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Mundo

14/02/2005

 

Zombando dos nossos sonhos

 

George Monbiot

 

Estamos a meio de Fevereiro, e já  tenho plantadas onze espécies de vegetais. Eu sei, embora os pacotes de sementes digam de outra maneira, que eles irão florescer. Tudo neste país – os narcisos, a primavera, as amendoeiras, os abelhões, os ninhos dos pássaros – antecipa-se um mês ao que era normal. E parece maravilhoso. O Inverno não é mais o sublime cinzento desejado da minha juventude. O arrefecimento que este país sofreu em 1982 e 1963 é – a não ser que a Corrente do Golfo pare – improvável de voltar a acontecer. Os nossos verões serão longos e quentes. Pela maioria do Hemisfério Norte superior, a mudança climática, até agora, tem sido generosa connosco.

 

E isso é seguramente uma das razões porque achamos tão difícil aceitar o que os climatologistas nos estão a dizer agora. Nas nossas mitologias, uma Primavera antecipada é uma recompensa pela virtude. «Pois, vede, o inverno já passou», exulta Salomão, o amado de Deus. «A chuva findou e partiu;/As flores apareceram na terra; chegou o tempo do canto dos pássaros» [1]. Como pode uma coisa que parece tão boa resultar de algo tão mau?

 

Amanhã, depois de treze anos de negociação, o protocolo de Kyoto sobre alterações climáticas entra em vigor. Ninguém acredita que esse tratado só por si – que  compromete 30 nações desenvolvidas a reduzir  as emissões de gases estufa em 4,8% – irá resolver o problema. Expira em 2012 e, graças à sabotagem dos EUA, até agora não houve progressos para uma substituição [2]. Condiciona os piores ofensores – os Estados Unidos e a Austrália – e não impõe limites aos gases produzidos pelos países em desenvolvimento. Os cortes a que obriga são no mínimo numa ordem de magnitude demasiado pequena para estabilizar a concentração do gás de estufa até qualquer coisa aproximada dum nível seguro [3]. Mas mesmo este débil acordo é ameaçado pela nossa complacência sobre o fecho do corredor climático debaixo do qual nós andamos.

 

Porquê isto? Porque somos nós trespassados pelo terrorismo, e no entanto relaxados quanto ao colapso das condições que tornam a nossa vida possível? Uma razão é seguramente a disjunção entre as nossas expectativas e as nossas observações. Se a mudança climática é para introduzir horror nas nossas vidas, devíamos esperar –porque em toda a nossa história evolucionária sobrevivemos por encontrar padrões na natureza – ver esse horror começar a revelar-se. É verdade que alguns milhares de pessoas no mundo rico morreram em resultado de cheias e vagas de calor. Mas a sensação dominante, experienciada por todos nós quase todos os dias, é de que somos abençoados pela nossa poluição.

 

Em vez disso, outros são visitados pelas consequências da nossa gula. Os climatologistas que se encontraram este mês na conferência do governo em Exeter ouviram que um aumento de 2,1 graus – quase certamente para acontecer neste século – irá confrontar tanto quanto três biliões de pessoas com a escassez de água [4]. Isto, por sua vez, é provável resultar em dez milhões de mortes. Mas a mesma voz calma que nos diz que a mudança climática significa invernos suaves e primaveras antecipadas diz-nos, em países como o Reino Unido, que seremos capazes de comprar o nosso caminho para fora do problema. Enquanto o preço da comida irá disparar à medida que o mundo vai para o déficit, aqueles que são ricos o suficiente para terem causado o problema irão, por um par de gerações pelo menos, estar entre os poucos que poderão ignorar isso.

 

Outra razão é de que há uma indústria bem financiada cujo propósito é tranquilizar­‑nos, e à qual é garantido constante acesso aos media. Nós lisonjeamos os seus advogados com o rótulo de cépticos. Se isto fosse o que eles são, seriam bem vindos. O cepticismo (a palavra Latina significa “inquirição” ou “reflexivo”) é o meio pelo qual a ciência avança. Sem isso ainda estaríamos a friccionar paus [para provocar o fogo]. Mas muitos daqueles a quem chamamos cépticos não são nada disso. Eles são pessoas das RP [Relações Públicas], os lealistas da Exxon Mobil (pela qual a maior parte deles é paga), que foram comissionados para começar com uma conclusão e depois inventar argumentos para justificá-la [5]. A sua presença em escoadouros como o programa BBC’s Today podia ser menos censurável se, de cada vez que a AIDS é discutida, se pedisse a alguém para argumentar que esta não é causada pelo HIV, ou, de cada vez que um foguetão entra em órbita, a Flat Earth Society (Sociedade da Terra Plana) fosse convidada para explicar que não é possível que isso tenha ocorrido. Assim, os nossos mais respeitados media dão à Exxon Mobil aquilo por que pagou: eles criaram a impressão de existe um importante debate científico quando não há nenhum.

 

Mas há aí um problema muito maior. A negação da mudança climática, conquanto não sintonizada com a ciência, é consistente com – mesmo necessária para – a perspectiva da maior parte dos economistas do mundo. A economia moderna, seja inspirada em Marx, Keynes ou Hayek, baseia-se na premissa da noção de que o planeta tem uma infinita capacidade de nos suprir com riquezas e absorver a nossa poluição. A cura para todos os males é o crescimento infinito. Contudo, um crescimento infinito num mundo finito, é impossível. Puxem este tapete de baixo das teorias económicas dominantes, e todo o sistema de pensamento colapsa.

 

E isto, é claro, está para lá da contemplação. Zomba dos sonhos tanto da esquerda como da direita, de todas as crianças, pais e trabalhadores. Destrói todas as noções de progresso. Se a engrenagem do progresso – a tecnologia e a sua amplificação dos esforços humanos – meramente acelerou a nossa caminhada para o abismo, então tudo o que pensávamos ser verdade é falso. Levados a acreditar que é melhor acender um candeeiro que caminhar na escuridão, estamos agora a descobrir que é melhor atravessar as trevas do que incendiar a nossa casa.

 

Os nossos economistas são expostos pelos climatologistas como fantasistas utópicos, os lideres de um culto milenário tão louco como – e ainda mais perigoso que – qualquer fundamentalismo religioso. Mas as suas teorias governam as nossas vidas, por isso aqueles que insistem que a Física e a Biologia continuam aplicáveis são ridicularizados por um consenso global fundado em desejos imaginários.

 

E isso conduz-nos, penso eu, a mais uma razão para desviarmos os nossos olhos. Quando os terroristas nos ameaçam, isso mostra que devemos contar para alguma coisa, de que somos importantes o bastante para matar. Eles confirmam a grande narrativa das nossas vidas, na qual nos esforçamos através de bilhetes do bem e do mal em direcção a um último propósito. Mas não há glória na ameaça da mudança climática. A história que nos conta é de fermento num barril, alimentando­‑se e soltando traques até serem envenenados pelo seu próprio desperdício. É um fim demasiado esquálido para a nossa presunção antropocêntrica para ser aceite.

 

O desafio da mudança climática não é primariamente técnico. É possível reduzir grandemente o nosso impacto ambiental investindo na eficiência energética, apesar de, tal como a conferência de Exeter concluiu, «a melhoria da eficiência energética sob o presente sistema de mercado não é suficiente para responder ao incremento da demanda causada pelo crescimento económico» [6]. É possível gerar muito mais da energia que consumimos por meios benignos. Mas se os nossos líderes políticos servem para salvar as pessoas em vez das fantasias das pessoas, então a forma como nos vemos a nós próprios tem que começar a mudar. Só vamos ser bem sucedidos em atacar a mudança climática quando aceitarmos que pertencemos ao mundo material.

 

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[1] Cântico de Salomão, Capítulo 2, versículos 11 e 12.

 

[2] George Monbiot, A guerra da América consigo mesma. The Guardian, 21 Dezembro 2004.

 

[3] O New Scientist (3 Fevereiro 2005) reporta um estudo de Malte Meinshausen do Swiss Federal Institute of Technology em Zurique, que sugere que as emissões globais de carbono devem cair entre 30% e 50% dos níveis de 1990 em 2050, para estabilizar o CO2 na atmosfera em 450 partes por milhão. Isto introduziria «uma chance de 50% de que o aumento da temperatura média mundial não excederá 2°C em 2050». O relatório do comité da conferência de Exeter (ver [6] abaixo) avisa que «limitar o aquecimento a um incremento de 2°C com uma certeza relativamente elevada requer que a equivalente concentração de CO2 fique abaixo de 400 ppm». Mas mesmo 2°C está acima do nível em que graves impactos são sentidos por centenas de milhões de pessoas.

 

[4] The Meteorological Office, Avoiding Dangerous Climate Change. Table 2a. Impacts on human systems due to temperature rise, precipitation change and increases in extreme events (pdf). 1­‑3 Fevereiro 2005.

 

[5] Ver por exemplo: Meet the sceptics, New Scientist, 12 Fevereiro 2005; e www.exxonsecrets.org.

 

[6] The Meteorological Office, International symposium on the stabilisation of greenhouse gases: Report of the Steering Committee (pdf). 3 Fevereiro 2005. Hadley Centre, Met Office, Exeter, UK.