Informação Alternativa

Mundo

21/06/2005

 

Bardos dos poderosos

 

George Monbiot

 

“Hackers bombardeiam redes financeiras”, informou o Financial Times na quinta­‑feira. Departamentos do governo e negócios «foram bombardeados com um ataque electrónico sofisticado durante vários meses». Está a ser organizado por uma rede criminosa asiática, e «pretende roubar informação comercial e económica sensível» [1]. Quinta­‑feira à tarde, a história a história sofreu uma mutação. “hackers do G8 atacaram bancos e ministérios”, afirmava a manchete do Evening Standard. O seu propósito era «inutilizar os sistemas como um protesto antes da cimeira do G8» [2]. O Standard não avançou provas para justificar esta metamorfose.

 

Este é apenas um exemplo das resmas de palreio acerca dos desígnios sombrios dos manifestantes do G8 alentado pela imprensa corporativa [3]. Que as mesmas histórias tenham sido contadas acerca de quase todos os protestos públicos nos últimos 30 anos e que invariavelmente se desmoronaram quando examinadas não parece apresentar nenhum impedimento à sua repetição. O verdadeiro perigo na cimeira do G8 não é que os manifestantes se tornem violentos – o apetite por isso praticamente desapareceu em Setembro de 2001 – mas que sejam demasiados educados.

 

Deixem­‑me ser mais preciso. O perigo é que sigamos a agenda estabelecida por Bono e Bob Geldof.

 

Os dois músicos estão genuinamente empenhados na causa da redução da pobreza. Ajudaram a assegurar ajuda e alívio da dívida no valor de milhares de milhões de dólares. Ajudaram a manter o tema da pobreza global na agenda política. Mobilizaram pessoas em todo o mundo. Estes são feitos extraordinários, e seria estúpido menosprezá­‑los.

 

O problema é que eles assumiram o papel de árbitros: de determinar em nosso nome se os líderes das nações do G8 devem ser congratulados ou condenados pelas decisões que tomam. Eles não estão qualificados para o fazer, e temo que deitem tudo a perder.

 

Tomem a sua resposta ao pacote de alívio da dívida para os países mais pobres do mundo que os ministros das finanças do G7 anunciaram há dez dias. Qualquer pessoa com algumas noções de políticas de desenvolvimento que tenha lido e entendido a declaração dos ministros poderia ver que as condições que contém – liberalização forçada e privatização – são tão onerosas como os alívios da dívida [4]. Mas Bob Geldof louvou­‑a como «uma vitória para os milhões de pessoas nas campanhas em todo o mundo» [5], e Bono declarou­‑a «um pequeno pedaço de história» [6]. Tal como muitos daqueles – especialmente os activistas africanos que conheço – que têm estado a tentar chamar a atenção para o dano feito por tais condições, sinto­‑me traído por estas declarações. Bono e Geldof tornaram o nosso trabalho mais difícil.

 

Entendo o jogo que estão a jogar. Acreditam que louvando os homens mais poderosos do mundo é mais persuasivo do que criticá­‑los. O problema é que ao proceder desse modo, transformam a campanha política desenvolvida pelo movimento de justiça global numa campanha filantrópica. Incitam os líderes do G8 a fazer mais para ajudar os pobres. Mas nada dizem sobre deixarem de causar dano.

 

É verdade que Bono criticou George Bush por falhar em entregar o dinheiro prometido para as vítimas da SIDA em África. Mas nunca, tanto quanto sei, disse uma palavra sobre a captura desses fundos por “grupos baseados na fé”: o código que Bush usa para as missões cristãs fundamentalistas que pregam contra o uso de preservativos [7]. De facto, Bono parece estar confortável na companhia de fundamentalistas. Jesse Helms, o antigo senador racista, homofóbico que ajudou a engendrar a viragem para governos baseados na fé, é, de acordo com os seus assessores, «um grande fã de Bono» [8]. Isto é um testamento aos assinaláveis poderes de persuasão do cantor. Mas se pessoas como Helms são amigos, quem são os inimigos? A exploração é algo que simplesmente acontece? Não tem perpetradores?

 

Isto é, evidentemente, como George Bush e Tony Blair gostariam que víssemos as coisas. Blair fala de África como se os seus problemas fossem o resultado de alguma força da natureza inescrutável, combinada apenas pela corrupção dos seus ditadores. Lamenta que «é o único continente do mundo que nos últimos dez anos andou para trás» [9]. Mas nunca reconheceu que – como mesmo os estudos do Banco Mundial mostram [10] – andou para trás em parte por causa das políticas neoliberais que foi forçada a seguir pelas nações poderosas: políticas que acabaram de ser prolongadas pelo pacote de alívio da dívida que Bono e Geldof louvaram. Ouçam estes homens – Bush, Blair e os seus dois bardos – e poderão esquecer que as nações ricas desempenharam algum papel na acumulação de dívida de Áfriva, ou acumulação de armas, ou perda de recursos, ou colapso nos serviços públicos, ou concentração de riqueza e poder por líderes irresponsáveis. Ouçam­‑nos, e imaginarão que o G8 foi concebido como um projecto para ajudar os pobres do mundo.

 

Ainda me falta ler uma declaração de qualquer uma das estrelas rock que sugira uma crítica do poder. Parecem acreditar que um consenso pode ser atingido entre os poderosos e os fracos, que podem reunir um grande coro global de ricos e pobres para cantar da mesma pauta. Não parecem entender que, enquanto o G8 mantenha a sua garra sobre os instrumentos da governança global, um hino partilhado de paz e amor tem tanto significado como o velho anúncio da Coca­‑Cola.

 

A resposta ao problema do poder é construir movimentos políticos que neguem a legitimidade dos poderosos e procurem arrebatar o controle das suas mãos: por outras palavras, fazer o que as pessoas na Bolívia estão a fazer agora mesmo. Mas Bono e Geldof estão a fazer o oposto: estão a dar legitimidade ao poder. Do ponto de vista de homens como Bush e Blair, o acordo é simples: deixamos estes cabeludos partilhar uma plataforma connosco, fazemos uns quantos gestos sem custos, e em troca recebemos o seu louvor e atraímos os seus fãs. A santidade dos nossos colaboradores transmite­‑se a nós. Se o truque resultar, o movimento que se opõe a nós dispersar­‑se­‑á, imaginado que os problemas do mundo foram resolvidos. Seremos reabilitados publicamente, depois da nossa pequena aventura no Iraque e das nossas indiscrições em Bagram e na Baía de Guantánamo. Os países que queremos continuar a explorar ver­‑nos­‑ão como seus amigos em vez de seus inimigos.

 

Em que ponto Bono e Geldof irão pedir contas aos líderes do G8? Em que ponto Bono parará de fingir que George Bush é «apaixonado e sincero» sobre a pobreza mundial [11], e Geldof parará de proclamar que fez «realmente mais do que qualquer presidente americano por África»? [12] Em que ponto Bono reverá a sua estimativa de Tony Blair e Gordon Brown como «o João e o Paulo da etapa do desenvolvimento global» ou como líderes na tradição de Keir Hardie e Clement Attlee? [13] Quanto dano têm Bush e Blair de fazer, antes que as estrelas rock o reconheçam?

 

A campanha de Geldof e Bono pela filantropia retrata os inimigos dos pobres como seus salvadores. O bem que estes dois homens notáveis fizeram está na iminência de ser ultrapassado pelo dano.

 

___________

[1] Maija Pesola, “Hackers bombard financial networks”. Financial Times, 16/06/2005.

[2] Mark Prigg, “‘G8’ hackers target banks and ministries”. Evening Standard, 16/06/2005.

[3] Para mais examplos, ver David Miller, How to Spin the G8. 16/05/2005.

[4] G8 Finance Ministers’ Conclusions on Development, 10-11/06/2005.

[5] Ashley Seager, Larry Elliott e Patrick Wintour, Brown urges rich countries to act now. The Guardian, 13/06/2005.

[6] AFP, Bono Hails Group of Eight on Debt Relief. 11/06/2005.

[7] Lindsey Hilsum, World view. New Statesman, 13/06/2005; Rachel Rinaldo, Condoms Take a Back Seat to Abstinence With U.S. AIDS Money. Inter Press Service, 24/05/2004; John Tarleton, On The Eve Of G8 Summit, Bush Delivers Emergency Aids Relief To Republican Allies, 01/06/2003.

[8] Madeleine Bunting e Oliver Burkeman, Pro Bono. The Guardian, 18/03/2002.

[9] Tony Blair, Statement to the Africa Commission in Rome. 27/05/2005.

[10] William Easterly, The Lost Decades: Developing Countries’ Stagnation in Spite of Policy Reform 1980-1998, World Bank, Fevereiro 2001.

[11] Rory Carroll, “Pop star’s relations with Bush turn sour”. The Guardian, 18/09/2003.

[12] Josh Tyrangiel, Three big shots, eight very big shows. Time magazine, 19/06/2005.

[13] Bono, A chance for real change in Africa. Discurso na Conferência Anual do Partido Trabalhista, Brighton. 29/09/2004.