Informação Alternativa

Mundo

06/12/2005

 

Pior do que o combustível fóssil

 

George Monbiot

Revisto a partir de resistir.info

 

Durante os últimos dois anos fiz uma descoberta desconfortável. Tal como a maior parte dos ambientalistas, tenho estado tão cego para as restrições que afectam o nosso abastecimento de energia quanto os meus oponentes têm estado para a mudança climática. Apercebo-me agora de que tenho mantido uma crença na magia.

 

Em 2003, o biólogo Jeffrey Dukes calculou que os combustíveis fósseis que queimamos num ano eram constituídos por matéria orgânica «contendo 44x10 elevado a 18 gramas de carbono, o que é mais de 400 vezes a produtividade primária líquida da actual biota planetária» [1]. Em linguagem simples, isto quer dizer que cada ano utilizamos o valor de quatro séculos de plantas e animais.

 

A ideia de que podemos simplesmente substituir esta herança fóssil – e as extraordinárias densidades de energia que nos proporciona – por energia ambiental é coisa da ficção científica. Simplesmente não há substitutivo para o corte. Mas os substitutivos estão a ser procurados por toda a parte. Estão a ser promovidas hoje nas conferências sobre o clima em Montreal, por Estados – tais como os nossos – que procuram evitar as difíceis decisões que a mudança climática exige. E pelo menos um deles é pior do que a queima de combustível fóssil que substitui.

 

A última vez que chamei a atenção para os perigos de fabricar gasóleo a partir de óleos vegetais, recebi tantos insultos quantos os que me foram dirigidos pelos apoiantes da guerra no Iraque. Os missionários do biodiesel, descobri, são tão vociferantes na sua negação quanto os executivos da Exxon. Estou agora pronto a admitir que o meu artigo anterior estava errado. Mas eles não vão gostar disto. Estava errado porque subestimei o impacto destrutivo deste combustível.

 

Antes de avançar mais, devo esclarecer que transformar óleo usado de frituras em combustível é uma coisa boa. As pessoas que se arrastam todos os dias com barris de sujeira estão a fazer um serviço à sociedade. Mas no Reino Unido há desperdícios de óleo de cozinha suficientes para satisfazer 1/380 avos da nossa procura de combustível para transporte rodoviário [2]. Para além disso, começa o problema.

 

Quando escrevi sobre isto no ano passado, pensava que o maior problema provocado pelo biodiesel era que estabelecia uma competição pelo uso da terra [3]. Terra arável que de outra forma teria sido utilizada para produzir alimentos seria, ao invés disso, utilizada para produzir combustível. Mas agora descubro que algo ainda pior está a acontecer. A indústria do biodiesel inventou acidentalmente o combustível mais intensivo em carbono do mundo.

 

Ao promover o biodiesel – tal como fazem a UE, os governos britânico e dos EUA e milhares de ambientalistas – poderia imaginar-se que se estava a criar um mercado para os desperdícios do óleo usado nas frituras, ou para o óleo de semente de colza, ou para o óleo das algas que crescem nas lagoas dos desertos. Na realidade está a criar­‑se um mercado para o cultivo mais destrutivo da Terra.

 

Na semana passada, o presidente da autoridade federal para o desenvolvimento agrícola da Malásia anunciou que estava prestes a construir uma nova fábrica de biodiesel [4]. Era a sua nona decisão neste sentido em quatro meses. Estão a ser construídas quatro novas refinarias na península da Malásia, uma no Sarawak e duas em Roterdão [5]. Dois consórcios estrangeiros – um alemão, outro americano – estão a montar fábricas concorrentes em Singapura [6]. Todos eles virão a produzir biodiesel a partir da mesma fonte: óleo de palma.

 

«A procura pelo biodiesel», informa o Malaysian Star, «virá da Comunidade Europeia… Esta nova procura… viria, no mínimo, absorver a maioria dos stocks de óleo de palma bruto da Malásia» [7]. Porquê? Porque é mais barato que o biodiesel produzido a partir de qualquer outra cultura.

 

Em Setembro, os Amigos da Terra (Friends of the Earth) publicaram um relatório sobre o impacto da produção de óleo de palma. «Entre 1985 e 2000», concluía-se, «o desenvolvimento das plantações de óleo de palma foi responsável por uma desflorestação na Malásia estimada em 87%» [8]. Em Sumatra e no Bornéu, cerca de 4 milhões de hectares de floresta foram convertidos em plantações de palmeiras. Agora está projectada a liquidação de mais 6 milhões de hectares na Malásia, e outros 16,5 milhões na Indonésia.

 

Quase toda a floresta remanescente está em risco. Até o famoso Parque Nacional Tanjung Puting em Kalimantan está a ser devastado pelos plantadores do óleo. O orangotango provavelmente será extinto no estado selvagem. Os rinocerontes, os tigres, os tapires, os gibões, os macacos probóscides e milhares de outras espécies podem ter o mesmo destino. Milhares de indígenas foram expulsos das suas terras, e cerca de 500 indonésios foram torturados quando tentaram resistir [9]. Os incêndios florestais que tão frequentemente sufocam a região com smog são iniciados sobretudo por plantadores de palma. Toda a região está a ser transformada num gigantesco campo de óleo vegetal.

 

Antes de serem plantadas as palmeiras, que são pequenas e sem préstimo, muitas outras árvores de floresta, que contêm uma muito maior armazenagem de carbono, têm de ser abatidas e queimadas. Uma vez esgotadas as terras mais secas, as plantações estão a mover-se para as florestas de pântano, que crescem sobre turfa. Depois de terem cortado as árvores, os agricultores drenam o solo. À medida que a turfa seca, oxida­‑se, libertando ainda mais dióxido de carbono do que as árvores. Em termos de impacto quer no ambiente local quer no global, o biodiesel de palma é mais destrutivo do que o petróleo bruto da Nigéria.

 

O governo britânico compreende isto. Num relatório que publicou no mês passado, quando anunciou que ia obedecer à UE e garantir até 2010 que 5,75% do nosso combustível para o transporte proviesse de plantas, admitiu que «os principais riscos ambientais são provavelmente os relativos a uma ampla expansão na produção da matéria-prima para o biodiesel, particularmente no Brasil (com a cana de açúcar) e no sudeste asiático (com as plantações de óleo de palma)» [10]. Sugeria-se que o melhor meio para lidar com o problema era impedir a importação de combustíveis ambientalmente destrutivos. O governo perguntou aos seus consultores se uma proibição infringiria as regras de comércio mundial. A resposta foi sim: «critérios ambientais compulsórios … aumentariam grandemente o risco de desafio legal internacional a essa política como um todo» [11]. Assim, em vez disso, abandonou a ideia de banir as importações e apelou a «alguma forma de esquema voluntário» [12]. Sabendo que a criação deste mercado vai levar a um incremento maciço das importações de óleo de palma, sabendo que não há nada significativo que possa fazer para as impedir, e sabendo que vai acelerar ao invés de atenuar a mudança climática, o governo decidiu avançar mesmo assim.

 

Noutras alturas, o governo desafia alegremente a UE. Mas o que a UE quer e aquilo que o governo quer é a mesma coisa. «É essencial que equilibremos o aumento da procura por viagens», diz o relatório do governo, «com os nossos objectivos de protecção do ambiente» [13]. Até recentemente, tínhamos uma política de redução da procura por viagens. Agora, embora não tenha sido feito qualquer anúncio, essa política desapareceu. Tal como os conservadores no início dos anos 90, a administração trabalhista tenta acomodar a procura, por mais que ela suba. Os números obtidos na semana passada pelo grupo activista Road Block mostram que só para o alargamento da auto-estrada M1 o governo vai pagar 3,6 mil milhões de libras [5,3 mil milhões de euros] – mais do que está a gastar em todo o seu programa para a mudança climática [14]. Em vez de tentar reduzir a procura, está a tentar alterar a oferta. Está pronto a sacrificar as florestas tropicais do sudeste asiático para parecer actuante e permitir aos motoristas que se sintam melhor consigo próprios.

 

Tudo isto ilustra a futilidade dos remendos tecnológicos (technofixes) agora perseguidos em Montreal. Tentar atender uma procura crescente por combustível é loucura, de onde quer que provenha o combustível. As decisões difíceis foram evitadas, e mais uma porção da biosfera está a esfumar-se.

 

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[1] Jeffrey S. Dukes, “Burning Buried Sunshine: Human Consumption Of Ancient Solar Energy”. Climatic Change 61: 31-44, 2003. [Biota: conjunto da flora e da fauna existente num sistema. (n. trad.)]

[2] A British Association for Biofuels and Oils estima a quantidade em 100.000 toneladas por ano. BABFO, Memorandum to the Royal Commission on Environmental Pollution, sem data.

[3] George Monbiot, Alimentar carros, não pessoas, 22/11/2004.

[4] Tamimi Omar, Felda to set up largest biodiesel plant. The Edge Daily, 01/12/2005.

[5] Ver Zaidi Isham Ismail, IOI to go it alone on first biodiesel plant (doc, 288 Kb), 07/11/2005; sem autor, GHope nine-month profit hits RM841mil, 25/11/2005; sem autor, GHope to invest RM40mil for biodiesel plant in Netherlands, 26/11/2005; sem autor, Malaysia IOI Eyes Green Energy Expansion in Europe, 23/11/2005.

[6] Loh Kim Chin, Singapore to host two biodiesel plants, investments total over S$80m. Channel NewsAsia, 26/10/2005.

[7] C.S. Tan, All Plantation Stocks Rally, 06/10/2005.

[8] Friends of the Earth et al, The Oil for Ape Scandal: how palm oil is threatening orang-utan survival (pdf, 421 Kb). Research report. Setembro 2005.

[9] ibid.

[10] Department for Transport, Renewable Transport Fuel Obligation (RTFO) feasibility report, Novembro 2005.

[11] E4Tech, ECCM and Imperial College, Feasibility Study on Certification for a Renewable Transport Fuel Obligation. Final Report. Londres, Junho 2005.

[12] Department for Transport, ibid.

[13] ibid.