetrado em nosso nome. E isto não é pura retórica. Os
magistrados do tribunal de Nuremberga que julgaram os dirigentes alemães em 1946
qualificaram a agressão gratuita de um país soberano como «o supremo crime de
guerra universal». O princípio guiou a legislação internacional durante mais
de meio século, até que Bush, Blair e Howard o infringiram cobrindo os seus actos
com uma litania de mentiras. No passado dia 4 de Fevereiro, numa conferência
que durou menos de uma hora, John Howard aludiu em mais de trinta ocasiões à “ameaça”
colocada por Saddam Hussein. Ofereceu dados categóricos: O seu «arsenal químico
e biológico [estava] intacto» e fazia parte de um «programa em massa». Falso,
de princípio a fim. Ray McGovern, um dos mais
veteranos analistas da CIA e amigo de George Bush pai, disse-me: «95% da
informação é falsa. E Bush, Blair e Howard são bem conscientes disso».
Confrontemos esta verdade com a actual mortandade no Iraque e com a selvagem
destruição que a precedeu, que mal foi relatada na Austrália. Denis Halliday
e Hans Von Sponeck, dois antigos membros da ONU destinados no Iraque na
década dos noventa, ambos secretários gerais adjuntos das Nações Unidas,
descreveram o «embargo genocida» imposto pelos Estados Unidos ao Iraque – sob
a bandeira de conveniência da ONU –, apoiado e promovido pela Austrália. «Cerca
de um milhão de iraquianos perderam a vida como consequência», explicou-me
Halliday, «incluídas mais de 500.000 crianças. A UNICEF tem relatórios a
respeito. Os Estados Unidos da América procuravam a destruição de infra-estruturas
vitais no Iraque, tais como a rede de fornecimento de água, o que provocou a
morte de milhares e milhares de crianças. No momento em que Bush ordenou a
invasão do país, o que antes tinha sido um país próspero, era já uma nação
devastada». De facto, a ONU conta nos seus
arquivos com documentação que demonstra que, em Julho de 2002, a ajuda
humanitária no valor de mais de cinco mil milhões de dólares, que contava com
o visto bom do Conselho de Segurança e que o Iraque tinha pago, estava bloqueada
pelos Estados Unidos da América. Quantos australianos estão a
par deste facto e da conivência do seu próprio governo no assunto? Howard
enviou navios da Marinha Australiana para patrulhar, no que não foi mais do
que um cerco ao estilo da Idade Média. Quem se molestou em prestar
atendimento às denúncias de Halliday, Von Sponeck e demais destacadas
testemunhas de que, na realidade, foi este terrível cerco que consolidou o
regime de Saddam e impediu que o povo iraquiano se livrasse das seus garras?
Quem dos tantos que, quase comprazidos, hoje assinalam as fossas em massa – legado
do despotismo de Saddam – informa os seus leitores de que as maiores fossas em
massa são das forças iraquianas no sul do país, cujo levantamento em 1991 foi
encorajado pelos norte‑americanos, que depois lhes negaram qualquer
apoio, chegando inclusive a impedir-lhes o acesso aos seus próprios arsenais,
enquanto se limitavam a observar o extermínio, dos aviões? Ao presidente Bush
I conveio‑lhe então manter Saddam Husein no poder, deu-lhe carta
branca, e os iraquianos mais combativos pagaram‑no com as suas vidas. Tudo isto foi suprimido na Austrália,
enquanto os profissionais dos meios de comunicação dão cobertura e amplificação
às falsidades reinantes. E não me refiro aos típicos enfatuados da imprensa
de extrema direita, mas a toda uma série de jornalistas que acreditam
sinceramente estar a ser objectivos. Quando a uma voz discordante como a
minha (representando o ponto de vista de um bom número de australianos), lhe
foi permitida uma breve aparição a 10 de Março passado na ABC Television, os
protestos absurdos no dia seguinte do vice‑primeiro‑ministro e
do ministro dos negócios estrangeiros, junto com todo o seu séquito nos meios
de comunicação, sublinharam a total ausência de autêntico debate nos meios de
comunicação australianos. O Yesterday's Insiders da ABC Television luzia nas suas
entrevistas Alexander Downer (Tweedledum) e Gerard Henderson (Tweedledee).
Que pavor têm da opinião informada. Ao manter constantemente o debate
nacional dentro dos parâmetros e clichés do poder astuto, os profissionais da
informação entram em conluio com ele e censuram por omissão. Será que já pensaram que o próprio
conceito de “guerra contra o terrorismo” é absurdo quando Washington, que diz
combater o terrorismo, conduziu um império do terror: Indonésia, Vietname,
Camboja, Laos, Chile, El Salvador, Nicarágua, e agora o Haiti, de novo: só
para mencionar uns quantos? Em comparação, a Al Qaeda é uma pulga letal. O
verdadeiro perigo para o mundo é onde a desenfreada superpotência atacará de
novo: cuidado Coreia, Síria, Irão, Cuba, Venezuela, mesmo China. À medida que os prisioneiros
confinados no campo de concentração de Guantánamo começam a regressar
penosamente aos seus países (salvo dois australianos, abandonados à sua sorte
pelo seu próprio governo), começa-se a vislumbrar a magnitude do crime. Hoje
sabemos que os comandos militares britânicos praticamente se negaram a enviar
os seus homens ao Iraque até que Blair lhes garantiu que jamais seriam
processados pelo recém criado Tribunal Penal Internacional. A segurança
oferecida por Blair carecia de valor. E isso assusta tanto a administração
britânica como a australiana, pois, contrariamente aos Estados Unidos da América,
a Grã‑Bretanha e a Austrália são países signatários do TPI. Os tempos estão a mudar; os
simulacros de juízos manipulados por Washington contra os diversos ditadores
do Terceiro Mundo estão a dar passo à promessa de uma autêntica justiça
universal, por ténue que esta possa parecer. O banco dos acusados pode bem estar
à espera daqueles ocidentais que levam o terrorismo em massa a países remotos
e que depois observam como se volta contra nós e nos estoura na cara. Tal
como com a Al Qaeda, não lhes deve ser permitido escapar. |