Informação Alternativa

Mundo

30/06/2005

 

Salvem­‑nos de nós próprios

 

George Monbiot

 

Mostre-me um ambientalista, e eu mostrar-lhe-ei um hipócrita. Numa entrevista ao Guardian recentemente, Chris Martin, o vocalista dos Coldplay e excelente rapaz, falou das suas preocupações em relação à alteração do clima. No seu novo álbum há «um tema intenso, zangado, a encorajar as pessoas a tomar as decisões certas sobre como vivem e como tratam o planeta». Uns parágrafos abaixo, ele revela que está prestes a «voar num jacto privado para Palm Springs... A banda pode agora voar sempre que precisar» [1]. Nem Martin nem o entrevistador pareceram reconhecer a contradição.

 

No princípio da sua “Bíblia Orgânica", Bob Flowerdew explica que jardinagem orgânica significa minimizar «qualquer efeito nocivo que possamos ter no ambiente». Ele continua com jactância que «enquanto a maior parte das pessoas estão ainda a plantar as suas novas batatas na sexta-feira santa... Eu estou a comer as minhas». Como? Por cultivá-las numa estufa aquecida.

 

Eu não me escuso. Manifesto­‑me contra os carros, mas tento esquecer­‑me do impacto das minhas viagens de comboio. Convenci-me a mim próprio de que quando viajo para outros países, o trabalho que eu lá faço de alguma forma compensa o efeito das minhas emissões de carbono. Não há diferença ambiental, é claro, entre a minha viagem e a da pessoa ao meu lado. E quanto a viajar para casa dos meus parentes na Suécia...

 

Mas não sou tão mau como muitos ambientalistas proeminentes. Conheço homens e mulheres que dedicam a sua vida a dizer aos outros o que não fazer, mas passam as suas férias a mergulhar no Pacífico, atiram as suas latas e garrafas no caixote de lixo, comem atum e bacalhau. Não sei quantas vezes vi esses embaraçados sorrisos quando perguntei, de caroço da maçã na mão, onde ficava o lixo reciclável.

 

Na ausência de acção governamental, o ambientalismo é, e sempre será, para outras pessoas. No máximo, ele é um esforço hesitante e contraditório para fazer a coisa certa. No mínimo, e especialmente quando articulado pela elite, é um meio de assegurar espaço ecológico para si contra os clamores em competição das massas. O movimento ambientalista na Grã­‑Bretanha e nas suas colónias surgiu em parte dos esforços contra a caça furtiva: reservas de caça foram transformadas em reservas naturais para o benefício contínuo da classe dos caçadores. Irão as campanhas da alteração climática reservar agora espaço aéreo para as pop stars?

 

Nada de nenhuma substância pode acontecer por meio de abstinência auto­‑infligida. Por muito bem intencionados que sejamos, iremos deixar passar os nossos assaltos na natureza, enquanto reconheceremos os das outras pessoas. Iremos persuadir­‑nos de que estamos a fazer a coisa certa por adoptar medidas sem impacto significativo, enquanto continuamos a consumir até onde o cartão de crédito permitir. A única maneira em que as alterações climáticas ou qualquer outro impacto ambiental podem ser encaminhados é através da acção governamental: regulamentos e taxas aplicáveis a todos, em vez de aos outros.

 

“Democracia do consumidor”, “simplicidade voluntária” e “modo de vida consciente” provaram ser uma desastrosa distracção da batalha política. Não funcionam por todo o tipo de razões, mas acima de tudo por causa da hipocrisia desconcertante das pessoas bem intencionadas. Se queremos mudar o mundo, temos que forçar os governos a forçar­‑nos a mudar o nosso comportamento.

 

Isso, é claro, é a última coisa que eles querem fazer. Os rascunhos conhecidos do acordo do G8 sobre a alteração climática colocaram o futuro entre parêntesis. A última versão recusa inclusive que a alteração climática esteja a ocorrer, quanto mais que alguma coisa deve ser feita a esse respeito. Tony Blair é um hipócrita tão grande como qualquer um de nós, gabando-se que «nós levamos o mundo a definir um plano ousado e alvos para reduzir as emissões de gases» [2], enquanto planeia a expansão de um aeroporto suficiente, por si, para cancelar todas as iniciativas que lançou.

 

Como ele admite, «há uma discrepância no tempo entre o impacto ambiental e o eleitoral» [3]. Pela altura em que as decisões que ele tomou vierem ter connosco, ele estará a escrever as suas memórias. O custo político de prevenir­‑nos de gastar o nosso dinheiro como quisermos é alto, assim como o custo político de deixar­‑nos continuar em frente com isso é baixo. A nossa tarefa deve ser aumentar o custo político da segunda opção. Temos que tornar a maior ameaça que já enfrentamos na principal questão política do mundo.

 

Blair foi incauto o suficiente para fazer do aquecimento global «uma prioridade da nossa presidência do G8». Convidou-nos a responsabilizá­‑lo se falhar em recorrer aos seus favores políticos a George W. Bush, e se falhar em usar todas as tácticas brutais que desencadeou noutras circunstâncias para golpear um acordo significativo. Mas irá escutar-nos apenas quando pararmos de fingir que não precisamos da sua ajuda.

 

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[1] Craig McLean, The importance of being earnest. The Guardian, 28/05/2005.

[2] Tony Blair, Speech. Sem indicação de título ou local, 14/09/2004.

[3] Ibid.