Informação Alternativa

União Europeia

22/11/2004

 

Alimentar carros, não pessoas

 

George Monbiot

 

Se os seres humanos tivessem nascido sem pecado, ainda viveríamos num mundo imperfeito. A noção de Adam Smith de que, na busca do seu próprio interesse, o homem «promove frequentemente o da... sociedade mais efectivamente do que quando tenciona realmente promovê-lo» e o retrato de Karl Marx de uma sociedade em que «o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos» são ambos escarnecidos por uma limitação evidente. O mundo é finito. Isto significa que quando um grupo de pessoas persegue os seus próprios interesses, prejudica o interesse de outros.

 

É difícil pensar num melhor exemplo do que o do actual entusiasmo pelos biocombustíveis. Os biocombustíveis produzem-se a partir de plantas oleaginosas ou de refugos de colheita ou de madeira, e podem utilizar­‑se para mover carros, autocarros e camiões. Consumi-los simplesmente devolve à atmosfera o carbono que as plantas extraíram enquanto cresciam. Assim, a mudança dos combustíveis fósseis para o biodiesel e o bioálcool está agora a ser promovida como a solução para as alterações climáticas.

 

No próximo mês, o governo britânico terá que fixar um alvo para a quantidade de combustível para transporte que procederá das colheitas. A União Europeia quer que 2% do petróleo que utilizamos seja biodiesel no final do próximo ano, subindo para 6% em 2010 e 20% em 2020 [1]. Para tentar atingir estes objectivos, o governo reduziu os impostos sobre os biodiesels 20 pence por litro, enquanto a União Europeia está a pagar aos agricultores 45 euros extra por hectare para que os cultivem.

 

Todo a gente parece feliz com isto. Os agricultores e a indústria química podem desenvolver novos mercados, o governo pode cumprir o seu compromisso de reduzir as emissões de dióxido de carbono e os ambientalistas podem celebrar o facto de que o combustível das plantas diminui a poluição local, bem como o aquecimento global. Ao contrário das pilhas ou células de combustível de hidrogénio, os biocombustíveis podem produzir­‑se imediatamente. Este era na verdade o modo como Rudolf Diesel esperava que fosse usado o seu invento. Quando fez a demonstração da sua máquina na Exposição Mundial de 1900, fê­‑la funcionar com óleo de amendoim. «A utilização de óleos vegetais como combustível para os motores pode parecer insignificante hoje», predisse. «Mas tais óleos podem chegar a ser com o tempo tão importantes como o petróleo» [2]. Alguns entusiastas estão a predizer que se os preços dos combustíveis fósseis continuarem a subir, em breve se provará que ele tinha razão.

 

Eu espero que não. Aqueles que têm estado a promover estes combustíveis são bem intencionados, mas estão errados. Estão errados porque o mundo é finito. Se os biocombustíveis arrancarem, causarão um desastre humanitário global.

 

Tal e como se utilizam hoje, a pequena escala, não são daninhos. Uns quantos milhares de verdes no Reino Unido já movem os seus veículos com óleo de fritar batatas. Mas o óleo de cozinhar reciclado poderia fornecer somente 100.000 toneladas de diesel por ano neste país [3], equivalentes a 1/380 do combustível utilizado no transporte rodoviário.

 

Também poderia ser possível transformar os refugos dos cultivos, tais como o restolho do trigo, em álcool, para uso em automóveis – o Observer publicou um artigo sobre isto no domingo [4]. Gostaria de ver as cifras, mas acho difícil acreditar que seremos capazes de extrair mais energia do a que usamos para transportar e processar a palha. Mas os planos da UE, como os de todos os entusiastas da bio­‑locomoção, dependem do cultivo de colheitas especificamente para combustível. Logo que se examinam as implicações, descobrimos que a cura é pior do que a doença.

 

O transporte rodoviário no Reino Unido consome 37,6 milhões de toneladas de produtos derivados do petróleo por ano [5]. A colheita de óleo mais produtiva que se pode cultivar neste país é a de colza. O rendimento médio é de 3 a 3,5 toneladas por hectare [6]. Uma tonelada de sementes de colza produz 415 quilos de biodiesel [7]. Assim, cada hectare de terra arável poderia fornecer 1,45 toneladas de combustível para transporte.

 

Por outras palavras, mover os nossos carros e autocarros e camiões a biodiesel requereria 25,9 milhões de hectares. Existem 5,7 milhões de hectares no Reino Unido [8]. Mudar para combustíveis verdes requer quatro vezes e meia a nossa área arável. Mesmo o objectivo mais modesto de 20% da UE para 2020 consumiria quase todas as nossas terras de cultivo.

 

Se a mesma coisa acontecesse por toda a Europa, o impacto sobre o fornecimento global de alimentos seria catastrófico: suficientemente grande para inclinar a balança global de superavit neto a déficit neto. Se, como alguns ambientalistas exigem, acontecesse à escala mundial, então a maior parte da superfície arável do planeta seria dedicada a produzir alimento para carros, não para pessoas.

 

Esta perspectiva, parece, à primeira vista, ridícula. Seguramente, se houvesse uma procura não coberta de alimentos, o mercado se asseguraria de que as colheitas seriam utilizadas para alimentar pessoas, em vez de veículos? Não existe base para esta suposição. O mercado responde ao dinheiro, não às necessidades. As pessoas que possuem carros têm mais dinheiro do que as pessoas em risco de fome. Numa competição entre a sua procura de combustível e a procura de alimentos dos pobres, os proprietários de automóveis ganham sempre. Algo parecido com isto já está a acontecer. Apesar de existirem 800 milhões de pessoas permanentemente subalimentadas, o aumento global da produção vegetal está a ser utilizado para alimentar animais: o número de cabeças de gado no mundo quintuplicou desde 1950 [9]. A razão é que aqueles que compram carne e produtos lácteos têm mais poder de compra do que aqueles que compram somente colheitas de subsistência.

 

O combustível verde não é só um desastre humanitário; é também um desastre ecológico. Aqueles que se preocupam com a escala e a intensidade da agricultura actual, deveriam considerar como será a agricultura quando for dirigida pela indústria do petróleo. Mais, se tentássemos desenvolver um mercado para o biodiesel procedente da semente de colza, rapidamente evoluiria para um mercado do óleo de palma e do óleo de soja. O óleo de palma pode produzir quatro vezes mais biodiesel por hectare do que a colza e cresce em lugares onde a mão de obra é barata. As plantações são já uma das maiores causas mundiais de destruição da floresta tropical. A soja tem um menor rendimento de óleo do que a colza, mas o óleo é um subproduto da produção de alimentação animal. Um novo mercado para isso estimularia uma indústria que já destruiu a maior parte do cerrado brasileiro (um dos lugares do mundo com maior biodiversidade) e grande parte da sua floresta húmida.

 

É chocante ver quão estreita pode ser a visão de alguns ambientalistas. Num encontro em Paris no mês passado, um grupo de cientistas e verdes que estudam a alteração climática abrupta decidiram que as duas grandes ideias de Tony Blair – enfrentar o aquecimento global e ajudar a África – poderiam ambas ser levados a cabo convertendo a África numa zona de produção de biocombustíveis. Esta estratégia, segundo os seus promotores, «proporciona uma via de desenvolvimento sustentável para os muitos países africanos que podem produzir biocombustíveis de forma barata» [10]. Sei que a definição de desenvolvimento sustentável tem vindo a mudar, mas não estava consciente de que agora abrangia a fome em massa e a erradicação das florestas tropicais. No ano passado o comité parlamentar britânico para o meio ambiente, alimentos e assuntos rurais, que é suposto especializar­‑se em pensamento conjunto, examinou todas as possíveis consequências da produção de biocombustíveis – dos rendimentos rurais ao número de cotovias – excepto o impacto sobre o fornecimento de alimentos [11].

 

Precisamos de uma solução para o aquecimento global causado pelos carros, mas não é esta. Se a produção de biocombustíveis for suficientemente grande para afectar a alteração climática, será suficientemente grande para provocar a fome global.

 

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[1] União Europeia, 8 Maio 2003. “Directive 2003/30/EC: On the Promotion of the Use of Biofuels or Other Renewable Fuels for Transport”. Official Journal L 123, 17/05/2003 P. 0042­‑0046.

[2] Monsanto, sem data. The Biodiesel Revolution.

[3] British Association for Biofuels and Oils, sem data. Memorandum to the Royal Commission on Environmental Pollution.

[4] Robin McKie, 21 Novembro 2004. “Forget the tiger. Put some mushrooms in your tank”. The Observer.

[5] Department for Transport, 2004. Petroleum Consumption: by Transport Mode and Fuel Type (pdf).

[6] Department for Environment, Food and Rural Affairs, Crops for Energy Branch, 17 Novembro 2004. Pers comm.

[7] Ibid.

[8] Department for Environment, Food and Rural Affairs, 2004. Agriculture in the UK 2003 (pdf).

[9] Lester R. Brown, 1997. The Agricultural Link: How Environmental Deterioration Could Disrupt Economic Progress. Worldwatch Paper 136. The Worldwatch Institute, Washington DC.

[10] Dr Peter Read, 20 Outubro 2004. Good news on climate change. Abrupt Climate Change Strategy Workshop. Comunicado de imprensa.