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Mundo

21/12/2004

 

A guerra da América consigo mesma

 

George Monbiot

 

Tenho uma imagem mental persistente da política externa dos EUA, que me atormenta mesmo quando estou a dormir. A vanguarda de um grande exército marcha em redor do mundo, procurando o seu inimigo. Vê um grupo de tropas à distância, afastando-se. Abre fogo, sem se dar conta de que está a disparar contra a sua própria retaguarda.

 

É esta uma imagem demasiado extravagante? Tanto Osama bin Laden como Saddam Hussein foram preparados e armados pelos Estados Unidos. Até à invasão do Iraque, não havia nenhum vínculo entre os Baatistas e a Al Qaeda: agora o governo de Bush criou o monstro que afirmava estar a destruir. O exército dos EUA desenvolveu antraz como arma de guerra de alto nível, segundo disse, para determinar o que aconteceria se outros fizessem o mesmo. Ninguém mais foi capaz de produzi­‑lo: o terrorista que enviou cartas cheias de antraz por correio em 2001 tirou­‑o de um dos laboratórios do exército [1]. Agora investigadores dos EUA estão a preparar estirpes geneticamente modificadas do vírus da varíola sob o mesmo pretexto, e com as mesmas prováveis consequências [2]. O programa de armas espaciais do Pentágono está a ser desenvolvido em resposta a uma ameaça que ainda não existe, mas a qual é provável fazer aparecer. O governo dos EUA está empenhado numa guerra global consigo mesmo. É como um pintarroxo atacando o seu reflexo numa janela.

 

Em nenhuma instância é isto tão óbvio como nos seus ataques contra as instituições multilaterais e os seus tratados. Se escutamos alguns dos absurdos sobre a ONU que saem de Capitol Hill neste momento, poderíamos ser perdoados por acreditar que a ONU é uma conspiração estrangeira contra os Estados Unidos. Foi, claro, proposta por um presidente dos EUA, fundada em São Francisco e alojada em Nova Iorque, onde a sua sede continua. A sua Declaração Universal dos Direitos Humanos, caracterizada pelos Republicanos como um impedimento perigoso às liberdades norte­‑americanas, foi redigida pela viúva de Franklin D. Roosevelt. Os EUA são agora o único membro do Conselho de Segurança da ONU cuja palavra é lei, com o resultado de que a ONU é um dos instrumentos mais efectivos do mundo para a projecção do poder norte­‑americano.

 

Os acordos secretos no Iraque, pelos quais as Nações Unidas estão actualmente a ser atacadas pelos senadores dos EUA, foram, na verdade, supervisionados pelo governo dos EUA. Asseguravam que Saddam Hussein poderia evitar sanções por continuar a vender petróleo aos seus aliados na Jordânia e Turquia [3]. Congressistas Republicanos estão a pedir a demissão de Kofi Annan por permitir que isto sucedesse, aparentemente sem saber que foi aprovado em Washington para apoiar os objectivos estratégicos norte­‑americanos. Os Estados Unidos encontram os monstros que procuram quando bicam e batem as asas perante a sua própria imagem.

 

Assim, poderíamos interpretar as actividades do governo de Bush na semana passada em Buenos Aires como outra tentativa vigorosa de destruir os seus próprios interesses. O crescimento económico dos EUA depende da prosperidade do resto do mundo. A maior ameaça para a prosperidade mundial a longo prazo é a mudança climática, que ameaça destruir muitos dos mercados chave dos Estados Unidos nos países em vias de desenvolvimento. Cidades costeiras dos EUA – Nova Iorque incluída – estão ameaçadas pela elevação do nível do mar. A Florida poderia ser fustigada por furacões mais fortes e mais frequentes. É muito provável que tanto o campo como as cidades se vejam afectados por secas.

 

Em Fevereiro, um relatório vertido do Pentágono revelava que considera o aquecimento global como muito mais perigoso para os interesses dos EUA do que o terrorismo [4]. Como resultado de uma mudança climática brusca, afirmava, «a guerra pode de novo vir a definir a vida humana... À medida que a capacidade de produção do planeta diminuir, ressurgirá um antigo padrão: a erupção de guerras desesperadas, ferozes por causa de comida, água e energia». É provável, sugeria, que as potências nucleares invadam os territórios umas das outras enquanto lutam por minguados recursos.

 

Então, como responde Bush a tudo isto? “Que venha”. A reunião de Buenos Aires era suposta resolver o que o mundo deveria fazer acerca da mudança climática quando o Protocolo de Kyoto expirar em 2012 . A maior parte dos governos do mundo querem que o protocolo seja substituído por um novo acordo muito mais exigente. Mas a administração Bush tem procurado assegurar-se simultaneamente que o acordo original seja atirado ao lixo e que nada seja desenvolvido para substituí-lo.

 

«Ninguém pode dizer com alguma certeza», afirma George Bush, «o que constitui um nível de aquecimento perigoso, e consequentemente que nível deve ser evitado» [5]. Como não sabemos o mau que vai ser, sugere, não deveríamos tomar medidas custosas para preveni-lo. Agora leiam de novo essa declaração e substituam “aquecimento” por “terrorismo”. Quando a administração norte­‑americana antecipa possíveis ataques terroristas, ou assim o afirma, prepara­‑se para o pior. Quando antecipa os impactos da mudança climática, prepara­‑se para o melhor. O “princípio de precaução” é aplica­do tão entusiasticamente em assuntos de segurança nacional que agora ameaça as liberdades civis norte­‑americanas. Mas é recusado totalmente quando se discute o meio ambiente.

 

A equipa de Bush diz que o Protocolo de Kyoto é defeituoso porque há países como a China e a Índia que estão actualmente isentas de cortar as suas emissões. Mas em vez de ajudar a desenhar um tratado que eventualmente os incluísse, os EUA alinhou­‑se com eles em Buenos Aires para tentar afundar qualquer cooperação internacional. Inclusive apoiou a petição da Arábia Saudita de que os países produtores de petróleo deveriam ser compensados por qualquer declínio no mercado causado por reduções nas emissões de dióxido de carbono [6].

 

O resultado é que as conversações quase fracassaram. No sábado, trinta e seis horas depois da hora a que deveriam ter terminado, e enquanto os trabalhadores estavam a desmontar as salas em que os delegados se tinham reunido, os outros países arranjaram­‑se para salvar um mero fantasma de acordo. Os EUA permitiram­‑lhes celebrar uma reunião informal em Maio, durante a qual «qualquer negociação dirigida a atingir novos compromissos» está proibida [7]. Segundo o chefe da delegação dos EUA, o momento para decidir o que acontecerá depois de 2012 é «em 2012» [8]. É como dizer que o momento para decidir o que fazer sobre a segurança nacional é quando o avião está a voar para a torre.

 

Arruinar estas conversações é um trabalho muito bom para um país que, negando‑se a ratificar o protocolo, nem sequer tem direitos de negociação. Mas isto é agora prática familiar. Os EUA tentaram afundar o protocolo da biosfera em 1999, apesar de, como não o tinham assinado, não estarem obrigados por ele. Procuraram destroçar a Cimeira da Terra de 2002, apesar de Bush não ter comparecido. Isto não é, como algumas pessoas sugerem, isolacionismo. É um empenhamento directo e sustentado cujo propósito é evitar que se solucionem os problemas mais prementes do mundo.

 

E o resultado, claro, é que a catástrofe descrita pelo Pentágono tem agora mais probabilidades de acontecer. Os EUA acabaram de gastar milhões de dólares em Buenos Aires minando a sua própria paz e prosperidade. Evidentemente, sabemos que a sua delegação estava a representar os interesses das corporações, não das pessoas, e que o que é mau para os Estados Unidos é bom para a Exxon. Mas isto não tira relevância à absoluta e auto­‑destrutiva estupidez da sua posição.

 

Os EUA têm todo o direito de dar uma surra a si mesmos. Mas infelizmente, enquanto se perseguem a si mesmos em redor do mundo, pisoteiam todos os demais. Sei que apelar à inteligência de George Bush não é provável que nos leve muito longe, mas seguramente há alguém nessa administração que pode ver o que um macaco está a fazer com a América.

 

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[1] George Monbiot, 21 Maio 2002. Riddle of the Spores. The Guardian.

 

[2] Artigo principal, 20 Novembro 2004. “Engineering the smallpox virus is dicing with death”. New Scientist.

 

[3] Artigo principal, 5 Dezembro 2004. “The UN Oil Scandal”. The New York Times; Susan Sachs e Judith Miller, 13 Agosto 2004. “Under Eye of U.N., Billions for Hussein In Oil-for-Food Plan”. The New York Times.

 

[4] David Stipp, 9 Fevereiro 2004. “The Pentagon’s Weather Nightmare”. Fortune magazine; Mark Townsend e Paul Harris, 22 Fevereiro 2004. “Now the Pentagon Tells Bush: Climate Change Will Destroy Us”. The Observer.

 

[5] George W. Bush, 11 Junho 2001. President Bush Discusses Global Climate Change. Transcript of speech. Office of the Press Secretary, The White House.

 

[6] Geoffrey Lean, 19 Dezembro 2004. “US Fails in Bid to Kill off Kyoto Process”. The Independent.

 

[7] Sem autor, 19 Dezembro 2004. “Deal opens small door to climate talks”. USA Today.

 

[8] Dr. Harlan L. Watson, Senior Climate Negotiator and Special Representative, U.S. Department of State, 7 Dezembro 2004. Press Briefing, Buenos Aires.