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18/01/2005 Mundo de fantasia mediático Na quinta‑feira, o rei de conto de fadas da terra de encantar será coroado. Foi eleito numa plataforma suspensa no ar pelo poder da imaginação. Ele é o chefe de um bando de homens que caminham pelo reino fantasmagórico não visitado pela realidade. E permanece a pessoa mais poderosa da terra. Como é que isto aconteceu? Como é que um presidente de fantasia de um mundo de faz de conta veio a governar um país cujo poder foi construído com base em materialismo prático? Para descobrir, olhemos para duas pequenas histórias sórdidas que foram concluídas nos últimos dez dias. A primeira envolve a estação CBS. Em Setembro, o seu programa 60 Minutes conduziu uma investigação sobre como George Bush evitou a confusão do Vietname. Apresentou memorandos que pareciam mostrar que o seu comandante de esquadrão na Guarda Nacional do Texas foi persuadido a “açucarar” a sua folha de serviço. As alegações do programa foram imediatamente e convincentemente refutadas: os republicanos foram capazes de apontar para provas sugerindo que os memorandos tinham sido falsificados. Na semana passada, no seguimento de um inquérito ao programa, a produtora foi despedida, e três executivos da CBS foram forçados a demitir‑se. O incidente não poderia ser mais prestativo para Bush. Apesar de não haver dúvida que conseguiu evitar servir no Vietname, o colapso da história da CBS sugeria que todas as alegações feitas acerca do seu registo de guerra eram falsas, e o assunto saiu das notícias. A CBS foi furiosamente denunciada pelos pânditas de direita, com o resultado de que entre então e a eleição, dificilmente alguma estação se atreveu a criticar George Bush. Mary Mapes, a produtora que a CBS despediu, era a jornalista de investigação mais eficaz da estação: ela foi a pessoa que ajudou a trazer as fotografias de Abu Ghraib à atenção pública. Se os memorandos eram falsos, o falsificador era ou um imbecil ou um operador muito astuto. É verdade, evidentemente, que a CBS deveria ter tido mais cuidado. Mas penso que é seguro assumir que se a estação tivesse em vez disso transmitido alegações insustentáveis sobre John Kerry, nenhum dos seus executivos estaria agora à procura de trabalho. Quantas pessoas perderam o seu trabalho, na CBS ou noutro lado, por repetir histórias falsas lançadas pela Swift Boat Veterans for Truth sobre os antecedentes de Kerry no Vietname? Quantos foram despedidos por dar informações erradas sobre o caso Jessica Lynch? Ou por afirmar que Saddam Hussein tinha um programa de armas nucleares activo em 2003? Ou que ele estava a comprar urânio da Nigéria, ou a usar laboratórios de armas biológicas, ou tinha ajudado no 11 de Setembro? Quantas pessoas foram despedidas, durante a presidência de Clinton, por transmitir completas mentiras sobre o caso Whitewater? A resposta, em todos os casos, é nenhuma. Pode‑se dizer o que se quiser nos media dos EUA, desde que ajude um presidente republicano. Mas deslize‑se uma vez enquanto ele é questionado, e ser‑se‑á feito em pedaços. Mesmo as mais servis afirmações de lealdade não ajudarão. O apresentador de 60 Minutes, Dan Rather, é o homem que uma vez disse, «George Bush é o presidente, é o homem que toma as decisões e, sabem, tal como qualquer americano, ele quer que eu me apresente, basta dizer‑me onde» [1]. A CBS é possuída pelo conglomerado Viacom, cujo presidente disse aos jornalistas que «acreditamos que a eleição de uma administração republicana é melhor para a nossa companhia» [2]. Mas para a Fox News e os shockjocks sindicados pela ClearChannel, a tentativa hesitante de Rather no jornalismo de investigação é mais uma prova de «uma conspiração dos media liberais». Esta não é a primeira vez que algo semelhante aconteceu. Em 1998, a CNN fez um programa que afirmava que, durante a guerra do Vietname, as forças especiais dos EUA lançaram gás sarin em desertores que tinham fugido para o Laos [3]. Neste caso, havia bastantes provas para sustentar a história. Mas após quatro semanas de furiosas denúncias, o proprietário da estação, Ted Turner, pediu publicamente desculpas em termos que esperaríamos ouvir num julgamento encenado na Coreia do Norte: «Tirarei a minha camisa e flagelar‑me‑ei até fazer sangue nas costas». A CNN tinha errado, disse, ao transmitir as alegações quando «não tínhamos provas para além de uma dúvida razoável» [4]. Como apontou a página wsws.org, é difícil pensar numa única história de investigação – Watergate, o massacre de My Lai, o escândalo das armas britânicas para o Iraque – que pudesse ser provada no momento pelos jornalistas «para além de uma dúvida razoável» [5]. Mas Turner fez o que lhe era exigido, com o resultado de que, no mundo de fantasia mediático, a atrocidade é agora estimada como não tendo acontecido. A outra história sórdida rebentou três dias antes de o pessoal da CBS ter sido despedido. Um jornal dos EUA descobriu que Armstrong Williams, um apresentador de televisão que (entre outros empregos) tinha uma quota semanal num programa sindicado de tv chamado America’s Black Forum, tinha secretamente assinado um contrato de 240.000 dólares com o Departamento de Educação dos EUA [6]. O contrato requeria que ele «comentasse regularmente» o projecto de lei sobre educação de George Bush «durante o decorrer das suas transmissões» e se assegurasse que o «secretário de estado Paige [o secretário de estado da educação] e outros funcionários do departamento tenham a opção de aparecer de tempos a tempos como convidados do programa» [7]. É difícil perceber porque é que a administração se deu ao trabalho de lhe pagar. Williams é descrito como os seus “mentores” Lee Atwater – o homem que, sob a presidência de Reagan, trouxe uma nova violência à campanha republicana – e o senador segregacionista Strom Thurmond [8]. A sua carreira mediática tem sido dedicada a promover as causas republicanas extremistas e a atacar as campanhas de direitos civis. O que torna esta história interessante é que o programa em que ele trabalhava foi inaugurado, em 1977, pelos activistas negros Glen Ford e Peter Gamble, para «permitir aos jornalistas negros responsabilizar políticos e activistas de todas as convicções perante as pessoas negras» [9]. Venderam as suas acções em 1980, e o programa foi mais tarde comprado pelo Uniworld Group. Com a ajuda de Williams, os novos proprietários inverteram a sua política, e transformaram‑no num veículo de recrutamento para o Partido Republicano. Williams parece que vinha recebendo dinheiro por fazer o que fazia de qualquer modo. Estas histórias, por outras palavras, são ilustrações do modo como os media dos EUA são disciplinados pela América corporativa. No primeiro caso, os outros media corporativos juntaram forças para punir um dissidente nas suas fileiras. No segundo caso, uma corporação capturou o que foi em tempos um programa dissidente e transformou‑o noutro meio de engendrar a conformidade. O papel das corporações mediáticas nos Estados Unidos é similar à dos regimes de estado repressivos: elas decidem o que será ou não permitido ao público ouvir, e ou punem ou recrutam os desviados sociais que insistem em contar uma história diferente. Os jornalistas que empregam fazem o que quase todos os jornalistas trabalhando sob regimes repressivos fazem: interiorizam as exigências do censor, e compreendem, antes que alguém lhes diga, o que é permitido e o que não é. Assim, quando enfrentam uma escolha entre uma fábula que ajuda os republicanos, e uma realidade que os prejudica, escolhem a fábula. À medida que as suas fantasias se acumulam, a história que contam desvia‑se cada vez mais da realidade. Qualquer um que tente trazer as pessoas de volta à terra é denunciado como um traidor e um fantasista. E qualquer um que procure tornar‑se presidente deve em primeiro lugar aprender a viver no mundo de fantasia. __________ [1] Citado por Michael
Massing, 27 Setembro 2001. “Press
Watch”. The Nation. [2] Sem autor, 24 Setembro
2004. “Guess Who’s a GOP
Booster?” The Asian Wall Street Journal. [3] CNN, 7 Junho 1998. O nome
do programa foi “Valley of Death”. [4] Barry Grey, 16 Julho 1998. Why did CNN
retract its nerve gas report?. [5] ibid. [6] Greg Toppo, 7 Janeiro 2005. “White House
Paid Commentator to Promote Law”. USA Today. [7] David D. Kirkpatrick, 8
Janeiro 2005. “TV Host Says
U.S. Paid Him To Back Policy”. The New York Times. [8] George E. Curry, 17 Janeiro 2005. “Armstrong
Williams: No Money Left Behind”. New Pittsburgh Courier. [9] Glen Ford e Peter Gamble,
12 Dezembro 2002. “America’s
Black Rightwing Forum”. The Black Commentator, N.º 20. |