Informação Alternativa

Iraque

18/02/2005

 

Fraude e corrupção

 

George Monbiot

 

Os senadores republicanos que consagraram as suas carreiras a fustigar a ONU raramente são acusados de pusilanimidade. Mas permaneceram estranhamente calados na quinta­‑feira. Henry Hyde transformou­‑se em Henry Jekyll. A mostarda de Norm Coleman converteu­‑se em mel. Convictos de que a ONU é uma conspiração contra a soberania dos EUA, estavam prontos para lançar o ataque que teria derrubado o odiado Kofi Annan e destruído a sua organização. Um relatório elaborado por Paul Vockler, antigo presidente da Reserva Federal dos EUA, pretendia demonstrar que, como resultado da corrupção no programa petróleo por alimentos da ONU, Saddam Hussein pôde manter o seu regime mediante o desvio de rendimentos petrolíferos para as suas próprias mãos. Mas Volcker apareceu com algo diferente.

 

«A maior fonte de recursos financeiros externos do regime iraquiano», informou, «resultou de violações de sanções fora do âmbito do programa» petróleo por alimentos. Estas violações consistiram em “vendas ilícitas” de petróleo por parte do regime iraquiano à Turquia e à Jordânia. Os membros do Conselho de Segurança da ONU, incluindo os Estados Unidos, tinham conhecimento delas mas não fizeram nada. «A lei dos Estados Unidos requer que os programas de ajuda a países que estejam em violação das sanções da ONU sejam interrompidos a não ser que se determine que a continuação seja do interesse nacional. Tais determinações foram fornecidas por sucessivas administrações dos Estados Unidos» [1].

 

Por outras palavras, o Governo dos EUA, apesar de ter sido informado da operação de contrabando que trouxe ao regime de Saddam Hussein cerca de 4.600 milhões de dólares [2], decidiu deixá­‑la continua. Fê-lo assim porque considerou que o contrabando era de interesse nacional, já que ajudava países amigos (Turquia e Jordânia) a evadir as sanções impostas ao Iraque. A maior fonte de fundos ilegais para Saddam Hussein foi aprovada não por funcionários da ONU mas por funcionários dos Estados Unidos. Resulta estranho que nem o Sr. Hyde nem o Sr. Coleman se tenham queixado disso até agora. Mas isto não é nem a metade da história.

 

É verdade que a auditoria da ONU deveria ter sido melhor. Alguns dos fundos do programa petróleo por alimentos abriram passo até às mãos de Saddam Hussein. Um dos seus funcionários [da ONU], auxiliado por um diplomata britânico, ajudou a garantir que um contrato fosse para uma firma britânica, em vez de uma francesa [3]. O caso mais grave envolve um funcionário chamado Benon Sevan, a quem se acusa de ter canalizado petróleo iraquiano para uma companhia que favorecia, e que pode ter recebido 160.000 dólares em troca [4]. Kofi Annan, o secretário­‑geral da ONU, tomou medidas disciplinares contra ambos os indivíduos e prometeu retirar­‑lhes a imunidade diplomática se forem imputados [5]. Não poderia haver maior contraste entre essa conduta e o modo como os EUA lidaram com as alegações muito mais graves contra os seus próprios funcionários.

 

Quatro dias antes de Volcker reportar as suas descobertas sobre Saddam Hussein, o inspector geral dos EUA para a reconstrução do Iraque publicou um relatório a respeito da Autoridade Provisória da Coligação: a agência dos EUA que governou o Iraque de Abril de 2003 a Junho de 2004. A tarefa do inspector geral consiste em certificar­‑se de que o dinheiro que a Autoridade gastou foi devidamente contabilizado. Não foi. Em apenas 14 meses, 8.800 milhões de dólares desapareceram sem deixar rasto [6]. Isto é mais do que Mobutu Sese Seko conseguiu roubar em 32 anos de saque do Zaire. É 55.000 vezes mais do que o Sr. Sevan supostamente recebeu.

 

A Autoridade, segundo descobriu o inspector geral, estava «sobrecarregada por sérias ineficiências e uma pobre gestão» [7]. Isto é benévolo. Outras investigações sugerem que estava também sobrecarregada por falsa contabilidade, fraude e corrupção.

 

Na semana passada um conselheiro britânico do Conselho de Governo Iraquiano declarou ao programa File on Four da BBC que funcionários da Autoridade Provisória da Coligação (APC) reclamavam subornos de até 300.000 dólares em troca de concessões de contratos [8]. Dinheiro iraquiano confiscado por tropas dos EUA simplesmente desapareceram. Uns 800 milhões de dólares foram entregues a comandantes dos EUA sem serem contados ou mesmo pesados. Outros 1.400 milhões de dólares foram transportados em avião de Bagdade até ao governo regional curdo na cidade de Irbill, e nunca mais foram vistos desde então [9].

 

A APC concedeu contratos a empresas dos EUA sem nenhuma salvaguarda financeira. Foram outorgados sem concurso, na forma de contratos “cost-plus”. Isto significa que se pagou às empresas pelas despesas em que incorreram, mais uma percentagem dessas despesas na forma de lucro. Por outras palavras, tiveram um poderoso incentivo para gastar tanto dinheiro quanto possível. Como resultado, a Autoridade parece ter obtido uma horrível relação valor-dinheiro. Auditores do Pentágono, por exemplo, alegam que, no decurso de um só contrato, uma subsidiária da Halliburton inflou os custos de petróleo importado em 61 milhões de dólares [10]. Isto parece ter sido sancionado oficialmente. Em Novembro, o New York Times obteve uma carta de uma oficial do corpo de engenheiros do exército dos EUA insistindo em que não «sucumbo às pressões políticas provenientes da... embaixada dos EUA para ir contra a minha integridade e pagar por combustível um preço mais elevado do que o necessário» [11]. Foi desautorizada pelos seus superiores, que emitiram um memorando insistindo em que os preços que a empresa estava a cobrar eram «justos e razoáveis», e que não lhe seria pedido que apresentasse as cifras necessárias para justificá­‑los [12].

 

Outras empresas parecem ter cobrado à Autoridade por trabalho que nunca realizaram, ou ter pago a subcontratados para os realizem em seu lugar por uma fracção do que receberam da APC. Contudo, mesmo quando confrontada com provas férreas de prática fraudulenta, a Autoridade continuou empregar essas empresas [13]. Quando o inspector­‑geral recomendou que o exército dos EUA congelasse pagamentos a empresas que pareciam ter inflado os preços, foi ignorado [14]. Ninguém foi processado ou punido. O departamento de justiça dos EUA recusa­‑se a prestar ajuda aos informantes que estão a levar essas empresa ante os tribunais [15].

 

O que torna tudo isto tão grave é que mais da metade do dinheiro que a APC estava a distribuir não pertencia ao governo dos EUA mas ao povo do Iraque [16]. A maior parte dele foi gerado pela vendas de petróleo realizadas pela coligação. Se pensam que o programa petróleo por alimentos da ONU tinha fugas, dê uma olhadela ao esquema petróleo para a reconstrução da APC. Durante todo o mandato da APC, nunca se mediu a quantidade de petróleo que corria pelos oleodutos do Iraque [17], o que significa que não havia forma de saber quanta da riqueza do país estava a Autoridade estava a extrair, ou se estava a pagar um preço justo por ela. A ACP, de acordo com o organismo de monitorização internacional encarregado da sua auditoria, foi também «incapaz de calcular a quantidade de petróleo... que foi contrabandeada» [18].

 

A Autoridade estava claramente a violar as resoluções da ONU. Tal como assinala a Christian Aid, a distribuição de dinheiro do Iraque pela APC era suposta estar sujeita a controle internacional desde o princípio [19]. Mas não se nomearam auditores até Abril de 2004: apenas dois meses antes de o mandato da APC expirar. Mesmo então, não tinham poder para lhe pedir responsabilidades ou mesmo para lhe solicitar que cooperasse. Mas escapou suficiente informação para sugerir que 500 milhões de dólares provenientes do petróleo iraquiano podem ter sido “desviados” (uma palavra educada para dizer roubados) para ajudar a pagar a ocupação militar [20].

 

Espero que os Srs. Hyde e Coleman não cessem de perguntar se o dinheiro do petróleo iraquiano foi gasto apropriadamente. Mas talvez não devamos ficar surpreendidos se o silêncio agradável persistir.

 

___________

[1] Paul Volcker, Richard Goldstone e Mark Pieth, 3 Fevereiro 2005. Interim Report. Independent Inquiry Committee into the United Nations Oil-for-Food Programme (pdf).

 

[2] Compilei esta cifra da estimative mais baixa (a providenciada pela Coligação para a Justiça Internacional) na tabela publicada por Paul Volcker et al., 3 Fevereiro 2005. Comparison of Estimates (pdf).

 

[3] Paul Volcker, Richard Goldstone e Mark Pieth, 3 Fevereiro 2005. Interim Report, ibid.

 

[4] ibid.

 

[5] BBC Online, 4 Fevereiro 2005. Annan vows action on corruption.

 

[6] Stuart W. Bowen, Jr, Inspector Geral Especial para a Reconstrução do Iraque, 30 Janeiro 2005. Report to Congress (pdf).

 

[7] ibid.

 

[8] Claude Hankes-Drielsma, 1 Fevereiro 2005, entrevistado em File on 4, BBC Radio 4.

 

[9] File on 4, 1 Fevereiro 2005. BBC Radio 4.

 

[10] A Defense Contract Audit Agency, citada por Michael Hedges e David Ivanovich, 12 Dezembro 2003. “Audit: Halliburton overbilled millions”. The Houston Chronicle.

 

[11] Carta de Mary C. Robinson, oficial contratista para o Army Corps of Engineers no Kuwait, para a KBR (antes Kellogg, Brown and Root), 6 Dez. 2003. Citada por Erik Eckholm, 11 Novembro 2004. “Halliburton May Have Been Pressured by U.S. Diplomats to Disregard High Fuel Prices”. The New York Times.

 

[12] Erik Eckholm, 11 Novembro 2004. “Halliburton May Have Been Pressured by US Diplomats to Disregard High Fuel Prices”. The New York Times.

 

[13] File on 4, ibid.

 

[14] Eg Seth Borenstein, 25 Novembro 2004. “Auditors: Withhold Part of Fee from Halliburton”. The Miami Herald.

 

[15] File on 4, ibid.

 

[16] O relatório de Stuart Bowen (ver [6] acima), dá os seguintes números. Em 31 de Dezembro de 2004, 24.100 milhões de dólares do dinheiro de reconstrução do Iraque vieram de fundos do governo dos EUA, 32.800 milhões de fundos iraquianos e 3.400 de fundos de dadores (outro auxílio bilateral e organizações internacionais).

 

[17] Report of the International Advisory And Monitoring Board of the Development Fund for Iraq (pdf), 2004.

 

[18] ibid.

 

[19] Christian Aid, 28 Junho 2004. Fuelling suspicion: the coalition and Iraq’s oil billions (pdf).

 

[20] Christian Aid, ibid.