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Mundo

11/01/2005

 

Punitivo – e resulta

 

George Monbiot

 

«Não mostra já a resposta ao maremoto no sudeste asiático como tão próximas e irremediavelmente unidas... estão as fortunas das pessoas mais ricas nos países mais ricos ao destino das pessoas mais pobres nos países mais pobres?», perguntou Gordon Brown [1].

 

A resposta é não. É verdade que os muito ricos podem sentir pena pelos muito pobres, e que alguns deles responderam generosamente à última catástrofe. Mas é difícil imaginar como o destino e as fortunas dos mais ricos e dos mais pobres pudessem estar mais afastados. Os dez pessoas mais ricas da terra têm um valor neto combinado de 255.000 milhões de dólares – cerca de 60% dos rendimentos da África subsaariana [2]. As 500 pessoas mais ricas do mudo têm mais dinheiro que os ganhos anuais totais dos três mil milhões mais pobres [3].

 

O assunto – a desigualdade global – não foi mencionada nem no discurso de Brown nem na conferência de imprensa simultânea de Tony Blair. Na verdade, fracassei até agora em encontrar uma referência a isso nos recentes discursos de qualquer líder de uma nação do G8. Creio que a preocupação pelos mais pobres do mundo evidenciada por Blair e Brown é genuína. Creio que são sinceros quando dizem que porão os pobres no topo da agenda da cimeira do G8 em Julho. O problema é que a sua preocupação pelos pobres termina onde a sua preocupação pelos ricos começa.

 

Há, neste momento, um debate intenso entre os economistas sobre se a desigualdade global esta a subir ou a baixar. Ninguém discute que há um chocante abismo entre os ricos e os pobres, que sobreviveu a décadas de crescimento económico global. Mas o que os neoliberais – que promovem o capitalismo global desregulado – nos dizem é que não há conflito entre os caprichos dos abastados e as necessidades dos desventurados. A revista The Economist, por exemplo, argumenta que quanto mais liberdade damos aos ricos, melhor estarão os pobres. Sem restrições, os ricos têm um incentivo mais poderoso para gerar crescimento global, e este crescimento torna­‑se «a maré crescente que levanta todos os barcos». Países que intervêm no mercado com «impostos punitivos, grandiosos programas de despesa pública, e todos os outros instrumentos de justiça económica aplicada» condenam os seus povos a permanecer pobres. Um zelo pela justiça não faz «nada a não ser dano» [4].

 

Ora, pode ser verdade que o crescimento global, por pobremente distribuído que seja, está a tirar todos lentamente do lodo. Infelizmente não temos forma de dizer, pois o único conjunto actual de cifras de grande alcance sobre pobreza global é – como os pesquisadores da Universidade Columbia mostraram – tão metodologicamente defeituoso que é inútil [5].

 

Mas há outro meio de testar as hipóteses neoliberais, que é comparar o desempenho das nações que tomaram diferentes caminhos para o desenvolvimento. Os neoliberais despacham os problemas enfrentados pelos países em desenvolvimento como “dores de crescimento”, por isso olhemos para a coisa mais próxima que temos a um resultado final. Tomemos dois países que realizaram todo o caminho do processo de desenvolvimento e chegaram à terra prometida da prosperidade. Comparemos o Reino Unido – um pioneiro do neoliberalismo – e a Suécia: um dos últimos baluartes do distribucionismo. E façamos uso de um conjunto de estatísticas que o The Economist dificilmente discutirá: aquelas contidas na sua própria publicação, World in Figures de 2005 [6].

 

A primeira surpresa, para qualquer um que tenha engolido as histórias sobre o nosso dinamismo económico sem rival, é que, em termos de produto interno bruto, a Suécia saiu­‑se tão bem como nós. Em 2002, o seu PIB per capita foi de 27.310 dólares e o do Reino Unido foi de 26.240 dólares. Isto não é uma quebra. Em somente sete anos entre 1960 e 2001 o PIB per capita da Suécia ficou atrás do do Reino Unido [7].

 

Mais surpreendente ainda, a Suécia tem um superavit actual de 10.000 milhões de dólares e o Reino Unido um déficit de 26.000 milhões de dólares. Mesmo pelas medidas favoritas dos neoliberais, a Suécia vence: tem uma taxa de inflação menor do que a nossa, “competitividade global” mais alta e uma posição mais elevada em “criatividade nos negócios e investigação”.

 

Em termos de bem-estar humano, não há competição. Segundo a medida de qualidade de vida publicada pelo The Economist (o “índice de desenvolvimento humano”) a Suécia atinge o terceiro lugar mundial, o Reino Unido o 11º. A Suécia tem a terceira maior esperança de vida no mundo, o Reino Unido a 29ª. Na Suécia, há 74 linhas telefónicas e 62 computadores por cada cem pessoas; no Reino Unido, apenas 59 e 41, respectivamente.

 

O contraste entre as cifras médias é suficientemente severo, mas é de longe maior para a população com o nível social mas baixo. Talvez sem surpresa, o The Economist não publica estes dados, mas as Nações Unidas sim. O seu Relatório sobre Desenvolvimento Humano de 2004 mostra que na Suécia, 6,3% da população vive abaixo da linha de absoluta pobreza para as nações desenvolvidas (11 dólares por dia) [8]. No Reino Unido, a cifra é de 15,7%. O sete e meio por cento dos suecos são analfabetos funcionais – apenas um terço da cifra do Reino Unido, 21,8%. No Reino Unido, segundo um estudo separado, temos três vezes mais probabilidades de permanecer na classe económica em que nascemos que na Suécia [9]. Não é preciso dizer mais nada sobre o mercado desregulado que cria oportunidades.

 

As razões para estas diferenças são simples. Durante a maioria do século XX, Suécia exerceu, nas palavras de um panfleto recente publicado pelo Forum Catalyst, «políticas designadas a diminuir a desigualdade de condições entre classes sociais» [10]. Estas incluem o que The Economist chama «impostos punitivos» e «grandiosos programas de despesa pública», que, recordem, não fazem «nada a não ser dano». Estas políticas na verdade parecem ter incrementado a competitividade económica do país, enquanto asseguram que os pobres obtêm uma proporção mais alta do rendimento nacional total. Na Suécia, segundo a ONU, os 10% mais ricos ganham 6,2 vezes tanto dinheiro como os 10% mais pobres. No Reino Unido, o rácio é 13,8 [11].

 

Assim, para os países que têm a esperança de atingir a terra prometida, há uma escolha. Podem procurar replicar o modelo sueco de desenvolvimento – em que os benefícios do crescimento são amplamente distribuídos – ou o do Reino Unido, em que os benefícios se concentram nas mãos dos ricos. Esta é a teoria. Na prática, não têm escolha. Através do Fundo Monetário Internacional e da Organização Mundial do Comércio, os governos do G8 forçam­‑nos a seguir um modelo mais próximo ao do Reino Unido, mas ainda mais duro e menos distributivo. Dos dois tipos de capitalismo, Blair, Brown e os outros líderes do G8 escolheram para os países em desenvolvimento o que é menos provável que ajude os pobres.

 

A não ser que isto mude, o seu «plano Marshall para o mundo em desenvolvimento» é inútil. Brown critica severamente o facto de que, cinco anos depois de «quase cada país» ter assinado as novas promessas para eliminar a pobreza global, mas se fizeram progressos [12]. Mas as políticas que ele implementa como governador do FMI tornam este progresso impossível. Apesar de tudo o que nos disseram durante os últimos 25 anos, é ainda verdade que ajudar os pobres significa restringir os ricos.

 

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[1] Gordon Brown, 6 Janeiro 2005. International Development in 2005: the challenge and the opportunity. Discurso na National Gallery da Escócia.

 

[2] http://www.forbes.com/billionaires/

 

[3] John Cavanagh and Sarah Anderson, 2003. World’s Billionaires Take a Hit, But Still Soar.

 

[4] Sem autor, 11 Março 2004. “A question of justice?” The Economist.

 

[5] Sanjay G. Reddy e Thomas W. Pogge, Março 2003. How Not To Count The Poor (pdf, 499 kb). As suas conclusões e estudo estão resumidos em George Monbiot, Rich in Imagination, 06/05/2003.

 

[6] The Economist, 2004. Pocket World in Figures, 2005 edition. Profile Books, London.

 

[7] Pode ver uma tabela com as cifras de 1960 a 1998, reunidas para o Departamento do Trabalho dos EUA em http://www.publicpurpose.com/lm-ppp60+.htm. Tirei as cifras para 1999­‑2001 dos relatórios sobre Desenvolvimento Humano da ONU, 2001­‑2003.

 

[8] United Nations Development Programme, 2004. Human Development Report: Cultural Liberty in Today’s Diverse World. UNDP, New York.

 

[9] L. Dearden, S. Machin e H. Reed, 1997. Intergenerational mobility in Britain. Economic Journal #107; e T. Osterberg, 2000. Intergenerational Income Mobility in Sweden. Review of Income and Wealth Series 46, Nº 4, ambos citados em Ben Jackson e Paul Segal, Outubro 2004. Why Inequality Matters. The catalyst Forum, London.

 

[10] Ben Jackson e Paul Segal, October 2004. Why Inequality Matters. The catalyst Forum, London.

 

[11] United Nations Development Programme, 2004. Human Development Report: Cultural Liberty in Today’s Diverse World. UNDP, New York.

 

[12] Gordon Brown, ibid.