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21/09/2006
Cuba e Bolívia convidadas para entrar no Mercosul Miguel Urbano Rodrigues A Cimeira do Mercosul realizada em Córdoba, na Argentina, no mês de
Julho, foi na opinião da Casa Branca um «acontecimento funesto». A agenda não
tinha suscitado preocupação em Washington. Mas houve surpresas. A primeira
foi o convite dirigido a Fidel Castro para comparecer. Depois, ocorreu o
inimaginável: o presidente argentino, apoiado por Lula, dirigiu um apelo a
Fidel Castro e a Evo Morales para que Cuba e a Bolívia se integrem no
Mercosul. A chilena Michele Bachelet não se opôs. O convite foi formulado obviamente após entendimentos prévios. A
inquietação em Washington é tanto maior quanto Luís Derbez, o ministro dos
Negócios Estrangeiros do México, também presente, afirmou que o seu país
(ligado aos EUA e ao Canadá no Tratado de Livre Comércio da América do Norte)
espera ser aceite antes do final do ano como Estado associado do Mercosul,
para se tornar posteriormente membro pleno. Para alguns observadores, a próxima adesão do México ao Mercosul
começou já a criar problemas aos EUA no momento em que Washington se esforça
por assinar com países latino-americanos tratados bilaterais de livre
comércio, após o fracasso do projecto da ALCA. Mas o que se disse em Córdoba sobre a eventual integração de Cuba no
Mercosul suscitou reacções de pânico no Departamento de Estado. A entrada da
Ilha Revolucionária no espaço de livre comércio do Cone Sul do Continente
teria o efeito de uma bomba política. Não seria apenas um golpe mortal no
bloqueio e nas sanções impostas pela Lei Helms‑Burton. A admissão da
Cuba socialista no Mercosul provocaria o desmoronamento da estratégia dos EUA
para a América Latina. É significativo o comentário do boliviano Evo Morales: «Se o Fidel
entrar no Mercosul, os povos e os movimentos sociais vão obrigar-me a entrar
também». O dirigente cubano mostrou-se cauteloso. Tem consciência dos
obstáculos a superar para que o seu país possa tornar-se membro do Mercosul.
Cuba, vítima de uma prolongada guerra não declarada, não está em condições de
aceitar as regras do “livre comércio” no espaço latino-americano. Mas os
problemas que enfrentaria não seriam apenas os resultantes da dificuldade de
uma economia centralizada concorrer com economias de mercado modeladas no
fundamental por políticas neoliberais. O seu povo é o mais instruído e saudável da América Latina, mas a
Ilha é pobre em recursos naturais. Além do níquel, do tabaco, de
medicamentos, e dos seus paraísos turísticos (o ciclo do açúcar findou, por
carência de fertilizantes e pesticidas), aquilo que tem a oferecer aos povos
irmãos não é quantificável em dinheiro. Cuba, pelos avatares da História,
tornou-se um país exportador de cultura e de um bem sem valor de mercadoria:
a solidariedade internacionalista. Milhares de médicos, de professores, de
técnicos em diferentes ramos do saber, trabalhando quase sempre em condições
difíceis, demonstram hoje em dezenas de países do Terceiro Mundo que a
fraternidade entre os povos pode ser transformada de aspiração em realidade
concreta. SOLIDARIEDADE COMO BANDEIRA A integração latino-americana somente será viável se – como afirmou
Fidel – «os países com mais recursos contribuírem para os que têm menos».
Esse é o único caminho para se concretizar o sonho de Bolívar, ou seja uma
opção oposta à dos Estados Unidos cuja meta é a exploração dos mais pobres
pelos mais ricos. Nestor Kirchner não desconhece que pequenas economias como as de
Cuba e da Bolívia não poderiam concorrer num mercado comum aberto com as de
gigantes como o Brasil, a Argentina e o México. Mas ao falar de uma «integração que tenha a solidariedade como
bandeira», o argentino deixou transparecer que, para receber no espaço do
Mercosul aqueles países, decisões políticas corajosas teriam de prevalecer
sobre as regras do mercado. As tensões actuais com o Paraguai e sobretudo com o Uruguai são
aliás uma advertência para o perigo de desintegração que ameaça o Mercosul se
os grandes não adoptarem com imaginação fórmulas que abram portas a uma
integração das economias latino-americanas que rompa com os conceitos e as
normas concebidos para servir estratégias do capitalismo. Seria entrar no terreno da especulação pura fazer previsões sobre a
possibilidade do ingresso de Cuba no Mercosul, defendido com entusiasmo pela
Venezuela de Hugo Chavez, o novo membro da organização. Mas por si só, o
convite tornado público justifica o alarme da administração Bush. Para se avaliar a complexidade do funcionamento da economia cubana
no período especial é suficiente lembrar que o principal parceiro comercial
da Ilha desde o desaparecimento URSS tem sido a Espanha. A lei que regula os
investimentos estrangeiros em Cuba defende com firmeza os interesses
nacionais. Mas isso não faz esquecer que o capitalismo espanhol é hoje um dos
mais predatórios e desumanos do mundo. Seja qual for nos próximos anos o rumo da história na América Latina
é inegável que a última Cimeira do Mercosul foi um acontecimento muito
positivo ao abrir novas perspectivas à integração solidária dos povos do
Hemisfério. O arranque para o Gasoduto do Sul, que atravessará seis países,
fortaleceu esperanças. Chavez continua a acalentar o projecto da Petrosul no
âmbito da integração energética e insiste pela criação de um banco de
desenvolvimento e de um Parlamento do Mercosul. Sonhos utópicos, para os cépticos. Mas o mal estar em Washington é
muito real. No momento em que os EUA acumulam derrotas no Médio Oriente, os povos da América Latina manifestam em múltiplas frentes a sua recusa da dominação imperialista. Isso ficou transparente na Cimeira de Córdoba. |