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27/07/2006
Duas semanas no Irão I: Um povo pacífico e
civilizado num país de cultura milenar Miguel Urbano Rodrigues Lenine dizia que a ideologia da classe dominante nos países
capitalistas marca decisivamente todos os aspectos da vida social. Ao visitar
em Maio o Irão recordei a afirmação do autor de O Estado e a Revolução.
Porquê? Porque durante duas semanas viajei pelo país de surpresa em surpresa.
O encontro com uma realidade muito diferente da imaginada fez-me tomar
consciência de que mesmo aqueles que se julgam imunizados contra os efeitos
da desinformação promovida por um sistema mediático perverso são de alguma maneira
influenciados por campanhas que projectam uma imagem deformada de povos
satanizados pelo imperialismo. O Irão que descobri nada tem de comum com o Irão que os Estados
Unidos apresentam como uma sociedade de islamistas fanáticos que ameaçaria a
paz mundial, um país retrógrado e belicista para o qual Bush e Rumsfeld pedem
sanções do Conselho de Segurança da ONU, encarando mesmo a hipótese de o
bombardearem com armas nucleares tácticas. Em Pasargada, junto do túmulo de Ciro o Grande, o fundador do Império
Aquemenida, 550 anos antes da Nossa Era, encontrei um casal canadiano que
expressou num desabafo o seu espanto: «No meu país a televisão diz tais coisas do Irão que eu, fora das
ruínas da Pérsia antiga, esperava encontrar uma terra de camelos, com estradas
poeirentas, violência nas ruas, proibição de entrar nas mesquitas e tropa por
todo lado. E afinal este povo impressiona pela cultura, pela educação, pela
simpatia com que recebe os estrangeiros…» Evoco o episódio por ser expressivo da reacção da maioria dos
turistas ao serem confrontados com um sociedade civilizada, a antítese do
“estado bandido” de ayatollahs medievais obcecados pela ambição de
dominar o Médio Oriente pela força das armas. Aqueles que ao desembarcar temem enfrentar uma polícia de fronteiras
carrancuda e formalidades burocráticas demoradas têm a primeira surpresa.
Tudo é mais fácil do que na Europa de Schengen. No aeroporto carimbaram o
passaporte sem olhar para mim e não me revistaram as bagagens. No hotel não
me pediram sequer o passaporte, esclarecendo que a reserva continha os dados
pessoais. Pela primeira vez na vida, ao utilizar voos domésticos, não me
pediram documento de identificação. Na cadeia de surpresas, o asseio das cidades impressiona. Em Teerão,
megalopolis de quase 13 milhões de habitantes, não vi lixo nas ruas. Nas
estações do Metropolitano, revestidas de mármores, não se vê no chão um
papel, um plástico, um simples bilhete usado. Pedi ao guia que me levasse a bairros degradados. Ele não entendeu,
inicialmente, o que pretendia. Quando visitámos depois áreas da periferia
densamente povoadas percebi o motivo da sua perplexidade. Eram bairros de
moradores pobres, de ruas estreitas, mas asfaltadas, com abastecimento de
luz, água e gás. Nada que lembre as favelas brasileiras, as infectas
barriadas de Lima, os casebres dos morros de Caracas. O inesperado chegou também da visita aos bairros residenciais da
classe dominante. O luxo e a riqueza não são ali menos ostensivos do que nas
grandes capitais europeias. Milionários excêntricos escolheram terraços de
alguns arranha‑céus para instalar mansões, jardins e até piscinas em
ambientes paradisíacos. A existência de uma grande burguesia iraniana, que acumulou fortunas
enormes na época do Xá Pahlevi – sobretudo na indústria, mas também no
comércio – chama a atenção para a peculiaridade do regime iraniano. O anti‑imperialismo
da chamada Revolução Islâmica ideada pelo Ayatollah Khomeiny nunca pôs
em causa – contrariamente ao que a extrema-direita estadunidense insinua – os
pilares do sistema capitalista. O nacionalismo iraniano, positivo, foi
orientado desde o começo para a modernização do país, iniciada aliás na época
do Xá. O «Islão Político» – expressão usada por Samir Amin – iraniano tenta
conciliar a gestão neoliberal de um amplo sector da economia com a existência
de um capitalismo de Estado ancorado num poderoso sector público. O Irão é um dos raros estados do Sul que criou e
defende um projecto nacional burguês. O que Washington considera inaceitável
na Revolução Islâmica iraniana é a orientação independente da sua política exterior. Toda o alarido em torno da suposta decisão de o país enriquecer o
urânio para se transformar numa potência nuclear é uma cortina de fumo que
esconde o objectivo estratégico dos EUA: esmagar um Estado, com um projecto
nacional, herdeiro de grandes civilizações, que recusa submeter-se ao poder
imperial norte‑americano. A linguagem, os argumentos e o estilo agressivo da campanha que
apresenta o Irão como uma ameaça à segurança dos EUA repetem, sem imaginação,
a lenga-lenga da campanha que precedeu a agressão contra o Iraque. Acontece que o osso, agora, é mais duro de roer, e que os EUA,
atolados em duas guerras perdidas, no Iraque e no Afeganistão, não se encontram
em condições de se envolver num conflito desaprovado pelos próprios generais
do Pentágono e que, no dizer de Kissinger, teria um desfecho de pesadelo. Repentinamente, Bush moderou o tom ameaçador. Agora fala na via
diplomática e Condoleeza Rice, embora condicione o diálogo com Teerão à
suspensão da produção do urânio enriquecido, admite pela primeira vez a
negociação directa com o governo de Amadinejad. UM ESTADO ORGANIZADO Não foi por acaso que no actual território do Irão se desenvolveram
desde a Antiguidade civilizações brilhantes que contribuíram decisivamente
para o progresso do homem. Hoje, com 1.650.000 km2, o equivalente ao triplo da
Espanha acrescentando ainda Portugal, Bélgica e Holanda, e 70 milhões de
habitantes diferencia-se dos países da região pela sua riqueza em recursos
naturais, a multiplicidade de climas que lhe permite uma produção agrícola
diversificada e a existência de um Estado organizado. A rede rodoviária, com magníficas auto-estradas, é uma das melhores
da Ásia. No tocante a alimentos é praticamente auto-suficiente. Produz em
média 13 milhões de toneladas de trigo por ano, e cevada, milho, arroz e
batatas quase suficientes para o consumo. O rebanho de ovinos, com 60 milhões
de cabeças, é dos maiores do Continente, assim como o de caprinos, cerca de
26 milhões. O número de bovinos excede 11 milhões. Na indústria pesada a recuperação das destruições resultantes da
guerra com o Iraque, quando os EUA apoiaram a agressão de Sadam Hussein –
500.000 mortos e muitas cidades arrasadas, sobretudo na província fronteiriça
do Kuzistão – foi muito rápida. O petróleo, o Irão é o quarto exportador, e o gás constituem a maior
riqueza do país que possui as segundas reservas mundiais desses
hidrocarbonetos. A indústria automóvel produz anualmente 450.000 carros ligeiros e
camiões, com a particularidade de os modelos mais vendidos serem nacionais. O
Estado é proprietário das principais fábricas, nacionalizadas após o derrube
da monarquia. O nível de desenvolvimento do sector avançado da economia é
comparável ao do Brasil e do México com a diferença de que na sociedade
iraniana não existem como naqueles países milhões de párias vegetando numa
miséria degradante. Os grandes bancos são estatais e os sectores de ponta da indústria
química são controlados também pelo Estado, que adoptou uma política de
produção maciça de medicamentos genéricos vendidos a preços irrisórios. A Segurança Social é igualmente da responsabilidade do Estado, assim
como a importante e diversificada indústria militar. A notícia sobre o êxito
de experiências com mísseis de médio alcance de difícil intercepção não
surpreendeu, aliás, os especialistas do Pentágono. Desejando a paz, os iranianos encaram com muita serenidade a
possibilidade de uma agressão dos EUA. Destruir as infra-estruturas de um
país é muito mais fácil do que ocupar-lhe o território. Os dirigentes não acreditam numa invasão terrestre, mas não excluem
a hipótese de bombardeamentos aéreos com armas tradicionais ou mesmo
atómicas. A maioria não esconde, porém, a convicção de que Washington não
dará esse passo desesperado por temer as suas consequências. Uma grande parte
das exportações mundiais de petróleo sai do Golfo e bastaria que o Irão
fechasse o Estreito de Ormuz, se fosse agredido, para que a situação criada
provocasse uma crise mundial de proporções gigantescas. Em viagem pelo planalto central, a caminho da cidade de Kashan, ao
passar próximo das instalações nucleares de Natanz, parte delas subterrâneas,
tive a oportunidade de avistar da estrada mísseis apontados para o céu. Quando comentei o desenvolvimento da indústria militar,
responderam-me que a Pérsia – o país somente mudou de nome no século XX – foi
sempre ao longo da sua história multissecular um importante produtor de
armas. Turistas franceses e alemães com quem falei em Esfahan e Chiraz, e
que viajavam em grandes grupos, manifestaram estranheza pela dimensão do
sector empresarial do Estado e sobretudo por contradições no funcionamento de
serviços públicos. Um exemplo: as melhores universidades e as mais procuradas são do
Estado num país no qual o poder religioso predomina. O grande Ayatollah
Khameney, guia supremo da revolução islâmica, é a autoridade máxima da
República, acima do Presidente Amadinejad. A MULHER NO IRÃO A situação da mulher na sociedade alterou-se radicalmente quando
Khomeiny tomou o Poder. Nesse campo houve uma involução. O uso do véu passou
a ser obrigatório a partir da adolescência e algumas profissões foram‑lhes
interditas. Verifiquei porém que o tchador – a túnica que as envolve
deixando apenas visível o rosto – é minoritário na capital e na maioria das
grandes cidades. Não vi aliás uma só burka, a peça única que cobre
todo o corpo, da cabeça aos pés, permitindo apenas o contacto com o mundo
através de uma pequena rede em frente dos olhos. Essa ruptura com a tradição
impressiona porque a burka manteve-se como vestuário feminino
dominante no Afeganistão mesmo durante a Revolução, quando em Kabul estava no
poder um partido marxista. Curiosamente, o Irão é como a Turquia um dos raros países muçulmanos
onde os homens renunciaram ao uso de roupas orientais. Somente as exibem hoje
os mullahs e os ayatollahs. No tocante às mulheres as contradições são muitas. Podem ser
professoras na Universidade e nos hospitais as médicas tratam normalmente os
doentes do sexo masculino. A resistência das mulheres às leis que lhes limitam os direitos –
algumas ridículas como a proibição de assistirem nos estádios aos jogos de
futebol, mesmo em bancada especial – é ostensiva. Em festas e reuniões
sociais, muitas jovens ignoram o véu. Nas casas de chá, as chaikané,
quase uma instituição nacional onde o mobiliário e a atmosfera são
tipicamente orientais, vi sempre mulheres fumando descontraídas os narguilé,
em desafio à proibição escrita nas paredes em cartazes bem visíveis. A luta feminina pela recuperação de direitos perdidos gera um debate
polémico que envolve toda a sociedade. Perguntei o que aconteceria se o
assunto fosse submetido a um referendo. Ouvi respostas diferentes porque
mesmo entre as mulheres muitas são tradicionalistas. Mas adquiri a certeza de que a mulher iraniana não é o ser frágil,
tímido e submisso que imaginam muitos europeus, confundidos por uma
propaganda enganadora. O seu encanto e personalidade já eram cantados pelos poetas da
antiguidade. Confirmei que as persas sobretudo têm uns olhos enormes,
levemente oblongos, com uma luminosidade que lhes realça a beleza e a
brancura da sua pele. VISITA A QOM, CIDADE SANTA Qom é, com Mached, uma das cidades santas dos xiitas iranianos. Adquiriu prestígio para a posteridade na Idade Média quando ali
morreu Fátima, a irmã do 8.º Imã xiita. As suas madrassas, universidades,
passaram a atrair fiéis de todo o Islão como centros de saber teológico e a
sua fama alastrou pelo mundo quando o Ayatollah Khomeiny, filho da
terra, lançou dali o apelo à rebelião contra o Xá Mohamed Rehza Pahlevi,
desafio que o levou ao exílio mas fez dele o líder de uma revolução
simultaneamente religiosa e anti-imperialista que abalou todo o Médio Oriente
como terramoto político. Estive na cidade com uma amiga. Tínhamos sido informados de que era
proibida a entrada de estrangeiros não muçulmanos no Mausoléu de Fátima
Mansuleh. A realidade desmentiu a informação. Fomos cortesmente recebidos
pelas autoridades religiosas locais. Registamos inclusive as impressões da
visita num livro, para difusão pela Internet. O que nos chocou foram mais uma vez as contradições. A minha
companheira de viagem entrou na sala sagrada do belo mausoléu de cúpula
dourada por uma porta diferente da minha. As filas não se cruzavam. As
mulheres, registei, perdiam a serenidade ao desfilarem perante o sarcófago de
prata de Fátima. Cada culto, cada religião está ligado a tradições que se transmitem de geração em geração. Aquelas iranianas, envolvidas nos seus tchadores – ali obrigatórios – tocavam com a ponta dos dedos nas saliências do sarcófago antes de o beijarem. Disseram-me que não faziam promessas. As jovens pediam beleza, fecundidade, amor. As idosas gemiam e lançavam apelos. O MUSEU DAS JÓIAS DA COROA Passei horas em museus de sonho, em Teerão e noutras cidades. O culto dos museus no Irão é parte do amor pela história, do orgulho
que o seu povo tem como herdeiro de grandes civilizações. Se o Museu Nacional proporciona ao visitante, através das peças
expostas, uma travessia pelo tempo até culturas como a de Sialk que há 7.000
anos já produzia uma cerâmica colorida belíssima, outros, como o dos tapetes
ensinam-lhe que os persas antigos, mestres nessa arte, já fabricavam há 25
séculos carpetes deslumbrantes como as que decoravam os palácios de
Persepolis. Mas foi no Museu das Jóias da Coroa que encontrei resposta para uma
questão que me vinha à memória. Eu não entendia o motivo pelo qual Mossadegh
conta com o beneplácito oficial como herói popular. Na revolução que ele
liderou e pôs fim ao monopólio imperial britânico da Anglo Iranian sobre o
petróleo, revolução que obrigou o então jovem Xá Pahlevi a fugir, os
comunistas desempenharam um importante papel. Eu sabia que o Xá voltara pela
mão da CIA que organizou a contra-revolução. Mas intrigava-me o respeito dos ayatollahs
por Mossadegh, como herói nacional, porque o regime da Revolução Islâmica
perseguiu duramente os comunistas. No Museu das Jóias percebi. Instalado num bunker blindado construído no subsolo de um
edifício aparentemente banal, é um museu único. Nas suas salas acumularam a
mais fabulosa colecção de tesouros do planeta. O valor do que ali se expõe é
incalculável. São tronos, coroas, tiaras, colares de ouro e platina, vestes
sumptuosas, obras de arte exóticas, tudo cravejado de pedras preciosas. São
milhares, talvez milhões de diamantes (o maior do mundo), de rubis, de
esmeraldas, de pedras raríssimas cujo brilho encandeia, fatigando os olhos. Entre os tronos chamam a atenção os que o último e defunto Xá mandou
fabricar para a sua coroação e para as três rainhas que foram suas mulheres.
Parte daquelas riquezas resultou de guerras e saques ao longo dos séculos,
mas o que dói e inspira repulsa é o luxo milionário e desafiador do Xá do
nosso tempo. Pensei em Mossadegh e na indignação do povo. Na visita ao grande parque onde em Teerão foram transformados em museus
os palácios do Xá e do seu pai, a sensação de choque recebida ao contemplar
tronos e coroas faiscantes voltou a subir em mim. Vi ali tapetes com 200
metros quadrados cobrindo o piso de salas de tectos dourados e móveis Luís XV
importados de França, numa arrogante exibição de riqueza que ofendia o povo
pobre que pagava tudo aquilo. QUE FUTURO NO HORIZONTE? Não creio ter conhecido país algum tão encantatório como o Irão.
Tudo ali se soma para envolver o forasteiro numa atmosfera intemporal: a
história, a beleza da terra, as ruínas de grandes civilizações, o povo no que
é e no que foi, a ameaça de guerra vinda de um poder imperial monstruoso. Megalopolis modernas, desertos escaldantes incompatíveis com a vida
animal e vegetal, estepes percorridas por rebanhos que se perdem na lonjura,
campos verdes, acampamentos de nómadas, caravanserais que recordam as
estórias da rota da seda, muralhas de antigos palácios construídos por
legiões romanas derrotadas, necrópoles cavadas em falésias abruptas,
cordilheiras com píncaros de 5.000 metros cujas neves rasgam os céus, mares
de águas transparentes e lagos azuis em crateras de vulcões extintos. A diversidade vem da profundidade do tempo, começou a esboçar-se
muito antes de chegarem ao planalto central as tribos arianas que lançaram
ali os alicerces do primeiro grande Estado multinacional criado pelo homem. Paradoxalmente essa diversidade não divide, aproxima. Os iranianos
de origem persa representam hoje apenas 55% da população. Mas as outras
minorias, turcos azeris, curdos, baluches, árabes, arménios e outras, e
descendentes dos antigos assírios, kassitas e elamitas convivem quase sem
problemas. Todos adoptaram o persa como idioma nacional comum. Não obstante a ideologia teocrática do regime, as relações entre as
diferentes comunidades religiosas não são tensas. Contrariamente ao que
ocorre no Iraque e no Paquistão a maioria xiita convive pacificamente com a
minoria sunita. Os zoroastricos, que praticam o mazdeismo, a religião dos
antigos persas, serão somente uns 150.000. Muito discretos, ninguém os
incomoda. Os arménios, a mais numerosa comunidade cristã, têm uma catedral em
Esfahan. Ocupam destacadas posições nos meios científicos, na indústria e no
comércio. Nas reuniões sociais que promovem estão inclusive autorizados a
consumir álcool. Os judeus, uns escassos milhares, não são hostilizados apesar da
linha dura que caracteriza a atitude do governo, o único dos estados
islâmicos que se pronuncia pelo desaparecimento de Israel. Praticam
livremente a sua religião e informaram-me que sinagogas existentes na época
do Xá não foram fechadas. Que reserva o futuro imediato ao Irão? A mentalidade cavernícola que domina a extrema-direita estadunidense
desaconselha previsões. Mas no Congresso e no Departamento de Estado a tendência para
renunciar à opção militar ganha força, segundo o New York Times e o Washington
Post. A Casa Branca retomaria assim a política seguida na época de Clinton
para o apoio às forças internas definidas como moderadas e reformadoras, que
desaprovam a linha radical de Amadinejad e desejariam um compromisso cujo
desfecho seria o restabelecimento de relações com os EUA. Essa posição é
compartilhada inclusive por personalidades da hierarquia religiosa. É inegável que a vitória eleitoral do actual presidente resultou do
apoio que encontrou entre as massas mais desfavorecidas. A grande burguesia teme envolver-se em conspirações inseparáveis de
contactos com serviços de inteligência estrangeiros, mas não esconde o seu descontentamento.
Sem o apoio do Exército – quase um milhão de homens – é improvável que seja
tentada pela aventura de um golpe. E as Forças Armadas têm reagido muito mal
a actos de terrorismo na região da fronteira Sul com o Iraque, apontados pelo
governo como de inspiração norte‑americana e britânica. Impressionou-me muito positivamente nas duas semanas que passei no
Irão a qualidade de vida alcançada por famílias de recursos modestos num
ambiente urbano, sobretudo em Chiraz e Esfahan. O povo iraniano é educado, com um nível de instrução raríssimo no
Terceiro Mundo (apenas 7% de analfabetos). Na Europa e nos EUA os povos atravessam hoje a vida numa tensão
crescente (Portugal não é excepção), perseguindo com angústia melhoras
materiais cada vez mais difíceis. No Irão a exploração do homem subsiste, a estrutura de classes foi
moldada pelo capitalismo e os ayatollahs não pretendem destruí-la, não
tenhamos ilusões. Mas as heranças de um passado de 25 séculos, muito fortes,
ajudam a contrariar a ideologia do lucro, a subordinação da vida a uma
globalização comandada pela sacralização do dinheiro. A solidariedade com o povo do Irão, ameaçado pela estratégia de
barbárie de um sistema em crise cuja ambição compromete a própria
sobrevivência do homem na Terra aparece-me assim como resultante natural do
amor à cultura e à vida. No sítio arqueológico de Persepolis, o mais maravilhoso conjunto de ruínas que conheço, e na grande praça de Esfahan, talvez a mais bela cidade criada pelo génio artístico do Islão, senti com muita força que a luta pela humanidade não é dissociável da defesa das culturas diversificadas que ela criou ao longo de milénios na sua caminhada para o desconhecido. |