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16/08/2005 Uma vida sem propósito Nem tudo está perdido na América. Quando George Bush se pronunciou, há
algumas semanas, a favor do ensino do “desígnio inteligente” — a nova
manifestação do criacionismo — a imprensa deu‑lhe a maior força. Os
talibãs cristãos ainda não venceram. Mas estão a ganhar‑nos. Até agora, houve tentativas legislativas
em 13 estados de acrescentar o desígnio inteligente ao currículo escolar [1].
Nos estados do Kansas, Texas e Filadélfia, já está com um pé dentro. Em Abril,
abriu um novo “museu de história da terra” no Arkansas, o qual informa os visitantes
que «os dinossauros e os humanos coexistiram», e que os dinossauros juvenis,
embora Deus se tenha esquecido de mencioná-lo, apanharam uma boleia na Arca
de Noé [2]. Museus similares estão a ser construídos no Texas e no Kentucky.
Cerca de 45% dos americanos, segundo uma sondagem da Gallup do ano passado,
acreditam que «os seres humanos não evoluíram, mas antes foram criados por
Deus… essencialmente na sua forma actual há cerca de 10 mil anos atrás» [3]. E não só na América. No mês passado, o arcebispo católico de Viena, o
cardeal Christoph Schönborn, afirmou que «qualquer sistema de pensamento que
negue ou não procure explicar a incrível evidência de um desígnio na biologia
é ideologia, não ciência» [4]. Parece que ele tem o apoio do novo Papa [5].
Na semana passada, o ministro da Educação da Austrália, Brendan Nelson,
anunciou que «se as escolas também quiserem apresentar aos estudantes o desígnio
inteligente, não tenho qualquer problema com isso» [6]. No Reino Unido, o
director de uma das novas academias de Tony Blair patrocinadas por empresas
comerciais reivindica que a evolução é meramente uma «posição de fé» [7]. A controvérsia fascina‑me. Em parte devido às suas
similaridades com a disputa sobre a mudança climática. Tal como os
negacionistas da mudança climática, os defensores do desígnio inteligente
seleccionam cuidadosamente os dados que parecem apoiar o seu caso. Eles pedem
provas, depois ignoram‑nas, quando elas lhes são apresentadas. Eles
invocam uma conspiração para explicar o consenso científico, e não se sentem embaraçados
com o seu próprio analfabetismo científico. Num artigo publicado no American
Chronicle na sexta‑feira, o jornalista Thomas Dawson afirmou que «todos
os grupos vertebrados, dos peixes aos mamíferos, surgem [nos registros
fósseis] ao mesmo tempo», e que se a evolução «fosse verdadeira, haveria
fósseis de vida animal de animais específicos, sem visão, e outros com
diferentes graus de desenvolvimento da vista… Tais fósseis não existem» [8].
(Os primeiros peixes e os primeiros mamíferos estão, de facto, separados por
um período de cerca de 300 milhões de anos, e os registros fósseis têm mais
olhos, em todos os estágios de desenvolvimento, que a CIA). Mas o assunto também me fascina porque a selecção natural é um território
estéril para os fundamentalistas cultivarem. Por 146 anos, a evolução
darwiniana tem sido examinada de todos os ângulos. Há um imenso acúmulo de
evidência — dos registros fósseis à genética, à observação directa — que
parece apoiá-la. Se eles se concentrassem, antes, nas questões que agora
atacam a teoria do big bang [9], ou no fracasso até agora de reconciliar a
gravidade com a física quântica, ou na persistente não-aparição do bóson de
Higgs e o duradouro mistério do fenómeno da massa, seria muito mais difícil
confrontar os conservadores cristãos. Porquê implicar com Darwin? É seguramente porque, logo que se consideram as implicações, deve-se
cessar de acreditar que tanto a Vida como a vida sejam afectadas por um
propósito. Como G. Thomas Sharp, presidente da Creation Truth Foundation,
admitiu ao Chicago Tribune: «Se perdemos o Génesis como uma explicação
científica e histórica legítima para o ser humano, então perdemos a validade
do cristianismo. Ponto final» [10]. Perdemos muito mais do que isso. A evolução darwiniana diz‑nos
que somos um composto incipiente: colecções de moléculas complexas que — sem
maiores propósitos que garantir fontes de energia contra reivindicações
concorrentes — desenvolveram a habilidade de especular. Depois de um certo
número de anos, as moléculas desagregam‑se e voltam para de onde
vieram. Ponto final. Como jardineiro e ecologista, acho isso estranhamente reconfortante.
Gosto da ideia da reencarnação literal: que as moléculas que me compõem vão,
depois de eu apodrecer, ser incorporadas noutros organismos. Pedacinhos de
mim serão levados até às extremidades das árvores, vão rastejar sobre elas como
larvas, vão caçar essas larvas como pássaros. Quando morrer, gostaria de ser
enterrado de um modo que garanta que nenhuma parte de mim seja desperdiçada.
Depois poderei afirmar ter sido útil afinal de contas. Não é isto melhor que a horrível lotaria do julgamento? Um futuro que
podemos predizer não é mais reconfortante que outro empenhado nos caprichos
de uma autoridade inescrutável? A morte eterna não é uma perspectiva mais
feliz que a vida eterna? Os átomos que nos compõem, que pedimos emprestados
momentaneamente da ecosfera, serão reciclados até que o universo colapse. Esta
é a nossa continuidade, a nossa eternidade. Porque deveríamos querer mais? Há dois dias, eu teria afirmado que a procura por mais era universal
— que cada sociedade tem ou teve a sua história da criação e, como disse
Joseph Campbell, «será sempre a história que muda um pouco de forma, mas maravilhosamente
constante, aquela que encontramos» [11]. Mas ontem li um estudo do
antropólogo Daniel Everett sobre a linguagem do povo piraha, da Amazónia
brasileira, publicado na última edição da Current Anthropology [12].
As suas conclusões dificilmente poderiam ser mais incómodas, ou mais
profundas. Os pirahas, revela Everett, possuem «a mais complexa morfologia
verbal de que eu tenha conhecimento [e] são as pessoas mais inteligentes,
agradáveis e amantes do divertimento que eu conheço». Contudo, não têm
qualquer espécie de número, nenhum termo para a quantificação (tais como:
tudo, cada, todo, maioria e algum), nenhum termo para as cores e nem
pretérito perfeito. Parece que eles retiraram os seus pronomes de outra
língua, sendo que, previamente, não possuíam nenhum. Eles não têm nenhuma «memória
individual ou colectiva de um passado de mais de duas gerações», não têm
desenho nem outras artes, não têm ficção e «não têm histórias de criação ou
mitos». Tudo isso, acredita Everett, pode ser explicado por uma única
característica: «A cultura dos pirahas restringe a comunicação a assuntos não‑abstractos
que ocorrem dentro da experiência imediata [de quem fala]». O que pode ser
discutido, em outras palavras, é aquilo que foi visto. Quando já não pode ser
apercebido, deixa, pelo menos nessa esfera, de existir. Depois de se
defrontar com uma curiosidade gramatical, ele percebeu que os pirahas estavam
«a falar de liminaridade — situações nas quais um item entra e sai dos
limites da sua experiência. A excitação [deles] ao ver uma canoa passar pela
curva de um rio é difícil de descrever; eles vêem isso quase como viajar para
outra dimensão». Os pirahas, povo ainda vivo, olham o pardal esvoaçar para dentro
e para fora do salão de festas. [13] «Feliz a lebre pela manhã», escreveu o poeta W.H. Auden, «porque ela
não pode ler/os pensamentos do caçador ao despertar. Feliz a folha/incapaz de
predizer a queda. ... Mas o que pode fazer o homem, que sabe assobiar melodias
de cor,/ sabendo o compasso de quando a morte o ceifará, como o grito da gaivota?»
[14] Parece‑me que nós somos os felizardos. Nós, sós entre os
organismos, que percebemos a eternidade, e sabemos que o mundo prosseguirá
sem nós. __________ [1] Debora Mackenzie, “A Battle for Science’s
Soul”. New Scientist, 09/07/2005. [2] Ver http://www.moeh.org/main/index.htm. [3] Lisa Anderson, “Museum exhibits a
creationist viewpoint”. Chicago Tribune, 07/08/2005. [4] Christoph Schönborn, “Finding Design in
Nature”. New York Times, 07/07/2005. [5] Michael McCarthy, “Evolution dispute now
set to split Roman Catholic hierarchy”. The Independent, 05/08/2005. [6] David Wroe, “Intelligent design an
option: Nelson”. The Age, 11/08/2005. [7] Tania Branigan, “Creationist row blamed
on support for faith schools”. The Guardian, 19/03/2002. [8] Thomas Dawson, “Intelligent Design and
Evolution”. The American Chronicle, 10/08/2005. [9] Ver Marcus Chown, “Did the big bang
really happen?” New Scientist, 02/07/2005. [10] Lisa Anderson, ibid. [11] Joseph Campbell, The Hero with a
Thousand Faces. 1949, republicado em 1988 por Paladin, London. [12] Daniel L. Everett, “Cultural Constraints
on Grammar and Cognition in Piraha”. Current Anthropology, Volume 46,
Number 4, Agosto-Outubro 2005. [13] Bede, A History of the English Church
and People. 731. «Outro dos principais homens do rei… prosseguiu
dizendo: “Majestade, quando comparamos a actual vida do homem com aquele
tempo de que não temos conhecimento, parece‑me como o ligeiro voo de
um pardal solitário através do salão de festas onde vos sentais nos meses de
inverno para jantar com os vossos barões e conselheiros. Dentro há um fogo
reconfortante para aquecer a sala; fora, assolam as tempestades invernais de
neve e chuva. Este pardal voa ligeiramente para dentro por uma porta do salão,
e para fora por outra. Enquanto está dentro, está a salvo das tempestades de
inverno; mas após uns breves momentos de conforto, desaparece de vista para a
escuridão de onde veio. De modo semelhante, o homem aparece na terra durante
algum tempo, mas nada sabemos do que aconteceu antes desta vida, e do que se
seguirá». [14] W.H. Auden, The Dog Beneath the Skin. 1935. Esta peça em verso é agora difícil de obter. Há um extracto em que esta parte aparece em Kenneth Allott, Contemporary Verse. Penguin, London, 1950. |