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05/12/2005 A luta contra nós mesmos – Discurso na manifestação sobre a mudança climática em 03/12/2005 – Quero tomar um momento para
vos recordar de onde vimos. Durante os primeiros três
milhões de anos de história da Humanidade, vivemos conforme às
circunstâncias. As nossas vidas eram regidas pelas casualidades da ecologia.
Vivíamos, como todos os animais, com temor à fome, aos predadores, ao clima e
às doenças. Durante os milhares de anos
seguintes, depois de termos compreendido os rudimentos da agricultura e o
armazenamento das colheitas, desfrutamos de uma maior segurança alimentar, e
cedo destruímos muitos dos nossos predadores não‑humanos. Mas as nossas
vidas foram regidas pela espada, pelo machado e pela lança. A luta principal
era pela terra. Precisávamos dela não só para semear as nossas colheitas, mas
também para nos prover de fontes de energia – pasto para os nossos cavalos e
bois, madeira para o nosso fogo. Então descobrimos os combustíveis fósseis, e tudo mudou. Já não estávamos limitados pela necessidade de viver da energia ambiental; podíamos manter-nos mediante a luz do sol armazenada durante os 350 milhões de anos precedentes. As novas fontes de energia permitiram à economia crescer – crescer o suficiente para absorver algumas das pessoas expulsas pelas antigas disputas pela terra. Os combustíveis fósseis permitiram a expansão tanto da indústria como das cidades, o que permitiu aos trabalhadores organizar-se e forçar os déspotas a afrouxar o seu punho sobre o poder. Os combustíveis fósseis ajudaram‑nos
a empreender guerras de um horror nunca antes imaginado, mas também reduziram
a necessidade da guerra. Pela primeira vez na história da Humanidade, na verdade
pela primeira vez na história da vida, havia um excedente de energia
disponível. Podíamos sobreviver sem ter que lutar contra alguém pela energia
que precisávamos. A produtividade agrária aumentou de 10 a 20 vezes. A
produtividade económica multiplicou‑se por 100. A maioria de nós podia
viver como nunca ninguém tinha vivido antes. E tudo o que vêem à vossa
volta é o resultado disso. Pudemos juntar-nos aqui de todos os rincões do
país graças aos combustíveis fósseis. Os governantes não nos cobram comissão
nem restringem o nosso consumo – ou em qualquer caso ainda não – graças aos
combustíveis fósseis. As nossas liberdades, os nossos confortos, a nossa
prosperidade todos se devem aos combustíveis fósseis. A nossa é a geração mais
afortunada que alguma vez viveu. A nossa é a geração mais afortunada que
alguma vez viverá. Vivemos o breve interlúdio histórico entre a pressão
ecológica e a catástrofe ecológica. Não tenho que vos recordar
quais são as duas forças que convergem nas nossas vidas. Enfrentamos uma
escassez iminente de uma fonte de energia difícil de substituir: os combustíveis
fósseis líquidos. E enfrentamos as consequências meio ambientais do consumo
de combustíveis fósseis que tornou possível que estejamos aqui. A estrutura, a
complexidade, a diversidade das nossas vidas, tudo o que conhecemos, tudo o
que demos por garantido, que parecia sólido e inegociável, de repente parece
contingente. Tudo isto é como uma enorme pilha titubeante que se balança
sobre uma bola, uma bola que está prestes a rodar montanha abaixo. Ouço pessoas a falar das
reduções das emissões de carbono que gostariam de ver. Não me interessa o que
as pessoas gostariam de ver. Interessa-me o que diz a ciência. E a ciência é
clara. Precisamos, não de uma redução de 20% para 2020; não de uma redução de
60% para 2050, mas de uma redução de 90% para 2030 [1]. Só dessa forma teríamos
boas hipóteses de manter a concentração de carbono na atmosfera abaixo de 430
unidades por milhão, o que significa que só assim teríamos boas hipóteses de
impedir algumas das temidas consequências. Se deixamos que supere esse índice
não há nada que possamos fazer. A biosfera torna‑se a fonte primária
de carbono. Fica fora das mãos. A ideia de que podemos
consegui-lo substituindo os combustíveis fósseis por energias renováveis é
uma fantasia. É verdade que temos fontes inexploradas de energia no vento, nas
ondas, nas marés e na luz do sol, mas não estão nem suficientemente
concentradas nem são suficientemente consistentes para que possamos utilizá‑las
e continuar como antes. Uma redução destas requer
restrições massivas no nosso uso de energia. Existem algumas soluções tecnológicas,
mas é improvável não nos levem muito longe. Se queremos que as emissões de
carbono fiquem nos 10%, o uso da energia deverá ficar abaixo dos 50%. O único método adequado para consegui-lo
é o racionamento nacional acompanhado de uma diminuição e convergência
mundiais. E encontramo‑nos numa
posição extraordinária. Este é primeiro movimento político de massas a pedir
menos, não mais. O primeiro a tomar as ruas pedindo austeridade. O primeiro a
pedir que os nosso luxo, mesmo os nossos confortos, se reduzam. Estes são os maiores reptos
políticos que algum movimento jamais enfrentou. Mas estamos a chegar lá. Estamos
a chegar lá. Mas não deixeis que alguém vos diga que será fácil. Se fosse só
uma questão de deitar abaixo George Bush, já teríamos ganho. Mas temos que
lutar não só contra ele, não só contra o nosso próprio Governo, não só entre
nós, mas também contra nós mesmos. A luta contra a mudança climática é uma
luta contra muito daquilo em que nos tornamos. É uma luta contra alguns dos
nossos impulsos mais básicos. Não podemos pedir aos demais que deixem de voar se nós ainda voamos. Não podemos pedir ao Governo que nos force a mudar se não estamos preparados para mudar. A mais importante batalha das nossas vidas terá de ser empreendida não apenas lá fora, mas também no nosso interior. ________ [1] http://www.climate-crisis.net/downloads/THE_CUTTING_EDGE_CLIMATE_SCIENCE_TO_APRIL_05.pdf. |