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26/01/2006 Fórum Social Mundial de Bamako Um apelo internacionalista e humanista para um mundo solidário Miguel Urbano Rodrigues
Da África pouco se fala. É um continente quase esquecido mesmo pela
maioria daqueles que lutam contra a barbárie imperialista que ameaça a
humanidade. Mas a África está presente nas grandes lutas do nosso tempo. Dois
acontecimentos importantes vieram confirmar a participação crescente dos
africanos no combate ao imperialismo e na recusa da globalização capitalista,
o flagelo que um sistema de poder monstruoso tenta impor no desenvolvimento
de uma estratégia de dominação planetária. Bamako, a capital do Mali, foi a sede do VI Fórum Social Mundial, de
19 a 23 de Janeiro, que precedeu o de Caracas, iniciado a 24 do mesmo mês. No dia 18, também em Bamako, promovida pelo Fórum do Terceiro Mundo,
pelo Fórum das Alternativas e pelo Fórum para Outro Mali, houve uma jornada
internacional com características inéditas. Foi de certa maneira um prólogo
ao Fórum. Quase uma centena de personalidades progressistas, vindas da Europa,
da Ásia, da América e de diferentes países africanos reuniram-se para debater
temas indissociáveis de uma intensificação da luta contra o imperialismo e da
reconstrução da solidariedade real dos povos do Sul, na fidelidade ao
espirito da Conferência de Bandung cujo 50º aniversario se comemorava. A necessidade de se passar da recusa do neoliberalismo e da
condenação das acções criminosas do imperialismo a acções imediatas que
traduzam a consciência do perigo mortal que ameaça a própria continuidade da
vida na Terra marcou a atmosfera das intervenções nas dez mesas redondas
realizadas após a sessão plenária. Muitas propostas interessantes foram
formuladas nos trabalhos na perspectiva da construção de um mundo multipolar
autêntico que responda a aspirações permanentes da condição humana. Temas como a retirada dos exércitos dos EUA do Iraque e do
Afeganistão, o desmantelamento das bases militares e dos campos de
prisioneiros, a dissolução da NATO, a gestão democrática das sociedades, a
gestão dos recursos naturais, a construção da frente unitária do Trabalho, a
perversão e o controle do sistema mediático mundial e a organização económica
da globalização alternativa mereceram atenção especial. Samir Amin, que foi com o belga François Houtart e o francês Remy
Herrera, o grande arquitecto da Jornada Internacional do dia 18, definiu com
clareza o espírito e os objectivos a atingir pelas iniciativas de Bamako.
Trata‑se de passar da elaboração de uma consciência social à
construção de um actor social. Ricardo Alarcon, presidente da Assembleia do
Poder Popular de Cuba, foi saudado com uma carinhosa ovação. UM FÓRUM DIFERENTE A abertura dos trabalhos do Fórum foi precedida de um desfile pelas
ruas de Bamako. Mais de dez mil pessoas participaram nessa manifestação.
Gente chegada dos quatro cantos do mundo, ombro a ombro com os malianos,
contribuiu para a atmosfera internacionalista. Até tuaregs do deserto,
montados nos seus camelos, se integraram na manifestação que terminou no
Estádio Nacional onde a Comissão Maliana do Fórum promoveu um espectáculo
belíssimo de canto e dança, iniciado com uma vibrante saudação da juventude
aos participantes estrangeiros. Os temas constantes do programa do Fórum foram debatidos em
múltiplos lugares, desde o Centro de Conferências Internacionais à
Universidade, à Biblioteca Nacional, a Museus, Palácio da Cultura, etc. Os grandes problemas que preocupam a humanidade no contexto da
actual crise de civilização resultante da globalização neoliberal e da
estratégia imperial dela inseparável foram discutidos durante três dias. De
tudo se falou desde as criminosas guerras “preventivas” dos EUA, à defesa do
ambiente, às questões da agricultura e do trabalho. A América Latina, o Médio
Oriente, a China, o rumo da União Europeia, múltiplos desafios colocados pela
marginalização da África suscitaram debates muito participados nas oficinas
dedicadas a esses assuntos. Como é da tradição, não houve Declaração Final. Mas, por iniciativa
do Fórum do Terceiro Mundo e do Fórum Mundial das Alternativas, foi lançado
após o encerramento dos trabalhos, o Apelo de Bamako,
subscrito pelos representantes de dezenas das organizações presentes. Nesse documento — de que resistir.info publica o resumo — afirma-se
a vontade de construir a solidariedade dos povos da Ásia, da África, da
Europa e das Américas perante os desafios do desenvolvimento do século XXI, e
um consenso político, económico e cultural alternativo à globalização
neoliberal e militarizada e ao hegemonismo dos EUA e dos seus aliados. Segundo a organização maliana, aproximadamente 30 mil pessoas
participaram no Fórum. ATMOSFERA HUMANISTA NUM PAÍS ESQUECIDO A escolha de Bamako para sede do Fórum Social Mundial surpreendeu
milhões de pessoas. O Mali é um país da África Ocidental, simultaneamente enorme e muito
pobre. Com uma superfície de 1.240.000 km2, quase igual à de
Angola, tem uma população de 14 milhões, oriunda de muitas etnias,
concentrada nas zonas de savana, semi-húmidas, do Sul. O resto, quatro
quintos, é árido ou desértico, cobrindo uma ampla faixa do Saara.
Navegação
no Níger Um rio gigante, o Níger, com 4200 quilómetros, é o pulmão desta
terra esquecida. Esquecida, mas com uma grande história. O Mali foi o berço dos
impérios medievais da África sub-saariana. Islamizado muito cedo — 90% dos
habitantes são muçulmanos — por pregadores vindos no século XI do Maghreb —
foi ali que se constituíram os primeiros estados organizados do Bafour, nome
originário da África Ocidental. Os cronistas árabes chamavam-lhe o Bilad
Sudão, “o pais dos negros”, famoso pelo espírito guerreiro dos habitantes. Os contactos com o Egipto e com os estados do Maghreb contribuíram
decisivamente para que no Sahel sub‑saariano surgissem impérios
medievais onde floresceram — a opinião é do eminente historiador Joseph Ki
Zerbo — as civilizações da «grande época da África Negra». Três desses
impérios, o do Mali, o de Gahna e o do Songhay tiveram por epicentro as
terras da bacia do Níger povoadas por tribos islamizadas do antigo Sudão
Ocidental. Cidades como Tombuctu e Gao foram então centros culturais de
prestígio mundial e pólos do comercio caravaneiro com o Mediterrâneo e o
Oriente. Da região saiu mais ouro durante a Idade Media que do México após a
conquista espanhola. Ali nasceram e lutaram contra todos os conquistadores estrangeiros
personagens cujos nomes figuram hoje no panteão dos heróis da África:
Sundjata, o fundador do Império do Mali, no século XIII; Kankan Moussa, o
imperador que na Idade Média se impôs como poderoso interlocutor aos árabes,
Soni ali Ber, o criador do Império do Songhay , desmantelado no final do
século XVI, e Samory Toure, o chefe que durante duas décadas resistiu à
ocupação pela França. Do antigo Mali, retalhado em pedaços, quase a régua e compasso, pelo
colonialismo francês, sobrou um território sem acesso ao Atlântico, parte do
antigo Sudão ocidental. Foi desse país, herdeiro de um nome venerado pelos africanos, que
mulheres e homens progressistas, unidos pela esperança num mundo diferente,
lançaram agora o Apelo de Bamako, como contribuição humanista à emergência de
um novo sujeito popular histórico. Os malianos fizeram prodígios para que o Fórum Social Mundial na sua
primeira vinda à África correspondesse à expectativa gerada. Assumiram com
dignidade as suas responsabilidades, suprindo com entusiasmo e sentido de
responsabilidade a escassez de recursos materiais e a inexperiência em
iniciativas do género. E o Fórum foi um acontecimento maravilhoso. Graças sobretudo ao povo
maliano. Há quase meio século passei umas semanas na Guiné Conakry e estive
em Dakar, no Senegal. Tinha uma ideia muito vaga do que iria ver e sentir no
Mali, que na memória me aparecia ligado a Modibo Keita, um dos mais puros
revolucionários da geração que lutou pela independência das antigas colónias
francesas. O encontro com a realidade maliana foi gratificante. Descobri um
povo diferente. Diferente talvez pela comovida fidelidade a um grande passado cuja
herança assume numa perspectiva humanista. A primeira surpresa veio da
fraternidade no relacionamento. Num mundo onde a violência alastra — a África
não constitui excepção — o Mali apareceu-me como uma terra na qual todo o
forasteiro até prova em contrário é tratado como amigo potencial. Em Bamako, a capital, a taxa de criminalidade é baixíssima. O
estrangeiro pode perder-se de noite em ruas escuras sem correr riscos. Bamako é possivelmente uma das capitais mais pobres da África, para
o que terá contribuído a interioridade do pais, território sem acesso ao mar. A cidade que tinha uns escassos milhares de habitantes quando os
franceses nela se instalaram no final do século XIX ultrapassa hoje o milhão.
Mas, contrariamente a outras capitais do continente, conservou a atmosfera de
uma grande aldeia africana. Um punhado de grandes edifícios modernos, como o
Banco Central, o Centro Internacional de Conferências e o hotel insígnia de
um grupo transnacional, semeados no centro, inserem‑se num panorama de
casas baixas alinhadas em ruas arborizadas que da manhã ao anoitecer lembram
serpentes ondulantes pelo movimento dos que compram e vendem coisas a
qualquer hora, ou conversam, bebem e comem em restaurantes populares. O rio tutelar do pais, o Níger, que a poucas centenas de quilómetros
da nascente nas serranias guineenses já tem mais de um quilómetro de largura,
mantém com Bamako uma relação de intimidade profunda. Tudo naquela artéria
líquida apresenta o toque do excepcional, desde a multidão de ilhotas verdes
que o obrigam a dividir‑se, a peixes gigantes como o capitão que
atingem os cem quilos. Numa cidade onde a vocação do convívio é fonte de alegria , o rio
atravessa-a como se fora um ser vivo, em diálogo com as coisas e as pessoas. O Fórum sentiu a atmosfera de Bamako e integrou-se nela. Ao
caminharem pelas ruas em pequenos grupos multinacionais, os convidados
estrangeiros eram abordados a cada passo por jovens e velhos. As conversas
brotavam espontâneas de uma primeira e inesperada pergunta e davam a volta a
um mundo de temas. Nas sessões de trabalho, a natural diferenciação de mundividências e
opções ideológicas de intelectuais de dezenas de países esbatia-se no debate
sobre grandes questões que desembocavam em convergências de solidariedade aos
povos da Palestina, de Cuba, do Iraque e do Afeganistão. O nome de Chávez e a
firmeza da Venezuela bolivariana ameaçada pela arrogância do imperialismo
norte‑americano foram repetidamente aclamados em mesas redondas em que
a condenação da estratégia de barbárie de Bush&Cia foi unânime. O espírito do Apelo de Bamako marcou o Fórum do início ao fim em
sessões muito participadas com intervenções em que ao francês sucedia o árabe
e o inglês enquanto alguém na sala falava em persa, turco ou bambara, o
idioma veicular dos malianos. Os que tiveram a oportunidade de viver as jornadas fraternais do Fórum Social Mundial de Bamako regressaram aos seus países de origem fortalecidos na convicção de que outro mundo é possível se, juntos, lutarmos, para passar combatendo — repito a exortação de Samir Amin — «da elaboração de uma consciência social à construção de um actor social». |