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25/01/2005 Cães de guerra de raça
pura Qual é a diferença legal entre contratar um helicóptero para usar
num golpe contra um governo da África ocidental, e enviar abastecimentos para
os rebeldes chechenos? Se não há nenhuma, porque é que Mark Thatcher não está
em Belmarsh? Dum modo transposto, porque é que os “suspeitos terroristas
estrangeiros” na prisão de Belmarsh não estão livres e, como Sr. Thatcher, à
solta em Londres? Porque é que um alegado engajamento em operações militares
no estrangeiro é chamado de terrorismo num momento, e negócio noutro? A questão é uma das importantes, pois os mercenários estão a
tornar-se respeitáveis outra vez. Na quinta-feira, Tim Spicer, o mais notório
soldado da fortuna britânico, dará uma palestra na Escola de Estudos
Africanos e Orientais [1]. O mês passado, ele apresentou uma conferência no
Royal United Services Institute [2]. O ano passado, uma das companhias que
ele dirige adquiriu um contrato de 300 milhões de dólares do governo dos
Estados Unidos para serviços de segurança no Iraque [3]. Este homem, que
ganha a sua vida entrando nos conflitos de outras pessoas, agora move-se por
entre as instituições como se fosse o patrão de qualquer outra corporação. Spicer é o mercenário que, em dois anos, causou dois incidentes
internacionais. O primeiro foi na Papua Nova Guiné em 1997, onde ele foi
contratado pelo governo para recapturar a ilha de Bougainville dos
separatistas. Spicer foi capturado por vingativos oficiais do exército, e a
disputa subsequente deitou abaixo o governo da Papua. O segundo foi na Serra
Leoa em 1998, onde, com a benção encoberta de diplomatas britânicos, importou
armas para tropas que tentavam restaurar um governo deposto. O escândalo que
se seguiu quase forçou a demissão do secretário britânico para os negócios
estrangeiros. Spicer diz que as suas companhias «operam estritamente dentro da
lei» [4]. E é verdade que, porquanto enfrentou procedimentos criminais na
Papua Nova Guiné, nunca foi acusado de qualquer delito no Reino Unido. Mas
imaginemos que ele tinha usado a
força das armas e tentado reganhar território ao serviço de líderes islâmicos
fundamentalistas, e que, em vez de ser um aluno de sangue azul da escola de
Sherborne e dos Guardas Escoceses, ele possuía um sotaque estrangeiro e uma
barba cerrada e citava o Corão nos seus discursos públicos. Estaria ele agora
a roçar os ombros com ministros do governo, ou as suas companhias estariam na
sua lista de organizações proscritas? No Reino Unido, a aplicação da lei
contra envolvimento em conflitos estrangeiros é discriminatória. Não é a
actividade que é proscrita, mas a pessoa que a leva a cabo. Em princípio, os mercenários são regulados pelo Foreign Enlistment
Act [Acto de Alistamento Estrangeiro] de 1870. É um delito assistir as forças
armadas «de um país estrangeiro em guerra com qualquer país estrangeiro em
paz com sua Majestade». Mas ninguém foi até agora processado por isso, e o
acto é largamente olhado como inútil. O governo evitou a necessidade de testá‑lo
ao decidir que algumas pessoas são terroristas, e portanto infringem um leque
diferente de leis, enquanto outras são homens de negócios, e portanto não
infringem nenhuma lei. A sua classificação depende da sua nacionalidade
(súbditos britânicos, por exemplo, não podem ser detidos sem acusação ou
julgamento em Belmarsh); a identidade do governo que pretendem combater ou
apoiar; e a sua ideologia (se acreditam no que estão a fazer, são
terroristas, se não são homens de negócios). A distinção não tem nada a ver com a moralidade da sua causa. As
pessoas de Bougainville, brutalmente tratadas pelo governo da Papua Nova
Guiné, tinham um poderoso caso moral de autodeterminação, e o governo um
fraco caso moral para usar a força armada para apoderar-se da sua terra por
causa de uma mina de cobre gigante, porém isto não parece ter afectado a
decisão do nosso governo de tratar a operação de Spicer como negócio. O caso
moral para uma insurreição curda contra o governo da Turquia é tão forte como
o caso moral para uma insurreição curda contra o anterior governo do Iraque,
porém isto não impediu o governo britânico de classificar os seus apoiantes e
antigos apoiantes de terroristas. E agora parece que o governo está prestes a tornar um grupo de
aventureiros estrangeiros ainda mais respeitáveis. Muitas companhias fazem
tudo o que podem para evitar a regulação, mas não os mercenários britânicos.
Como Spicer disse o mês passado, «devemos dar as boas vindas à inspecção e à
regulação, não evitar isso. Ajuda a legitimar ainda mais a indústria» [5]. O
governo concorda. O jornal de consulta que o Foreign Office [Gabinete dos
negócios estrangeiros] publicou em 2002 argumentou que um sistema de
licenciamento permitiria ao governo «distinguir entre operadores privados bem
conceituados e mal conceituados» e «encorajar e apoiar os primeiros». Uma
proibição cega, por outro lado, «privaria os exportadores de defesa
britânicos de negócios legítimos» [6]. Jack Straw, diz o Gabinete dos
negócios estrangeiros, provavelmente proporá um esquema de licenças para
mercenários dentro dos próximos meses. À primeira vista, um sistema de licenciamento parece melhor que não
haver sistema nenhum. O primeiro problema é que institucionaliza a aplicação
discriminatória da lei. Precisamente como o governo faz quando dá licença
para exportação de armas, irá decidir que uns conflitos estrangeiros são bons
e outros maus. E isto, por sua vez, permiti-lhe apoiar acções militares sem
declarar guerra ou procurar a aprovação prévia do parlamento. Ao decidir que
eles podem envolver‑se apenas nos conflitos que aprova, o governo,
quer pretenda fazê‑lo ou não, estará efectivamente a mobilizar
mercenários britânicos como milícias de substituição. Talvez com esse fim em mente, tem assistido o Sr. Spicer na sua
campanha para melhorar a imagem dos mercenários. Quando ele rebaptizou os
membros da sua indústria como “companhias militares privadas”, o Gabinete dos
negócios estrangeiros imediatamente fez o mesmo [7]. Agora ele está a tentar
fazer com que soem ainda mais respeitáveis – “companhias de segurança
privada” – e o governo voltou a entrar na linha. Quando perguntei a um
funcionário no Gabinete dos negócios estrangeiros uma questão sobre
mercenários na semana passada, ele replicou «eles não são mercenários, são
companhias de segurança privada». «Qual é a diferença?» «A diferença é que
uma companhia de segurança privada é uma companhia apropriadamente registada,
não um indivíduo reunindo algum grupo de amigos» [8]. Por outras palavras,
deixa‑se de ser um mercenário enviando 20 libras para a Companies
House [entidade que regista as companhias na Grã‑Bretanha]. O jornal de consulta do governo parece uma brochura de relações
públicas dos cães de guerra. «Não há nada de errado com governos que empregam
agentes do sector privado no estrangeiro em apoio dos seus interesses»;
contratar mercenários é «uma forma eficaz nos custos de obter serviços que
outrora foram da competência exclusiva dos militares» e «um forte e reputado
sector militar privado pode ter um papel em habilitar a ONU a responder mais
rapidamente e mais eficientemente nas crises» [9]. Nada disto é para sugerir que o problema é fácil de resolver. Se o governo banisse súbditos e residentes britânicos de se envolverem em qualquer conflito estrangeiro, ninguém poderia assistir a oposição armada à junta birmanesa, ou alistar‑se para combater em outra guerra civil de Espanha. Se nos permitisse envolvermo‑nos em qualquer conflito estrangeiro, o Reino Unido tornar-se‑ia na plataforma de lançamento para numerosas tentativas de derrubar regimes democráticos. Por isso é preciso haver alguns meios de selecção. Mas não, seguramente, o que o Gabinete dos negócios estrangeiros tem em mente. Parece que está a preparar-se para licenciar apenas aquelas operações que fazem dinheiro, e que ajudam os interesses estratégicos do Ocidente. E parece que quer tornar homens como Tim Spicer e Mark Thatcher de párias em embaixadores. ____________ [1] Umas poucas horas após este artigo ter seguido para a imprensa, o encontro foi cancelado. [2] Tim Spicer, 6 Dezembro
2004. Private
military companies in the current global order. Conferência no Royal United
Services Institute for Defence and Security Studies. [3] Eg Severin Carrell, 19 Setembro 2004.
“Spicer cleared to pursue pounds 160m Iraq contract”. The Independent on
Sunday. [4] Citado por Harry Arnold, 12 Maio 1998. “Hero
who was always in trouble”. The Mirror. [5] Tim Spicer, 6 Dezembro 2004, ibid. [6] The Foreign and Commonwealth Office, 12 Fevereiro 2002. “Private Military Companies: Options for Regulation”. Green paper. [7] Há uma discussão muito
interessante deste processo por Duncan Campbell, 30 Outubro 2002. Marketing the
New “Dogs of War”. The Centre for Public Integrity. [8] Discussão por telefone com Steve Bird, do Foreign Office, 21 Janeiro 2005. [9] The Foreign and Commonwealth Office,
ibid. |