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Europeia |
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08/03/2005 A verdadeira ameaça Há um grupo de homens e
mulheres que procuram fazer a vida o mais difícil possível aos progressistas
que apoiam a União Europeia. Não são membros do Partido Independentista do
Reino Unido nem da Frente Nacional francesa, mas da Comissão Europeia. Sempre
que tentamos convencer os nossos compatriotas de que a UE nos ajuda a elevar a
nossa qualidade de vida, a defender os direitos humanos, a proteger o meio ambiente
e a travar o fundamentalismo de mercado dos EUA, eles encontram algum meio de
provar que estamos errados. Ninguém nos enganou tão
habilmente como um holandês chamado Frits Bolkestein. Até Novembro era o
comissário para o mercado interno da UE. Em Janeiro do ano passado, produziu
uma directiva que proclamava estar a harmonizar regras em toda a União, para
tornar mais fácil todo o tipo de transações, desde cabeleireiros a hospitais
[1]. Esta Directiva de Serviços
foi promovida, como todas as medidas similares, como uma via para criar “milhões”
de empregos, e é certamente possível que poderia ajudar a estimular a economia
europeia. Mas também parece impor aos estados membros uma comercialização compulsória
dos seus serviços públicos, enquanto destrói a sua capacidade para defender a
sua população da exploração das companhias multinacionais. Deve – ou devia – ser
aprovada até final deste ano. O monstrinho habita numas
linhas a meio do texto do tratado, a respeito de algo chamado “o princípio do
país de origem”. As empresas, diz, «estão sujeitas apenas às disposições
nacionais do seu estado membro de origem» [2]. Traduzido grosso modo, isto quer
dizer que uma empresa com base num país europeu, mas trabalhando noutro, está
obrigada a cumprir apenas as normas do país em que tem a sua sede. Se uma
empresa da construção cujos escritórios estão na Lituânia, por exemplo, tem
um contrato no Reino Unido, somente está obrigada a cumprir a lei lituana
enquanto trabalha aqui. O resultado óbvio é que todas as companhias
multinacionais na Europa transladarão a sua sede para o lugar em que as leis
sejam mais fracas. E depois a situação torna‑se
realmente estranha. O estado responsável por executar as normas – leis de
segurança e de saúde laboral, por exemplo – será aquele em que companhia está
sediada, não aquele em que esteja a exercer a sua actividade [3]. Se, por
exemplo, uma companhia da construção lituana obriga os seus trabalhadores no
Reino Unido a usar andaimes inseguros, o nosso próprio Executivo para a
Segurança e Saúde não poderá fazer nada a respeito disso. Em vez disso, o
equivalente lituano tem de enviar os seus inspectores aqui e, sem conhecimento
local, empecilhado por numerosos problemas de tradução, procurar defender as
vidas dos trabalhadores britânicos. Dado o modo como funcionam
tais mercados, a empresa que estejam a supervisionar será, mais provavelmente
do que não, uma empresa britânica ondeando uma bandeira de conveniência
lituana. Mas se essa empresa ameaça a tua segurança numa obra em Brixton, só
poderás procurar protecção protestando ante as autoridades em Vilnius. Em outras palavras, é uma
fórmula para o desmoronamento completo da execução efectiva das leis que restringem
as empresas multinacionais. A directiva iria, em nome da “eliminação das
barreiras”, levantar tais barreiras a qualquer pessoa tentando defender os seus
direitos que uma queixa pública efectiva se poderia tornar em algo quase
impossível. Este é, evidentemente, o objectivo. Tem de se ler o texto
completo para entender quais seriam os seus efeitos. No preâmbulo, por
exemplo, diz que uma «derrogação» (querendo dizer uma isenção) das normas do
país de origem deveria ser possível para assuntos «relacionados com a
segurança dos serviços» [4]. Mas quando chegamos ao artigo 19 descobrimos que
um estado membro pode obter uma derrogação em temas de segurança «só em
condições excepcionais». Não gostaria de ser o advogado sindicalista que
tente fazer uso de tal salvaguarda. À primeira vista o princípio
do país de origem parece estranho. O objectivo das reformas do mercado
interno era seguramente engendrar um único conjunto de normas para toda a
União Europeia. Esta regra, em teoria, poderia levar a 25 conjuntos de normas
diferentes a ser aplicadas no mesmo país. Mas quando lemos os documentos dos
grupos de pressão das companhias multinacionais em Bruxelas, damo‑nos
conta de que de facto irá harmonizar as normas – ao nível mais baixo que se
possa encontrar na União Europeia [5]. Uma vez que as empresas multinacionais
tenham transladado nominalmente as suas sedes para os países com as leis mais
fracas (tal como os donos dos barcos registram as suas naves no Panamá ou na Libéria),
os países com leis mais estritas descobrirão que para se manterem no mercado
deverão baixar os seus próprios padrões até os equiparar aos dos mais fracos. O momento eleito por
Bolkestein era quase perfeito. Adiantou-se ao resultado de outras quatro
propostas europeias, que entre elas podiam ter definido e protegido os
serviços públicos essenciais e produzido um único conjunto de normas
(razoavelmente altas) para os trabalhadores de agência e os trabalhadores
migratórios [6]. Em outras palavras, lançou uma espécie de golpe contra a
Europa social. Esta proposta causou uma
enorme confusão em quase todos os estados membros, mas não na capital da
Eurofobia. Aqui, no Reino Unido, enquanto entretemos os nossos pânicos do
costume sobre a proibição das sinos de igreja, corgis [N.d.T.: raça de
cachorro favorita da rainha] e bananas curvas, mantemo-nos ignorantes das
ameaças reais à nossa soberania. Esse é o problema com os euro‑cépticos:
nunca estão por perto quando precisamos deles. Mas na semana passada, sem ajuda
dos nossos próprios campeões da autodeterminação, armou-se um inferno em
Bruxelas. Charlie McCreevy, o novo comissário para o mercado interno, admitiu
que a actual directiva de serviços «não vai voar» e sugeriu sobre Bolkestein
que «outro comissário poderia ter tratado [este tema] de uma maneira
diferente» [7] – que é o mais mal educado que um eurocrata alguma vez foi sobre
outro. Evidentemente, ainda não
acabou. As multinacionais e os seus apoiantes arrancaram os cabelos. O Financial
Times, que constantemente ignorou ou interpretou mal as preocupações dos
opositores à directiva, declarou que McCreevy tinha «cobardemente dado o toque
de retirada antes de a batalha ter sequer começado formalmente» [8]. Malcolm
Harbour, um conservador britânico Membro do Parlamento Europeu acusou a
comissão de perturbar a democracia [9]. (Tem graça, não tem, como as
preocupações dos Tories sobre a soberania se evaporam quando uma política é
boa para os grandes negócios?). Peter Mandelson, o nosso presente ao resto da
União, instou a comissão a não se «retirar ante as pressões ilegítimas» [10],
pelas quais parece referir‑se à população europeia. Directivas como a de
Bolkestein põem à prova até ao limite o entusiasmo de qualquer pessoa
interessada na justiça social. Para aqueles de nós que reconhecemos que uma
soberania absoluta é impossível num mundo globalizado, e que a nossa não é uma
escolha entre alinhamento ou isolamento, mas uma escolha entre alinhamento
com a Europa ou alinhamento com os Estados Unidos, a sua proposta sugere que
mais valia desistirmos: de qualquer modo obtemos o fundamentalismo de mercado.
Pessoas como ele e Mandelson, e José Manuel Barroso, fizeram um trabalho bem
melhor para sabotar o projecto europeu do que qualquer número de Kilroys ou Le
Pens. A sua proposta irá, sem dúvida, ressurgir e quando o faça a população destas benignas ilhas deve ao resto da UE um pouco mais de vigilância e solidariedade pública. Mas, por agora, apesar de não termos tomado parte nela, podemos celebrar uma rara vitória por um velho ideal. __________ [1] Comissão da Comunidade Europeia, 2004. Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho de Serviços do Mercado Interno. COM 2 final/3 [2] Artigo 16 (1). [3] Artigo 16 (2) e Artigo 35
(4). [4] Parágrafo 40. [5] Ver por exemplo EuroCommerce Novembro 2004. Proposta para uma Directiva de Serviços no Mercado Interno. Documento de Situação. EuroCommerce, Bruxelas. [6] A Associação Médica
Britânica enumera o Livro Branco da UE para Serviços de Interesse Geral; a
Directiva de Requisitos; a Directiva para Trabalhadores Temporários por Agência
e a Revisão do CE da Directiva de Registo de Trabalhadores. Resposta Marco de
BMA à Consulta de DTI sobre a Directiva de Serviços da UE no Mercado Interno,
2004. BMA, Londres. [7] Tobias Buck, 4 de Março
de 2005. “Row Erupts in
Brussels over Plans to Throw Open EU Market for Services”. The Financial
Times. [8] Editorial, 4 de Março de
2005. “Disservice to the EU”.
The Financial Times. [9] Malcolm Harbour, 3 de Março
de 2005. Commission
told to Promote Services Directive. Comunicado de imprensa. [10] Raphael Minder, 15 de
Fevereiro de 2005. “Mandelson
urges fund to protect poorer EU regions”. The Financial Times. |