Informação Alternativa

União Europeia

04/10/2005

 

Os que protestam são criminosos

– E quase ninguém está a contestar a nova tendência –

 

George Monbiot

 

«Estamos a tentar combater o crime do século XXI – comportamento anti-social, tráfico de droga, alcoolismo compulsivo, crime organizado – com métodos do século XIX, como se ainda vivêssemos no tempo de Dickens». Tony Blair, 27 de Setembro de 2005 [1].

 

«Para baixo fluiu o vinho como o óleo sobre o fogo chamejante. E ainda o motim continuou – o deboche ganhou a sua altura – copos foram atirados para o chão por mãos que não podiam elevá­­‑los aos lábios, juramentos foram gritados por lábios que mal podiam formar as palavras para os proferir; perdedores bêbedos amaldiçoaram e rugiram; alguns subiram às mesas, empunhando garrafas acima das suas cabeças e instando os outros à resistência; alguns dançavam, alguns cantavam, alguns rasgavam as cartas e enfureciam­‑se. O tumulto e o frenesim reinavam supremos...». Nicholas Nickleby, Charles Dickens, 1839 [2].

 

Todos os políticos que pretendem justificar legislação repressiva afirmam estar a responder a uma ameaça sem precedentes à ordem pública. E todos os políticos que citam tal ameaça delineiam medidas de resposta que podem perfeitamente ser utilizadas contra protestos democráticos. Nenhuma lei foi aprovada nos últimos 20 anos com o objectivo de evitar o comportamento anti-social, a conduta desordeira, a invasão de propriedade, o assédio e o terrorismo, que não tenha também servido para criminalizar um empenhamento público pacífico em questões políticas. Quando Walter Wolfgang foi detido brevemente pela polícia depois de fazer perguntas embaraçosas ao ministro dos negócios estrangeiros, na semana passada, o público teve uma visão de algo que alguns de nós temos, de forma vã, andado a agitar há anos.

 

Na sexta-feira, seis estudantes e licenciados da Universidade de Lancaster foram condenados por invasão de propriedade agravada. O seu crime foi terem entrado numa sala de conferências e entregado folhetos à audiência. Pessoal da universidade encontrava­‑se com pessoas da BAE Systems, Rolls Royce, Shell, Carlyle Group, GlaxoSmithKline, DuPont, Unilever e Diageo, para aprender como «comercializar a investigação universitária» [3]. Os estudantes esperavam persuadir os investigadores a não venderem o seu trabalho. Estiveram na sala durante três minutos. Tal como o próprio juiz disse, eles não tentaram nem intimidar ninguém nem impedir a conferência de seguir o seu curso [4].

 

Foram julgados de acordo com a Lei da Justiça Criminal, de 1994, aprovada quando Michael Howard era o ministro da administração interna dos Conservadores. Mas a universidade pôde utilizá-la, apenas porque os trabalhistas emendaram a lei em 2003, de forma a assegurar que poderia ser aplicada em qualquer lugar, em vez de apenas «ao ar livre» [5].

 

Se Wolfgang tivesse dito «tretas» duas vezes durante o discurso do ministro dos negócios estrangeiros, a polícia poderia tê-lo acusado de acordo com a Lei de Protecção de Assédio, de 1997. Assédio, diz a lei, «deve envolver conduta em pelo menos duas ocasiões... a conduta inclui o discurso» [6]. Disse-se ao parlamento que a sua finalidade era proteger as mulheres de assediadores, mas as primeiras pessoas a serem presas foram três manifestantes pacíficos [6]. Desde então, tem sido utilizada pelo fabricante de armas EDO para manter os manifestantes afastados dos seus portões [7], e pela polícia de Kent para deter uma mulher que enviou duas mensagens electrónicas educadas a um executivo duma empresa de medicamentos, pedindo-lhe para não testar os seus produtos em animais [8]. Em 2001, os pacifistas Lindis Percy e Anni Rainbow foram acusados de causar «assédio, alarme ou inquietação» a um funcionário norte­‑americano na base dos serviços secretos militares de Menwith Hill, em Yorkshire, por estarem à porta com a bandeira dos EUA e uma placa a dizer «George W Bush? Oh dear!» [9]. Em Hull, um manifestante foi detido de acordo com a mesma lei por estar a «olhar para um edifício» [10].

 

Se Wolfgang tivesse dito «tretas» a um dos gorilas que o arrastou para fora da conferência, poderia ter sido acusado, de acordo com a secção 125 da Lei do Crime Organizado Sério e da Polícia, de 2005, que entrou em vigor em Agosto. A secção 125 acrescentou uma nova definição de assédio à lei de 1997: «um curso de conduta... que envolva assédio a duas ou mais pessoas». O que isso significa é que basta que você se dirija a uma pessoa uma vez para se considerar que está a praticar assédio, desde que se tenha dirigido a outra do mesmo modo. Esta disposição, por outras palavras, pode ser utilizada para criminalizar qualquer protesto em qualquer lugar. Mas quando a lei passou pelas câmaras dos Comuns e dos Lordes, ninguém contestou ou mesmo o notou.

 

A secção 125 ainda não foi utilizada, mas a secção 132 da lei já se está a tornar numa arma eficaz contra a democracia. Isto impede as pessoas de se manifestarem numa área “designada” pelo governo. Uma dessas áreas é o quilómetro quadrado à volta do parlamento. Desde que a lei entrou em vigor, manifestantes pela democracia têm feito um piquenique na Praça do Parlamento, todos os domingos à tarde (http://www1.atwiki.com/picnic/). Até este momento, foram detidas dezassete pessoas [11].

 

Mas a lei que se tem provado mais útil para a polícia é aquela sob a qual Wolfgang foi detido: a secção 44 da Lei do Terrorismo, de 2000. Permite-lhes deter e revistar pessoas sem a necessidade de demonstrar uma “suspeita razoável” de que está ser cometido um ilícito. Têm utilizado esta lei para fazer passar manifestantes pacíficos pelo inferno.

 

No início de 2003, manifestantes contra a guerra eminente com o Iraque montaram um acampamento à porta da base militar de Fairford, em Gloucestershire, a partir da qual os B52 iriam lançar os seus raids de bombardeamentos. Todos os dias – algumas vezes, várias vezes ao dia – os manifestantes foram detidos e revistados sob a secção 44 [12]. A polícia, de acordo com uma resposta parlamentar, utilizou a lei 995 vezes, apesar de saberem que ninguém no acampamento era um terrorista [13]. O assédio e as detenções constantes quebraram bastante a determinação dos manifestantes. Desde então, a polícia tem utilizado a mesma secção para chatear manifestantes à porta do depósito de bombas de Welford, em Berkshire, no Estabelecimento de Bombas Atómicas de Aldermaston, em Menwith Hill e na feira anual de armamento nas Docklands londrinas [14].

 

A policia também está a redescobrir os benefícios de alguns dos nossos mais veneráveis instrumentos. No dia 10 de Setembro, Keith Richardson, um dos seis estudantes condenados por invasão de propriedade agravada na sexta-feira, viu a sua banca na cidade de Lancaster confiscada, de acordo com a Lei da Vagabundagem de 1824 [15]. «Todas as pessoas que andem a vaguear e a pretenderem, pela exposição de feridas ou deformações, obter ou juntar esmolas... devem ser consideradas párias e vagabundos...» [16]. Esta lei pretendia impedir os veteranos das guerras napoleónicas de pedir, mas a polícia decidiu que as imagens das feridas e deformações dos seus folhetos anti-vivissecção o punham do lado errado da lei. Em dois casos recentes, houve manifestantes que foram detidos de acordo com a Lei das Justiças da Paz, de 1361. Lá se vão os «métodos do século XXI» de Blair.

 

O que é mais extraordinário em tudo isto é que até Wolfgang ter sido detido, nem os parlamentares nem a imprensa estavam interessados. O grupo de pressão Liberty, o Green Party, meia dúzia de comediantes alternativos, a rede Indymedia e a revista alternativa Schnews, têm sido deixados a defender as nossas liberdades civis quase sem ajuda. Mesmo depois de “Wolfie” ter sido expulso da conferência, a crítica pública centrou­‑se na supressão da dissidência dentro do partido trabalhista, em vez de se centrar na supressão da dissidência em todo o país. Numa altura em que a oposição parlamentar cai aos pedaços, a oposição extra­‑parlamentar está a ser colocada fora de jogo, sem que se ouça sequer um murmúrio de protesto dos fanfarrões e arrogantes que insistem que as liberdades civis são a dádiva britânica ao mundo. Talvez tenham medo de serem presos.

 

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[1] Tony Blair, 27 de Setembro de 2005. Discurso da conferência do Partido Trabalhista.

[2] Pág. 757 da edição Penguin de 1978.

[3] George Fox 6 Supporters Group, Students Face Jail for Handing out Leaflets at University [Estudantes enfrentam prisão por entregarem folhetos na universidade]. Nota de imprensa, sem data. Há mais informação em: http://www.free-webspace.biz/GeorgeFox/.

[4] George Fox 6 Supporters Group. Student demonstrators will appeal aggravated trespass conviction [Estudantes irão apelar da condenação por invasão de propriedade agravada]. Nota de imprensa, 30 de Setembro de 2005.

[5] Secção 59, Lei do Comportamento Anti-Social de 2003.

[6] SchNEWS, Issue 159. 20 Março 1998. http://www.schnews.org.uk/.

[7] Smash Edo, Arms Dealers Drop Legal Bombshell On Protesters. Nota de imprensa, 26 Março 2005. http://www.smashedo.org.uk/.

[8] Simon Dally, pers comm, 4 de Agosto de 2004 e 21 de Fevereiro de 2005. Simon Dally foi conselheiro legal neste caso.

[9] Yorkshire CND. Diário de notícias de Menwith Hill. 13 de Dezembro de 2000 e 16 de Janeiro de 2001. http://www.cndyorks.gn.apc.org/caab/articles/caabspmhs.htm.

[10] Schnews, Issue 293. 16 de Fevereiro de 2001.

[11] Mark Barrett, People’s Commons protester, 2 de Outubro de 2005. Pers comm.

[12] Liberty, Inspectores de Armas de Gloucestershire e Berkshire CIA, Casualty of War: 8 weeks of counter-terrorism in rural England [pdf, Baixa de Guerra: 8 semanas de contra-terrorismo na Inglaterra rural]. 2003.

[13] Bob Ainsworth MP. Holding Answer. 11 de Abril de 2003.

[14] Inspectores de Armas de Gloucestershiree CIA de Berkshire , ibid.

[15] Keith Richardson, pers comm, 30 de Setembro de 2005.

[16] Uma lei para a punição de indigentes e desordeiros, e párias e vagabundos, naquela parte da Grã­‑Bretanha chamada Inglaterra, 1824.