|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
20/09/2005 Um mundo virado do avesso A negação da mudança climática atravessou quatro etapas.
Primeiro os lobistas dos combustíveis fósseis disseram‑nos que o
aquecimento global era um mito. Depois concordaram que ele estava a ocorrer,
mas insistiram que era uma coisa boa: podíamos cultivar vinho nas Pennines e
tirar férias mediterrânicas em Skegness. Depois admitiram que os malefícios
superavam os benefícios, mas disseram que custaria mais combatê‑los do
que tolerá‑los. Agora eles atingiram a etapa 4. Eles anuíram que seria
mais barato prevenir do que negligenciar, mas mantiveram que agora é tarde
demais. Este é o seu argumento mais persuasivo. Hoje, os climatologistas do Snow and Ice Data Centre vão
publicar os resultados da última observação por satélite do gelo do oceano Árctico
[1]. Parece que a cobertura deste mês será a mais baixa alguma vez registada.
O Árctico, avisam, poderia já ter atingido o ponto de ruptura: o momento para
lá do qual o aquecimento se torna irreversível [2]. Conforme o gelo
desaparece, a superfície do mar torna-se mais escura, absorvendo mais calor.
Menos gelo se forma, por isso mais escuro o mar se torna, e assim
progressivamente. No mês passado, a New Cientist noticiou que algo
similar está a acontecer na Sibéria. Pela primeira vez, há registo de que o permafrost
[camadas permanentemente geladas]ocidental da Sibéria está a derreter [3]. À
medida que isso acontece, liberta o metano armazenado na turfa. O metano tem
um impacto vinte vezes superior ao dióxido de carbono no aquecimento da
atmosfera. Quanto mais gás a turfa libertar, mais quente o mundo se tornará,
e mais o permafrost derreterá. Há duas semanas atrás, cientistas da Universidade de
Cranfield descobriram que os solos na Grã-Bretanha têm estado a libertar o
carbono que contêm: conforme a temperatura sobe, a decomposição da matéria
orgânica acelera, o que causa mais aquecimento, o que causa mais
decomposição. O solo deste país já libertou dióxido de carbono suficiente
para neutralizar os cortes de emissões que realizamos desde 1990 [4]. Estes são exemplos de feedback positivo: efeitos de
auto-reforço que, uma vez despoletados, são difíceis de travar. Estão a
fazer-se sentir muito antes do que era suposto. O painel intergovernamental
sobre mudança climática, que prevê até onde a temperatura mundial é provável
subir, ainda não teve tempo de incluí-los nos seus cálculos. A corrente
previsão – de 1,4 para 5,8 graus neste século – é quase certamente muito
baixa. Há uma semana, eu diria que se é tarde demais, então um
factor sobre todos os outros é responsável: o peso esmagador dos grandes
negócios na política económica. Proibindo os governos de intervir
efectivamente no mercado, as corporações obrigam-nos a não fazer nada a não
ser esperar e olhar enquanto o planeta coze. Mas na quarta‑feira descobri
que isso não é assim tão simples. Numa conferência organizada pelo Building
Research Establishment, testemunhei uma coisa extraordinária: as companhias a
solicitar regulação mais dura, e o governo a recusar conceder [5]. Os gestores ambientais da BT e da Jonh Lewis (que detém
a Waitrose) queixaram-se de que sem padrões elevados a que toda a gente tenha
que se conformar, as suas companhias põem‑se a elas próprias em
desvantagem se tentarem ser ecológicas. «Tudo isso conta», disse o homem de
Jonh Lewis, «são custos, custos e mais custos». Se ele comprar iluminação
amiga do ambiente e os seus competidores não, ele perde. Como resultado,
disse, «eu dei as boas vindas à Energy Performance of Buildings Directive
[Directiva de Desempenho de Energia dos Edifícios] da UE, pois vai forçar os
retalhistas a tomar esses assuntos a sério» [6]. Sim, eu ouvi o grito do
unicórnio: um executivo corporativo a dar as boas vindas a uma directiva
europeia. E do governo? Nada. Elliot Morley, o ministro para a
mudança climática propôs-se fazer tão pouco quanto lhe fosse permitisse. Os
responsáveis do Departamento de Comércio e Indústria, em resposta a um gemido
colectivo dos homens de fato, insistiram que as medidas que algumas
companhias queriam seriam «uma indevida intervenção no mercado». Foi extremamente frustrante. Os homens de fato tinham
vindo para revelar tecnologias do tipo que realmente poderia salvar o
planeta. Os arquitectos do Atelier Ten tinham desenhado um sistema de
refrigeração inspirado nas galerias escavadas pelas térmites. Instalando um
labirinto de betão nas fundações, eles poderiam manter mesmo um grande
edifício num sítio quente – como o centro de artes que tinham construído em
Melbourne – a uma temperatura constante sem ar condicionado [7]. A única energia
de que precisavam era para comandar os ventiladores que puxam o ar frio para
cima, usando 10% da electricidade requerida para sistemas de ventilação
normais. O homem de uma companhia chamada PB Power explicou como
os 400 megawatts de resíduos quentes despejados para o Tamisa pela central
eléctrica a gás em Barking poderiam ser aproveitados para aquecer as casas
circundantes. Uma firma chamada XCO2 projectou uma turbina de vento
praticamente silenciosa, que se dependura, como uma corda de roupa, de um eixo
vertical. Pode ser instalada no meio de uma cidade sem perturbar ninguém. Só estas três tecnologias poderiam reduzir as emissões
de carbono em milhões de toneladas sem causar qualquer declínio da nossa
qualidade de vida. Como milhares de outras, elas estão prontas para arrancar
imediatamente e quase universalmente. Mas o seu uso não será alargado
enquanto os governo não agirem: continua a ser mais barato para as companhias
instalar as velhas tecnologias. E o governo não agirá porque isso seria «uma
indevida intervenção no mercado». Essa não foi, descobri agora, a primeira vez que as
corporações solicitaram regulação. Em Janeiro, o presidente da Shell, Lord
Oxburgh, insistiu que «os governos em países desenvolvidos precisam de
introduzir taxas, regulações ou planos... para aumentar os custos da emissão
de dióxido carbono» [9]. Ele listou as tecnologias requeridas para substituir
os combustíveis fósseis, e observou que «nada disso irá acontecer se o
mercado ficar entregue a si próprio». Em Agosto as cabeças da United
Utilities, British Gas, Scottish Power e da National Grid juntaram-se aos
Amigos da Terra e Greenpeace no apelo por «regulação mais dura para o
ambiente urbano» [10]. Chega da demanda perpétua dos thinkthanks para «tirar o
governo das costas dos negócios». Qualquer firma que queira desenvolver novas
tecnologias quer novas regras mais duras. É a regulação que cria o mercado. Então porque é que o governo não age? Porque compactua
com as companhias sujas contra as limpas. A desregulação tornou-se o teste da
sua virilidade: o sinal de que deixou para trás os maus velhos tempos do
planeamento económico. Sir David Arculus, o homem nomeado por Blair para
dirigir a Better Regulation Task Force [Equipa de Trabalho para Melhor
Regulação] do governo, é também vice‑presidente da Confederação da
Indústria Britânica, a voz mais insistente na necessidade de pôr o mercado à
frente da sociedade. É difícil de imaginar um conflito de interesses mais
óbvio. Não acredito que seja tarde demais para minimizar a mudança
climática. Muita da evidência sugere que poderíamos ainda impedir o
ecossistema de derreter, mas só reduzindo as emissões de gases de efeito
estufa em 80% até 2030. Estou a trabalhar num livro que mostra como isso pode
ser feito, tecnicamente e politicamente. Mas tornou-se agora claro para mim
que o obstáculo não é o mercado mas o governo, acenando um tratado com
orelhas de cão que prova algum ponto num debate que o resto do mundo
esqueceu. ________ [1] Isto foi reportado por Steve Connor, no dia 16 de Setembro
de 2005. Global warming ‘past
the point of no return’. The Independent. Mas o centro acabou de anunciar que
os seus resultados não serão publicados até ao final do mês. http://nsidc.org/news/ [2] Steve Connor, ibid. [3] Fred
Pearce, “Climate warning as Siberia melts”. New Scientist, 11 de Agosto de 2005. [4] John
Pickrell, “Soil may spoil UK’s climate efforts”. New Scientist, 7 de Setembro de 2005. [5] Resource ‘05, 13-15 Setembro de 2005. BRE,
Watford. [6] Bill
Wright, director de energia e ambiente, John Lewis Partnership. [7] Ver http://www.atelierten.com/ourwork/profiles/0513-federation-square.pdf. [8] Quiet
Revolution 6kW. Brochura
da XCO2. Offord St, London. www.xco2.com/quietrevolution [9] Lord Oxburgh, 27 de Janeiro de 2005. Citado
no comunicado de imprensa da Greenpeace: Shell
Chair urges government to act now on climate change. [10] Tony Juniper et al, Letter to Margaret Beckett and other ministers, 1 Agosto de 2005. Disponível a pedido aos Amigos da Terra [Friends of the Earth]. |